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Textos e Vídeos Templários em Destaque




 

PALAVRAS DO PRIOR POR OCASIÃO DA MISSA "IN MEMORIAM" DO 700 ANIVERSÁRIO DA EXECUÇÃO DE JACQUES DE MOLAY, EM 18.03.2014.

 

 

“Autoridades Civis, Militares e Religiosas,

 

Irmãos Templários e Simpatizantes do Templarismo Moderno,

 

Senhoras e Senhores.

 

Saudações a todos e o nosso muito obrigado por comparecerem a este ato religioso que o Priorado Magistral do Rio de Janeiro, da “Ordo Supremus Militaris Templi Hierosolymitani – OSMTH” – Porto – PT faz celebrar “In Memoriam” do martírio de nosso 23º Grão Mestre – Frère JACQUES DE MOLAY, ocorrido 700 anos atrás, exatamente neste dia, em Paris, França.

 

Conta-nos a história que os motivos que levaram o reino da França a decretar a prisão de seus líderes e a dissolução da Ordem do Templo, foram as heresias e a má conduta moral dos Templários. Pontos esses que desviavam a atenção do povo, que cultivava grande simpatia e respeito pelos Templarios, da dívida que o reino tinha para com a Ordem, que estava financiando a guerra contra a Inglaterra. Como não tinha como pagar, a solução foi a dissolução da Ordem, pois não existindo mais o credor não existiria mais a dívida. Mas esse foi só um dos motivos.

 

Outro dos principais motivos, do qual pouco se fala, foi o de que a Ordem estava incomodando o Estado francês com suas medidas de caráter social. Além do sustento das famílias dos Cavaleiros mortos em combate, implantou na Europa o sistema de irrigação, as cooperativas de agricultores e de moleiros, construção de vilas operárias em suas terras entre outras, medidas essas que poderiam levar o povo que cultivava as terras do reino a reivindicar as mesmas ao Rei.

 

Mas, o principal motivo foi a proposta feita pela Ordem de que se criasse um Órgão supra reinos que zelasse pela paz e a harmonia mundial, sem poder para interferir nos atos e negócios dos reinos, mas com poder de punição em casos de transgressão a determinadas regras. Ou seja, uma autoridade sinárquica, o que vem a ser hoje a ONU – Organização das Nações Unidas. Tal proposta causou grande inquietação em todos os reinos da Europa, pois viram o poder absoluto que exerciam ser ameaçado. Viram que a única organização que poderia assumir esse novo órgão era somente a Ordem do Templo, contra a qual nenhum reino tinha exército suficiente para enfrenta-la. Na verdade, a Ordem já era um poder acima dos outros reinos, devendo obediência somente ao Papa. A Igreja que à época tinha sua sede na cidade de Avignon – França, tendo sido a Ordem desbaratada, nada pôde fazer a não ser concordar com as decisões do Rei sob a ameaça de ser expulsa do território Francês. Essa, foi, a nosso ver, a principal causa da humanidade ter assistido tão injusta e despropositada execução.

 

Assim, Irmãos, como não podemos voltar ao passado e reconstruir os fatos, resta-nos tirar uns bons momentos para refletir sobre tão lamentável e vergonhoso episódio da história da Humanidade. Como estaria o mundo hoje não fosse a Ordem dissolvida? Teríamos tido tantas guerras e desgraças desde então? Haveria melhor distribuição de bens e riquezas? Haveria melhor educação e condições de vida para os menos favorecidos? Haveria menos fome no mundo?

 

A Ordem foi oficialmente dissolvida e desbaratada. Foram 700 anos de clandestinidade em que a força de seus princípios e ideais fizeram que sobrevivesse até os dias de hoje.

 

A “Ordo Supremus Militaris Templi Hieorosolymitani – OSMTH” – Porto – PT é uma Ordem Ecumênica Cristã, sucessora autêntica da Ordem do Templo de Jacques de Molay através de cadeia ininterrupta de transmissões e que, como tal, à vista das injustiças perpetradas e “IN MEMORIAM” pelos benefícios que trouxe para a humanidade, aguarda o reconhecimento de sua autenticidade pela Igreja, tudo dentro dos limites jurídicos e canônicos possíveis nos dias de hoje.

 

A ORDEM DO TEMPLO VIVE.”

 

 

Priorado Magistral do Rio de Janeiro

F. João José Baptista Neto – M.C.

Prior



 

A TEMPLEBRASIL E A IRMANDADE DA SANTA CUZ DOS MILITARES

 

 

Aproveitando o anúncio feito recentemente (14.09) de que a terceira Investidura de Cavaleiros Templários da TempleBrasil - representante jurídica do "Prioratus Flumineus Ianuariae" (Priorado do Rio de Janeiro) da "Ordo Supremus Militaris Templi Hierosolymitani - OSMTH" (Ordem Soberana e Militar do Templo de Jerusalém) Porto (PT) - se dará no dia 24.10.14, às 18:00 hrs. na Igreja da Irmandade da Santa Cruz dos Militares, informamos que tivemos a grata satisfação de constatar, através de reportagem publicada no Jornal O Globo de 14.09, que abaixo transcrevemos alguns trechos de interesse, que a TempleBrasil é a mais jovem irmã da Gloriosa Irmandade.

 

A Irmandade foi fundada em 14.09.1623 pelo Governador Martim de Sá, na Cidade do Rio de Janeiro, na Rua Primeiro de Março - Centro, dando início à construção da Igreja onde antes existia uma antiga fortaleza.

 

A Irmandade tinha, e ainda tem entre suas muitas atividades beneficentes, a de "aliviar da miséria as viúvas e filhos dos que seguem a nobre profissão das armas", objetivo esse que nos deu a certeza de que estávamos diante da ramificação brasileira da antiga e gloriosa Ordem do Templo dos autênticos Cavaleiros Templários fundada por Hugh de Payens em 1118, em Jerusalém.

 


Cruzes Templárias

Não só o objetivo beneficente nos levou à essa associação, mas também os inúmeros brasões de nobres Cavaleiros que se encontram em suas paredes, que lá se encontram enterrados, e, em especial, uma placa de bronze com as Cruzes das três principais Ordens Templárias que davam suporte `à Irmandade - A Cruz da Ordem de Cristo (a do centro), a da Ordem de Calatrava (a da esquerda) e a da Ordem de Santiago. Como sabemos, a Ordem de Cristo foi criada por Bula Papal em 1319, logo após a execução de Jacques de Molay, último Grão Mestre da Ordem do Templo, em continuidade à Ordem recentemente suprimida, passando a ter sua Sede em Portugal. Dela fizeram parte Cavaleiros com Pedro Álvares Cabral, Vasco da Gama, Fernando de Magalhães, Tomé de Sousa, Infante Dom Henrique, entre outros.

 

Assim a ela se referiu Duque de Caxias, em 1871 quando Provedor da Irmandade:

 

"Os laços da espada nos unem, as lides de guerra nos ligam e os braços da cruz nos abrigam.

Irmãos pela cruz e Irmãos pela espada, a nossa missão é sagrada: santificar o culto do divino Senhor e aliviar da miséria as viúvas e filhos dos que seguem a nobre profissão das armas.

Eis a justa finalidade da sábia e religiosa instituição denominada Irmandade da Santa Cruz dos Militares."

 

Marechal Luiz Alves de Lima e Silva - Duque de Caxias (Provedor da Irmandade em 1871).

 

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Transcrição de parte da reportagem de Chico Otávio publicada no jornal O Globo, de 14.09.13:

 

 

SEGREDOS DA ORDEM MILITAR

 

 

Irmandade Santa Cruz, que abrigou agentes da repressão, luta contra fantasmas do passado.

 

 

Trechos:

 

 

"....Cercada de mistérios e tradição, a ordem católica brasileira que mais se aproxima dos templários europeus está fazendo 390 anos. Erguida no século XVII para servir de sepulcro aos militares, a igreja é uma relíquia histórica."...

 

 

"...Embora a irmandade administre mais de 500 imóveis, a maioria doada por militares católicos no século passado, 30% de sua renda bruta está comprometida com projetos de assistência social, incluindo um lar para idosos na Penha. Por tradição, distribui ainda, todo ano, um pecúlio a cerca de 100 pensionistas, todas viúvas de irmãos militares."....

 

 

DUQUE DE CAXIAS ENTRE OS MEMBROS

 

 

"Pela cadeira de provedor na irmandade, postada na primeira fila da igreja, já passaram personalidades históricas como Duque de Caxias, Conde D'Eu, Eurico Gaspar Dutra e Henrique Teixeira Lott." .....

 

"Quem passa apressado pela porta da igreja não imagina que o lugar já abrigou uma fortificação - nos tempos em que a Baía de Guanabara avançava até a Rua Primeiro de Março, antiga Rua Direita - e posteriormente serviu de jazigo para militares portugueses e brasileiros." ....

 

 

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Arauto do Templo.



CARTA DO GRÃO MESTRE - SEGUNDO SEMESTRE 2009


ORDO SUPREMUS MILITARIS TEMPLI HIEROSOLYMITANI


MAGNUM   MAGISTERIUM 


 

SAUDAÇÕES ÀS IRMÃS E IRMÃOS TEMPLÁRIOS !

 

ESTAMOS NO 4º PERÍODO HISTÓRICO DA ORDEM, INICIADO COM A PUBLICAÇÃO PELO VATICANO, DA ACTA DA INOCÊNCIA DOS TEMPLÁRIOS.

 

NÃO É PRECISO ESTAR A FALAR DAS MENTIRAS E CALÚNIAS DE FELIPE O BELO E DOS SEUS CONSELHEIROS, PARA “EXPROPRIAR, NACIONALIZAR OU OUTRO TERMO AGORA USADO” PARA FICAREM COM OS BENS DA ORDEM.

AS 3.000 OU 8.000 COMENDADORIAS ERAM UM VALOR INCALCULÁVEL PELAS ÁREAS ARÁVEIS QUE A ORDEM TINHA, PORQUE UMA COMENDADORIA ERA SEMPRE UMA CASA OU UM PEQUENO CASTELO ONDE HABITAVA O COMENDADOR QUE GOVERNAVA ESSA PROPRIEDADE AGRÍCOLA PORQUE A RIQUEZA OU O TESOURO QUE CERTOS ESCRITORES FALAM E A “PROCURAR” ESTÁ NA TERRA ONDE SE PRODUZEM OS ALIMENTOS E O PÃO DE CADA DIA. POR ISSO COM A DESTRUIÇÃO DA ORDEM EM FRANÇA, A FRANÇA SOFREU FOME POR DEZENAS DE ANOS! E ESSE FENÔMENO DA FOME PAIRA SOBRE A TERRA, ONDE MILHÕES DE SERES HUMANOS SOFREM POR NÃO TEREM O QUE COMER DIARIAMENTE.

PORTANTO ASSIM PROCLAMEI O CONVENTO GERAL DA ORDEM PARA QUE – VER A FOLHA ONDE SE INDICA OS ASSUNTOS MAIS IMPORTANTES QUE A ORDEM ( POR PRESENÇA OU POR ESCRITO – FRANCÊS, PORTUGUÊS, ESPANHOL E INGLÊS) POSSAM OS QUE ASSIM O DESEJAREM PARTICIPAR COM AS SUAS IDÉIAS E ANOTAR QUE O CONVENTO GERAL NÃO É UNICAMENTE O DIA INDICADO; MAS SIM OS QUE FOREM NECESSÁRIOS EM DATAS POSTERIORES E LOCAIS DESEJADOS. SEM DÚVIDA QUE A 1ª – RELAÇÕES COM O VATICANO – TERÁ UMA COMISSÃO ESPECIAL E DEVIDAMENTE COMPROVADA, PARA ESSA EXTRAORDINÁRIA MISSÃO QUE TERÁ MUITO TRABALHO DIFERENCIADO E AO MESMO TEMPO RESPEITÁVEL.

PARA MUITOS A ORDEM FOI UMA ORGANIZAÇÃO MILITAR E SEM DÚVIDA QUE FOI E MUITOS GRÃOS MESTRES MORRERAM EM BATALHAS A DEFENDER O CRISTIANISMO.

CONTUDO PERMITO-ME AOS QUE JÁ VISITARAM O CASTELO DE PONFERRADA, QUAL A RAZÃO DE TÃO GRANDE CONSTRUÇÃO NUM LOCAL DOS MAIS PACÍFICOS DE ESPANHA?

PORQUE O BRAZÃO DA CIDADE DE VIGO TEM UMA MURALHA E UMA ÁRVORE QUE É UMA OLIVEIRA PLANTADA PELOS TEMPLÁRIOS! E HÁ UMA OLIVEIRA PROTEGIDA POR UMA GRADE COM UMA PLACA DIZENDO ORIGEM TEMPLÁRIA NO PASSEIO AFONSO XIII – VIGO (ESPANHA). PORQUE DOM GUALDIM PAIS, O MAIS ALTO DIGNITÁRIO PORTUGUÊS ESTEVE 5 ANOS EM JERUSALEM COM OS GRÃOS MESTRES DA ORDEM, QUE REGRESSANDO TROUXE MUITOS CONHECIMENTOS E INFORMAÇÕES QUE FORAM APLICADOS POSTERIORMENTE.

 

COMO ESTA COLECTANEA VAI CHEGAR A MUITOS NO MÊS DE DEZEMBRO APROVEITO PARA DESEJAR MUITO BOAS FESTAS DE NATAL E DE FIM DE ANO E QUE 2010 SEJA MELHOR EM TODOS OS SENTIDOS E PAZ NA TERRA.

 

PORTO, 19 DE NOVEMBRO 2009 ( 891 – 49 )

 

 

COLECTANEA L – 1000 (2ème. 2009 )

 

 

TIMBRE E CHANCELA DO GRÃO MESTRE




 

ORDO SUPREMUS MILITARIS TEMPLI HIEROSOLYMITANI


MAGNUM   MAGISTERIUM 


2 0 1 0


C O N V E N T U S     G E N E R A L I S



J U I N

 

1) VATICANO – 2) ANIVERSÁRIO: 50 ANOS – 3) ESTATUTOS – 4) REGULAMENTO

– 5) SEDE – 6) INVESTIDURA – 7) ARQUIVO: ANTIGO – 8) ARQUIVO: ACTUAL

– 9) MUSEU – 10) LISTA ACTUAL: GRÃOS PRIORES GERAIS 2 – GRÃOS PRIORES

25 - PRIORES 10 – VISITADORES 22 – LEGADOS MAGISTRAIS 24 – ETC.- 11)

COLECTANEAS 50 ( EM CINCO ENCADERNAÇÕES ) – 12) MEDALHAS 7 – 13)

LISTA DE EX-MEMBROS – 14) ORGANIZAÇÕES PSEUDO TEMPLÁRIAS – 15)

UNIDADE TEMPLÁRIA – 16) INFORMAÇÃO INTERNACIONAL – 17) REGISTRO

INFORMATIVO DOS GRÃOS PRIORES E PRIORES – 18) BIBLIOTECA TEMPLÁRIA: a)

Livros Antigos b) Livros Século XX e XXI c) Revistas, Jornais etc. –

19) FOTOGRAFIAS: CERIMÔNIAS, INVESTIDURAS, CASTELOS, IGREJAS, CAPELAS,

SÃO BERNARDO DE FONTAINE ABADE DE CLAIRVAUX, ETC.

 

 

PORTO, le 20 AOÛT 2009




 

TIMBRES E CHANCELA DO GRÃO MESTRE

51ème. MAGNUS MAGISTER ET PRINCEPS REGENS

 

 

TO BE TRANSLATED INTO FRENCH, ENGLISH and GERMAN

 

 

Rel. M. M. nº I-MMIX

  

 





Carta Semestral do Grão Mestre

Saudações!


Aos Irmãos e Irmãs da Ordem do Templo.


Estamos no 4º período histórico da Ordem, que é iniciado pela publicação do livro “Processo contra Templarios” que só foram editados 799, edição já esgotada, e onde está reproduzida a Acta na qual se indica claramente e sem dúvidas algumas da inocência dos Templários em face das mentiras e calúnias de Filipe O Belo e dos seus conselheiros.

 

Esta publicação do Vaticano em 2008 – 890 anos da fundação da Ordem – é uma luz que se abre e os actuais têm a possibilidade de – estudos e observações a fazer – pois os actuais Templários não vão usar a espada mas sim actividades acordadas e sempre em defesa do Cristianismo e da vida de todos mesmo aos que nào professam o Cristianismo.

 

Isto obriga a muitas reflexões e será um trabalho nobre para a Ordem.

 

O 1º Período – 1118 – 1314 – Todos sabem os acontecimentos desse período.

 

O 2º Período – 1314 – 1705 – A Ordem continuou com outros nomes: Cristo, Montesa e mesmo em França pois os Templários que conseguiram escapar da tortura e suplícios infames e os que não foram presos no dia – prisão coletiva no mesmo dia em 1307 escaparam para suas famílias nobres etc..

 

O 3º Período é atribuído pelos Estatutos – 1705 – Decretados por S.A.R. Filipe D’Orleans, Regente da França na menoridade do Rei Luis XV – e é um período conturbado com revoluções, 2 guerras mundiais e etc. que os actuais Templários sabem por suas leituras e devoção à Ordem no seu passado, presente e futuro.

 

4º Período histórico da Orden – Temos uma missão a cumprir e isso é comum a todos os Templários dignos desse nome e defensores da verdade e contra a calúnia.

 

As nossas Saudações

 

Porto, 30 Abril 2009 ( 891 - 49 )

 

 

Colectánea XLIX – 1000 ( 1er de 2009 )  



Biografia de Jacques de Molay

Em Homenagem ao 695º Aniversário de sua Morte

Publicado no Site da OSMTJ-Es em 19.03.09
Traduzidos mediante autorização para publicação no site:
http://www.templebrasil.org.br

 

695º aniversário da morte de Jaques de Molay

Último Grão Mestre da primeira etapa da Ordem do Templo

 


Jacques de Molay

BIOGRAFIA DE JACQUES DE MOLAY

O mais estranho dessa família é que não se encontram vestígios de suas origens. É possível que algum fato acontecido anteriormente, tendo por protagonista algum de seus membros, fizesse com que se tratasse de apagar tudo. Alguns estudiosos da nobreza incluem De Molay na genealogia de Lonvy por ser Molay um povoado do Senhorio de Rahon, propriedade do pai de Jacques de Molay, que foi o último Grão Mestre da Ordem do Templo.

Da família Molay só se conhece Juana Bacon, Dama de Molay em 1371. Dito território passou à casa de Choiseul por motivo das ligações com a nobreza de Borgonha.

Jacques Bernard de Molay nasceu em Borgonha em 1240, filho de Juan, Senhor de Lonvy, herdeiro de Mathe e Senhor de Rahon, grande povoado perto de Dole do qual dependiam muitos outros, mas principalmente Molay, e este era uma paróquia da Diocése de Besanzon, no Decanato de Nenblans.

Entrou na Ordem do Templo em 1265 recebendo-o Fr. Imbert de Perand, visitador da França e do Portu, na capela do Templo da residência de Belna.

Foi padrinho de batismo de um dos filhos do rei francês Felipe o Belo, que com o tempo viria a ser o delator e verdugo da Ordem e deste Grão Mestre.

Foi para Ultramar onde deu provas de intrepidez e energia, mostrando relevantes qualidades sob as ordens do Grão Mestre Fr. Guillermo de Beaujeau, que morreu heroicamente defendendo Acre com quase a maior parte dos Templários que combatiam a seu lado.

Após a morte do Grão Mestre Tibald Gaudin Jacques de Molay foi eleito Grão Mestre, embora no momento de sua eleição se encontrasse fora de Chipre em uma missão extraordinária.

Nao tardou muito o novo Grão Mestre corresponder às esperanças depositadas nele pelos Templários que o elegeram, mostrando-se digno do cargo que lhe haviam confiado. Reorganizou e reforçou a Ordem com prudência e acerto para desfechar novas empresas na Terra Santa, capitaneando as expedições contra os muçulmanos em 1293 e 1305, conseguindo entrar em Jerusalem no ano de 1298 e derrotando o Sultão do Egito, Malej Nacer, em 1299 perto da cidade de Emesa. Em 1300 organizou uma incursão contra Alexandria e esteve a ponto de recuperar a cidade de Torsota, na costa Síria, para a cristandade.

Ao contrário do que o taxavam de fraco, soube defender até a morte, o que foi um dos motivos para acabar com a Ordem e sucumbir com ela, a independência da Ordem do Templo do resto das ordens militares e de a cada dia ser mais poderoso do que as monarquias absolutas européias.

PROCESSO CONTRA O TEMPLO

O processo dos Templários é uma página da história medieval que admite acirradas polemicas. Um enfoque o sustentam os historiadores consagrados a proclamar a inocência dos monges soldados e a enaltecer suas virtudes, já que o templário veio a representar a sublimação do Cavaleiro medieval. Sua exemplar vida casta, concretizadas em heróicas atuações bélicas nos teatros de operações onde atuou e o contraponto de sua vida monacal, foram enaltecidos por São Bernardo em um canto aos Cavaleiros de Cristo, que acrisolavam uma imagem adequada ao espírito da Ordem e cuja praxis desenvolveram seus membros com uma fidelidade absoluta a suas regras. Diametralmente oposto ao que se quis vender pela corte parisiense.

O processo não pode ser analisado como um fato isolado desgarrado de seu entorno, senão que requer ser estudado em seu contexto histórico econômico-político e religioso. A animosidade contra a Ordem se encontrava em estado letárgico em certos círculos da corte e de eclesiásticos, que os contemplavam como orgulhosos. Felipe o Belo não obstante, foi o principal artífice da rede de acusações vertidas no processo. Durante seu reinado colidiram-se a teocracia e as idéias de Estado, as pretensões de independencia do monarca frances frente à concepção universalista da Igreja. Ao deslocar Clemente V a corte pontifícia para Avignon, triunfou a ideía estatal do monarca, deixando o Papado indefeso frente a realeza, assim como às Ordens Militares.

O processo não é um processo criminal comum, senão político seguindo o procedimento de exceção da Inquisição. Não pretende descobrir a verdade, senão converter em culpável um suspeito. O ataque contra o Templo, deve se situar no contexto de um problema de poder e de meios: ajustar contas com o papado e se apoderar dos bens do Templo. O Templo estava no centro de ambos os problemas.

A Ordem não representa na França um perigo militar, diferentemente do que acontece na Espanha. O problema parece mais de caráter político. O rei francês, Felipe o Belo, Jaime II, Eduardo I e Eduardo II, adotaram frente ao Templo e ao Hospital, a mesma política: reduzir seus privilégios.


Felipe o Belo

Como consequencia dos fracassos na Terra Santa, as Ordens se mantêm na defensiva. Os reis têm litígios com o Papado, por diversos motivos. As Ordens são poderosas e independentes do poder real, sujeitas só à autoridade do Papa. O rei francês, igualmente aos monarcas inglês e espanhol, compreendem a necessidade de debilitar em seus reinos a influência das Ordens Militares. Em lugar de reforçar uma eliminando a outra, preferem criar uma nova Ordem sobre as ruínas do Templo.

Jaime II, tenta criá-la baseando-se nas ordens Nacionais Ibéricas, enquanto que Felipe, deseja uma ordem que ele possa controlar.

As Ordens Militares Internacionais eram um obstáculo para o desenvolvimento das monarquias centralizadas e, por isso, considerava que deviam desaparecer. A eliminação do Templo vinha a ser a primeira etapa, já que no ânimo do rei francês gravitava o desejo de eliminar posteriormente o Hospital.

A tortura formava parte do arsenal da justiça nos procedimentos judiciais do Medievo. Na França, Navarra, Provença e Nápoles e nos Estados Pontifícios, se aplica e os templários confessam, enquanto que na Península Ibérica, Itália setentrional, Alemanha e Inglaterra, ao não se aplicar, não confessam. A tortura do S. XIII procede da Inquisição (1235) e se aplicava para combater a heresia a cargo das Ordens Mendicantes, Franciscanos e Dominicanos. Inocêncio IV vê a tortura como meio de obter a verdade, determina seu uso e disfarça seu emprego. Clemente V em 1265, confirma a Bula de 1252 Ad Extirpendam e ordena sua aplicação. A tortura estabelece um laço entre o inquisidor e o torturado. Entre os templários torturados que confessaram enormidades, muitos haviam se comportado heroicamente nos muros de Acre, Safed, Ruad e Trípoli. Eram guerreiros formados para combater o infiel e preparados para um tipo de sacrifício. Os muçulmanos não perdiam tempo torturando, cortavam ritualmente o pescoço.

No processo a Ordem estava predestinada pela inveja do rei, do clero, da nobreza e do parlamento. Tinham mantido relações com o rei, de poder a poder, de credor a devedor, o haviam protegido em diversas ocasiões, o que fazia que o monarca se sentisse humilhado; haviam professado um internacionalismo (federalismo ou sinarquia). Destruindo a Ordem do Templo, Felipe o Belo afirmava a tendencia ao absolutismo, ao poder totalitario que frente a ele havia manifestado Federico II de Hohenstanfen. Foi o primeiro passo num caminho que, seguirão todos os que transformarão o poder real em poder monárquico: assegurar-se do poder espiritual.


Clemente V

É o mesmo gesto que o de Francisco I ao se atribuir, pelo Concordato de 1516, a nomeação dos bispos e dos abades no reino, ou o de Luis XIV, quando revoga o édito de Nantes, ou quando ordenava tomar Avignon, a fim de intimidar o Papa Inocêncio XI. A supressão da Ordem do Templo não deixa de anunciar, embora empregando diferentes métodos, o dos Jesuítas em fins do século XVIII.

Dado seu poderio economico-militar, a unica forma de eliminação possível era por meio da calúnia. O plano urdido consistiu em separar a Ordem do poder espiritual, alienando-a de todos os cristãos; buscar a participação do Papa para assegurar a adesão dos Reis e conseguir a dissolução da Ordem, propor a fusão com a Hospitalária, para eliminar a independencia templária, a nomear Grão Mestre o irmão do rei da França, Felipe o Belo, debilitar seu poderia economico-militar ao controlar o próprio monarca, evitar uma confrontação de guerra que não prosperaria, dado o potencial bélico da Ordem Templária. O meio que empregaram foi a imputação de heresia, sodomia e crimes contra a Igreja.

Com uma demonstração de eficácia policial, levou-se a cabo a detenção, realizada no mesmo dia e à mesma hora em todas as comendadorias francesas, operação minuciosamente preparada um mês antes, avisando em correspondências lacradas e totalmente reservadas às autoridades que deveriam executá-las. O Papa, em lugar de averiguar se realmente eram hereges e neste caso excomungá-los e colocá-los à disposição da autoridade temporal para executar a sentença, coloca à mercê do rei os templários. Para quebrar o ânimo e arrancar confissões, aplica-se o tormento. Os presidentes dos Concílios Provinciais eram vinculados e incondicionais ao rei; os interrogatórios escritos se realizaram na prisão. A Ordem é condenada sem escutar a defesa, com o veto de Aragón e Cataluña. A sentença é de dissolução da Ordem (Concílio Ecumênico de Viena em 1312), e condenatória para os altos dignitários da Ordem (a morrer na fogueira estes e os cavaleiros relapsos) e confiscatória dos bens com destino à Ordem Hospitalária.

O Rei agiu impulsionado pela inveja, cobiça e despeito, ao se sentir humilhado; o Papa atuou servilmente, por fraqueza e temor a um novo cisma; Nogaret procedeu por ambição desmesurada e desejo de conseguir um rendimento vitalício da corte (prebenda), os juristas se mostraram desonestos e maus conselheiros, a opinião pública não reagiu e aceitou pacificamente o veredito.

CRONOLOGIA

 1294
(1292/1296?) Jacques de Molay é nomeado Grão Mestre.
1299
Expedição templária ao Egito.
1303
Se perde a ilha de Rouad, frente à fortaleza de Tortosa.
1304


Conclave de Perusa (Agen). Surgem as primeiras acusações contra o Templo.
 

1305
(14-11) Clemente V (Beltrán de Got) é coroado Papa em Lyón. Propostas do Papa para unificar as ordens militares.
1306
Clemente V ordena vir de Chipre Jacques de Molay.
 
1307No início do ano chega Jacques de Molay a Paris.
(14/09) . O Rei da França envía aos juízes cartas lacradas com a ordem de prisão dos templários por “presunções e violentas suspeitas” originadas pela “denúncia” de Esquieu de Floryan.
(14/10). Se difunde em Paris o manifesto real e se executa a ordem de prisão. A acusação é de apostasia, ultraje a Cristo, ritos obscenos, sodomia e idolatria.
(19/10 a 24/11).Se procede aos interrogatórios. Dos 138 interrogados, 36 morrem por torturas.
(27/10). Clemente V protesta ante Felipe da França pela prisão.
(22-11). A bula Pastoralis Praeminentiae, de Clemente V ordena aos príncipes cristãos que prendam os templários. A mudança de atitude se deve,  acusações.
 
1308(25/3) O rey da França convoca os Estados Gerais e exige que os templários sejam condenados.
(26/5) Felipe o Belo se desloca a Poitiers para se entrevistar com o Papa.
(27/6 a 1/7). 72 templários comparecem ante Clemente V. O Rei mantem a custódia dos bens, mas a das pessoas passa para a Igreja.
(12/8) Se nomeiam comissões eclesiásticas sob a autoridade do bispo de cada diocese.
1309
(8/8) Abre as sessões a comissão eclesiástica de Paris, um ano depois de sua constituição.
(26/11) Comparece ante a comissão Jacques de Molay.
 1310
(11 de maio) Concílio provincial em Sens,  45 templários revogam suas confissões, são acusados de "relapsos".  São queimados no dia seguinte.
 
1311(5 de junho) a comissão episcopal dá por terminados seus trabalhos, coincidindo em que não se pode condenar a Ordem sem haver ouvido publicamente sua defesa.
(16-10) Abertura do Concílio de Vienne.
 
 1312
(20-03)Felipe se apresenta no Concílio de Vienne.
(22/3) supressão sem condenação. Vox in excelso.  Na Escócia não se promulga dado  que  o Rei  Robert de Bruce estava excomungado.
(2-5) A bula Ad Providam distribui os bens do Templo.
 1313
 Bulas papais para que os reconciliados fossem recebidos em monastérios.
 
 1314
(18/03) Sentença contra Jacques de Molay e dignitários (19/03) Morre na fogueira o Grão Mestre, Jacques de Molay e Charnay.

 

A TRANSMISSÃO

Muitas são as versões que se dão aos últimos dias de Jacques de Molay quanto o preparar uma possível sucessão. Uma fala da transmissão de conhecimento através do Cavaleiro Francisco de Beaujeu, sucedendo-lhe o Cavaleiro d'Aumond, o qual continuou sua obra na Escócia. Outra versão mais arraigada é a que advoga pela sucessão através de Juan Marco L'Armenius.

Em 1810 o abade Gregoire menciona em um estudo que Jacques de Molay não podia continuar vivendo com a consciência de haver desonrado a Ordem com suas declarações e que não desejava viver preso toda sua vida, senão morrer havendo retificado. Não podia fazê-lo sem transmitir a um sucessor a mestria, escolhendo L'Armenius, primado da Ordem e Comendador de Jerusalém. A seguir, se retifica publicamente e morre.

Não ha dados confiáveis de quem pudesse ser "L'Armenius". Alguns consideraram que se tratava de um nome iniciático: L'Armenius seria "o Armenio" e também alguém de família nobre e portanto revestido de arminho. Muitos historiadores rechaçam a autenticidade da carta, baseando suas objeções na tradução do Latim original já que esse documento é uma transcrição que se baseia em uma chave geométrica da cruz paté.

 


Morte de Jacques de Molay

É a partir de L'Armenius que se urde a trama da transmissão regular da mestria templária.

Encontram-se entre os sucessores de L'Armenius nomes conhecidos como Teobaldo de Alejandría e Bertrand de Gesclin que foi defensor de Enrique de Trastámara contra seu irmão o rei de Castilla. Na biografia de Du Gesclin, que é muito bem documentda, não aparece nenhuma referencia que faça intuir tal filiação. Mas isso seria só uma prova a mais da discrição com que atuavam.

A Carta aparece quando a exibe Fabre Palaprat, reclamando sua sucessão, mas anteriormente havia sido invocada por Felipe de Orléans para justificar sua autoridade ao convocar um Convento Geral em Versalles.

 LA SOBREVIVENCIA DO TEMPLO

A Ordem do Templo foi suspensa. Seus membros foram tratados com a máxima dureza na França, mas na Alemanha, Inglaterra e Itália se lhes permitiu ganhar a vida como guerreiros, escudeiros, arquitetos, contramestres, artesãos e operários. As relações que a Ordem havia mantido com as associações operárias facilitaram a fusão dos membros do Templo com os construtores de igrejas e castelos. Os capelães e monges, eram muitos arquitetos e mestre de obras, que tinham recebido instrução dos beneditinos e dos cistercienses.

Para Portugal emigraram muitos templários procedentes da Espanha e do sul da França, salvo os de Aragón e Baleares, que se intregaram com os franciscanos. Em Portugal, se constituiram como Ordem de Cristo, adotando a regra da Ordem de Calatrava. Os Cavaleiros de Cristo são herdeiros diretos dos Templários. Atualmente são laicos.


Placa atual de lembrança
a Jacques de Molay

Na Alemanha, se expandiu no S. XVIII, o mesmo na França a Estrita Observância, ordem pseudo-templária. Nos países flamengos, Bruxelas acolheu na Bélgica os templários. Na Grã-Bretanha, se introduzem filiais para continuar as idéias templárias, depois de sua dissolução. Na Itália, os templários ingressaram na Fede Santa e nos Fideli D'Amore, mantendo os princípiops joanistas e sinárquicos, cujas pegadas se encontram em Dante. Era muito orientalizada por artesãos muçulmanos da Sicília e Toscana. Renovaram o comércio.

Entre os brotos da sobrevivência figuram os Cavaleiros de Cristo em Portugal (integrado por navegadores e comerciantes, que contribuiram para a extensão colonial de Portugal), os partidários de Marc L'Armenius (armenio sucessor de Jacques de Molay), os partidários de Pierre D'Aumont e os dissidentes ou desertores. O templarismo persistiu com grande facilidade em Portugal, pela ajuda da dinastia Aviz.

Após a dissolução, muitos templários se casaram e foram para países estrangeiros, transmitindo a seus descendentes os conhecimentos que tinham da Ordem. Estes descendentes regressaram a França e administraram os bens templários que não haviam sido sequestrados. A continuidade da Ordem está consignada em atas dos S. XV, XVI e XVII.

Os antigos monges soldados, tinham que viver nos conventos que a Ordem havia possuido ou a ingressar em uma instituição religiosa. Em 1318, decidiu-se que não residissem mais de dois freires em um mesmo convento, salvo se o fizessem nos da Ordem do Hospital. Os que não se enclausuraram, se casaram e se dedicaram a diversos ofícios.

Clemente V, ganhou a disputa com Felipe o Belo conseguindo que os bens da Orden passassem à Ordem geograficamente mais próxima material e geograficamente. Na Espanha a Ordem de Calatrava foi a mais beneficiada. A experiência marítima dos templários reagrupados na Ordem de Cristo foi importante na expansão portuguesa.

O TEMPLO CONTINUA MAIS VIVO QUE NUNCA

A Ordem de Cristo de Portugal, manteve vivo o espírito templário desde a dissolução oficial da Ordem no S. XIV. Nos dois últimos séculos, o Templo experimenta um ressurgir. A Segunda Guerra Mundial marca uma renovação da Ordem, sendo a  Orden Soberana y Militar del Temple de Jerusalem (OSMTJ) a que fez ressurgir publicamente a Ordem do Templo.


A Ordem do Templo
hoje em dia

A OSMTJ inclui a liberdade e a dignidade individual de cada ser humano, a fraternidade, a participação para a solidariedade com o próximo, a prudência bondosa, a tolerância e a compreensão nas questões religiosas dos demais. É o ressurgir de um novo Templo, moderno, cristão e ecumênico, consagrado à ação prática imediata tanto a nível material como espiritual.

A estrutra cavaleiresca é pública e não depende de nenhuma organização religiosa. É aberta àqueles que aceitam que o ser humano tenha um destino espiritual e transcendente, pedindo a seus membros que vivam em conformidade com sua fé. É um encontro universal de religiões, conforme os princípios do Concílio Vaticano II. Embora seus ideais sejam a Liberdade e Fraternidade, não é uma organização maçônica.

Muitos anos se passaram desde aquele 18 de Março de 1314 e da injustiça cometida

Apesar do tempo transcorrido, muito se continua falando sobre o processo contra a Ordem do Templo e a execução de Jacques de Molay. Mas apesar de seus inquisidores, séculos depois, a Ordem continua mais viva que nunca e oferecendo à sociedade a possibilidade de um mundo mais justo e tolerante.

 

 
 
 

 




O Templo continua na moda

Comentários da OSMTJ à monografia publicada na Revista Más Allá de 29.06.2007,
Publicados no Site www.osmtj.org
Traduzidos mediante autorização para publicação no site:
http://www.templebrasil.org.br

Palavras iniciais do Tradutor

O texto abaixo é uma recapitulação dos propósitos da Ordem do Templo comparada com os propósitos que vêm sendo utilizados pelos meios de comunicação visando mais lucros que propriamente a divulgação e a importância da Ordem e sua contribuição para a civilização, tanto sob o aspecto econômico-social como sob o espiritual.

Nota: Confirmando o texto abaixo, acaba de ser lançado (25.12.07) mais um filme sobre os Templários: “Arn, o Cavaleiro Templário”. Produção Sueca sob a direção de Peter Flinch, baseada no romance de Jan Oscar Sverre Henri Guillou.


[OS COMENTÁRIOS]

Que o Templo continua na moda, é algo que ninguém discute. A cada mês são dúzias de livros que aparecem nas livrarias de todo o mundo, alguns deles arriscando fantasias incríveis, mas cujos exemplares se esgotam rapidamente.

Se em qualquer ferramenta de busca da internet escrevermos a palavra templário ou temple, são centenas de milhares de páginas dedicadas ao tema, tantas que nos seria impossível sequer prestar a mínima atenção a seu conteúdo.

A televisão, especialmente as TVs por canais pagos, nos bombardeiam semanalmente com programas com maior ou menor acerto histórico dedicados ao Templo ou com temas que possam se relacionar, e nos programas de rádio especializados, tampouco são poucas as referencias ao tema.

Por desgraça o Templo está na moda, vende, e tanta amplitude de temáticas está desvirtuando uma realidade e o que é pior, confundindo muitas pessoas que buscam equivocadamente na Ordem do Templo algo muito distante à sua realidade.

MONOGRAFIA DA REVISTA “MÁS ALLÁ”.

A reconhecida revista ‘Más Allá’, que habitualmente aborda temas relacionados como o Templo, editou por esses dias uma monografia com o título de “Templários: todos os segredos dos monjes guerreiros”, que aborda uma infinidade de temas de interesse para os apaixonados pela história do Templo.

A monografia trata os temas tradicionais da criação da Ordem, o primeiro Mestre, o processo inquisitorial contra a Ordem. Contém também temas curiosos para os neófitos como o simbolismo templário, as cores e a cruz do Templo, etc.

De grande interesse, as pequenas reportagens sobre a geografia templária na Espanha infelizmente ficam esquecidos, e dos quais pouco se escreve, como a enigmática presença do Templo em Almería durante dez anos (1147-1157).

Não podia faltar o toque de secretíssimo e de mistério com o qual é habitual envolver certos temas do Templo, talvez para conseguir um maior interesse por parte da ‘mídia’. O bafomet, o tarot, o jogo da oca etc.

Apesar do interesse de muitos temas abordados, demos por falta não haverem abordado os diferentes Mestres da Ordem, de sumo interesse para os interessados no tema, embora se agradeça haver saltado a pesada história das Cruzadas e sobretudo tocar no Pegaminho de Chinonn, documento que o Vaticano resgatou de seu Arquivo Secreto e que demonstra, uma vez mais, o que vimos dizendo faz séculos, que tudo foi uma conspiração e que se julgou e condenou uma nobre Ordem por motivações inconfessáveis dos poderosos laicos e religiosos da época.

A VERDADEIRA HISTÓRIA DO TEMPLO

O certo é que, apesar dos milhares de livros, centenas de milhares, para não dizer milhões de páginas, dedicadas à Ordem, rodas de discussão, programas de televisão, publicações especializadas, etc., a história que se nos vendem diariamente do Templo é uma cópia reiterativa dos mesmos temas e na mesma linha.

Parece que o roteiro estabelecido se reproduz vez por outra em todos em todos os meios e de todas as formas, uma Ordem que surge do nada, cresce até se tornara organização mais poderosa de sua época e se volatiliza da noite para o dia. Se a isso o temperamos com lendas, mistérios, segredos e tesouros, o convertemos em algo vendável, de interesse e fácil colocação.

Mas por desgraça não é essa a verdeira história do Templo, porque aparte de sua realidade histórica, de seus feitos guerreiros, de suas inovações economicas e organizacionais, de suas construções e de qualquer outro tema, se esquece a base real de tudo isso, A ESPIRITUALIDADE DO TEMPLO.

Jamais o Templo teria sido o que foi sem a férrea fé de seus membros, sua profunda convicção espiritual e sua mentalidade receptiva e aberta ao mundo que o rodeava, aprendendo e utilizando-se do que acreditavam ser útil, sem que isso lhes fizesse mudar o ápice de seus objetivos iniciais.

Esse é o aspecto mais descuidado normalmente quando se fala doTemplo e que não só engana aos que buscam atualmente na Ordem do Templo um lugar equivocado para dar livre curso às suas fantasias, senão que impede que se chegue a escrever, de uma vez, a verdadeira história da Ordem do Templo.

EXIGÜIDADE DO TERMO NEOTEMPLARISMO

Da mesma forma, damos falta de alguém que nos conte verdadeiramente alguma vez a história do Templo, abordando todas suas facetas e não se detendo nos aspectos mais vendáveis ao público. Lamentamos que uma vez após outra se insista no desaparecimento da Ordem do Templo após a execução de Jacques de Molay na fogueira.

Que o Templo está vivo, muito vivo e presente na atualidade se demonstra precisamente pelo interesse que mostra o grande público por ele. Uns o farão por seu interesse histórico, pode ser que outros poucos por sua fascinação pelo secreto e esotérico, mas o certo é que a grande maioria dos que se acercam do Templo atualmente o fazem por espiritualidade, buscando algo mais com o que reconfortar seu espírito cristão em uma sociedade moderna que se desmorona moralmente, carente de referencias e onde o Templo aparece como algo que está aí sólido e exemplificante durante séculos.

É curioso como se contradizem os que com obstinação insistem no desaparecimento da Ordem após a execução de Jacques de Molay, por um lado afirmam categoricamente que a Ordem desapareceu, enquanto que ao mesmo tempo, nos relatos históricos que escrevem, nos falam que em Portugal não aconteceu nada, a Ordem do Templlo mudou seu nome para Ordem de Cristo e continuou funcionando, isso sim separados da casa Mãe, mas continuou funcionando. De como na Espanha, salvo poucas exceções, os membros da Ordem se integraram a outras, onde chegaram a ser maioria. O mesmo ocorreu em muitos outros países europeus, ou o caso da Escócia onde formaram parte da elite da sociedade escocesa da época.

É possível que uma Ordem que poderia ter entre 20.000 a 30.000 membros ativos distribuídos por toda a Europa desaparecesse da noite para o dia? É possível que uma Ordem que, salvo determinados lugares, seus membros não foram presos nem perseguidos se convertesse em fumaça em dias? É possível que tantos e tantos templários, aguerridos e curtidos em mil combates, renegassem sua fé quando não o fizeram sob o alfange de seus inimigos?Evidentemente não.

A Ordem do Templo continuou, evidentemente desconectados muitos grupos de outros, motivo pelo qual seguiram uma evolução distinta e com uma trajetória histórica diferente, mas o espírito verdadeiro, o profundo espírito da Ordem, foi passando de geração em geração, umas vezes à luz do dia e outras na escuridão das catacumbas, aos que na atualidade continuamos defendendo seus ideais.

É por isso um erro o uso que se dá à palavra neotemplário, porque não existe um novo Templo, distinto do anterior, senão que a essência da Ordem nos chegou até nossos dias, com a lógica absorção das diferentes etapas históricas que viveu, mas seu profundo significado continua sendo o mesmo.

A TÃO MANIPULADA TRANSMISSÃO

Outro grave erro que cometem os que falam de neotemplários é definir duas etapas claramente definidas, a execução de Jacques de Molay e nossos dias, com um intervalo de vários séculos de vazio no meio de ambas. Os primeiros seriam os templários e os segundos os neotemplários.

Parece que se não há um documento escrito onde Jacques de Molay designasse seu sucessor, os milhares de templários que escaparam às perseguições teriam desaparecido e renegado sua Ordem e sua fé, algo que é insustentável por aqueles que preferiam morrer a ter que renunciar à cruz.

A história está cheia de monarquias, governos, instituições, partidos e demais órgãos, que em momentos de perseguição tiveram de se esconder durante anos e quando sairam da clandestinidade não possuiam nenhum documento legal que lhes autorizassem reclamar o que perderam anteriormente; apesar disso se lhes reconheceu o direito porque com documentos ou não são facilmente identificáveis.

Alguém se atreveria a pedir, por exemplo, ao Vaticano um documento de transmissão da legitimidade dos antigos cristãos? Por isso não nos chamamos neocristãos. O mesmo se passou com o Templo, poderemos discutir se a Carta de L’Armenius é ou não válida para justificar a legitimidade de tal ou qual organização, o certo é que o Templo não desapareceu após a morte de Jacques de Molay e que nos chegou até nossos dias em diversas formas.

O FUTURO

O problema da Ordem do Templo atual não é a legitimidade, a transmissão, nem inclusive os fatos históricos que levaram à sua perseguição; o problema da Ordem atualmente é sua divisão, que não só dá uma imagem que aprova as idéias que defendem os que advogam o neotemplarismo, como também não permite abordar importantes temas para irromper com força nesses momentos onde a cristandade tão necessitada está desses pobres cavaleiros.

Esse é o grande objetivo em que se trabalha há anos dentro da OSMTJ, curiosamente de onde saiu o maior número de grupos que pululam por todos os países, o de unificar a Ordem do Templo, fazendo-a tão forte e necessária como antigamente.

Continuamos esperando que alguém escreva a verdadeira história do Templo, algo tão diferente que não se tenha produzido até o momento como a filmagem de uma superprodução sobre a Ordem do Templo.

O TEMPLÁRIO NA ATUALIDADE

“O templário atual é um indivíduo que com uma atitude decidida e viril decide por sua vontade a serviço de Deus com os meios a seu alcance pela luta para o cumprimento da Justiça. Em um Editorial de ‘Cuadernos Templários’ dizíamos: “aprendei a fazer o bem; buscai o juízo, restitui ao injuriado, fazei justiça ao órfão, amparai a viúva” (Isaias, 1:17)”.

“Não são essas palavras uma pre-figuração, a essência e verdade do que foi e é a velha e moderna cavalaria”?

“A cavalaria com formas diferentes tem a mesma substância: só pretende de Isaías, a proteção dos débeis e dos desamparados contra os poderosos. Às vezes – desgraçadamente – a roupagem exterior desvirtuou os verdadeiros fins e ficou só nisso, em uma roupagem, em um disfarce para permitir ou possibilitar ações em busca de poder e benefício pessoal. A cavalaria requer uma atitude viril, de luta, cujo inegável símbolo é a espada. “E aquele que não tenha espada, venda seu manto e compre uma..” (Lucas, 22:36)”.

“Há outras formas de luta que não derramam sangue, precisamente tentam evitá-lo...embora nem sempre o consigam. Aí estão a palavra, a pena, a denúncia pública do escândalo, a solidariedade, a caridade e chegado o momento, o látego, como o próprio Cristo frente os mercadores do Templo ante a profanação da casa do Pai”.

“Certamente todas essas armas aparentemente pacíficas podem, em definitivo, resultar muito mais letais que a espada...Esse, o da luta para fazer o bem, é o espírito da cavalaria. As formas acompanham e afirmam o compromisso...Mas sem o fundamento não são nada. São nada mais que figurantes, lindo de se ver no carnaval”.

“Para isso o templário deve ser um homem livre e esse conceito abarca todo tipo de dependência, não só política e econômica, senão fundamentalmente não deve estar dominado por nenhuma paixão ou dependência interna. Portanto, livre em seus atos”.

“O templário honra a história tanto do Templo como a de sua Pátria. Sabe que quem não conhece e ama o passado não poderá compreender o presente. Joubert dizia que “nada faz aos espíritos tão imprudentes e tão vãos como a ignorância do tempo passado e o desprezo dos livros antigos”. Menos ainda pode projetar o futuro, tanto para ele como para toda a comunidade”.

“Quando luta por seus ideais, o templário não renuncia diante da adversidade, não se entrega, hoje como antigamente, não conhece a retirada se não a ordena o Mestre. Recorrendo ao dito por Lugones: “converte o heroismo em estado normal”, transforma o valor em um ato cotidiano. Aproveita os contratempos, os obstáculos, as dificuldades e estuda qual é a benção que está envolvida, recordando os Sufis. A seguir, como dissera Almufuerte: “Acomete com ferocidade/ainda rodando pelo solo/ sua cabeça””.

“Quando erra sabe que junto a ele estão seus irmãos, sabe que neles há de encontrar não só apoio e conselho como também a crítica fraterna que o ajudará a crescer”.

“Embora se sinta leão, sua imaginação voa como a águia: para ele nada é possível ou impossível, só espera o momento que seu Mestre diga: “Deus o quer” para atacar. Em contraposição, o templário só descansa quando escuta do mesmo Mestre “Acolhe-os em nome de Deus”.

“Respeita os cãs pois sabe que a eles acompanha a sabedoria mas também se emociona com o pranto de um menino ou a dor de uma mãe. Sente o papel do irmão mais velho na Criação, por isso não só cuida do Homem como também de animais e plantas. Não caça por esporte e cuida do habitat que os contêm pois não lhe pertence, é somente seu administrador”.

“Respeita também os ritos e tanto o quanto os mesmos servem para reafirmar suas convicções mas não encontra satisfação no rito vazio em que vê mais próprio de figurantes de carnaval que de templários”.

“É fiel a seu credo porém aberto a toda crença que observa com respeito e sã curiosidade”.

“Dos três votos tradicionais mantém o de obediência a seus superiores hierárquicos e substituiu os outros dois por temperança. Honra os pais e mestres. Considera os cavaleiros camaradas como irmãos, despreza a soberbia, petulância, corrupção, opulência, especulação e usura, a imoralidade , o capitalismo selvagem que submete os homens a uma nova forma de escravidão. É fiel à verdade e à palavra empenhada. Exerce vocação de serviço e o faz com honra e alegria. Evita a murmuração e a maledicência”.

“Sem dúvida, com tantos inimigos ocultos incorporados pela civilização moderna, é mais difícil ser templário no Século XXI, que contemporâneo de Molay”.

Por: Fr+Horácio Amadeo Della Torre.




O Que Há de Novo

O que há de mais novo no campo do Templarismo é a recente divulgação pelo Arquivo do Vaticano de uma obra ricamente ilustrada intitulada Processus contra Templarios, de 800 exemplares apenas, onde são reproduzidos fac-similes das peças originais do Processo-farsa que acabou por levar à fogueira o Grão Mestre da Ordem do Templo - Jacques de Molay, e à suspensão da Ordem.

Para o conhecimento da importância de tal gesto por parte do Vaticano, onde fica implícito o reconhecimento da inocência da Ordem e restiituição da honra aos Cavaleiros Templários, reproduzo a Nota publicada pelo Grão Mestre atual:


NOTA À IMPRENSA


Os documentos apresentados em 25 de outubro demonstram fidedignamente que a Ordem do Templo é inocente de todas as acusações que deram motivo à sua suspensão.

A OSMTJ APLAUDE A BRAVURA DO VATICANO AO PUBLICAR OS DOCUMENTOS QUE ABSOLVEM A ORDEM DO TEMPLO.


O Grande Priorado da Espanha – Priorado Magistral da OSMTJ reconhece que a publicação do “Processus contra Templarios” é um gigantesco passo adiante, no sentido de que os caminhos paralelos que seguiram até então a Ordem do Templo e a Igreja Católica dentro em pouco encontrarão um ponto de convergência.

29.Outubro.2008 – A apresentação na quinta-feira passada, 25 de outubro, pelos responsáveis pelo Arquivo do Vaticano, do volume “Processus contra Templarios”, que reedita o “Pergaminho de Chinon”, o que é o mesmo, as atas de exoneração de culpas do Santo Padre à Ordem do Templo é, sem dúvida, um ato de bravura do Vaticano que reconhece o erro cometido, precisamente no ano que se comemora o 700º aniversário do início da perseguição contra o Templo.

O ato, que despertou um enorme interesse por informação, que impressionou os organizadores e que é uma demonstração do interesse que continua suscitando a Ordem do Templo, teve lugar na Sala Velha do Sínodo com a presença do monsenhor Raffaele Farina, arquivista bibliotecário da Santa Romana Igreja; monsenhor Sergio Pagano, prefeito do Arquivo Secreto Vaticano; Barbara Frale, descobridora do pergaminho e oficial do arquivo; Marco Maiorino, oficial do arquivo; Franco Cardini, mediavalista e Valerio Massimo Manfredi, arqueólogo e escritor.

A publicação desse documento dissipa e deixa claro todas as dúvidas que por interesse se verteram durante esses séculos sobre a Ordem do Templo e que tanto dano fizeram à imagem da Ordem, deixando claro que:

1. O Papa Clemente V nunca esteve convencido da culpabilidade da Ordem do Templo.
2. A Ordem do Templo, seu Grão Mestre Jacques de Molay e os demais templários presos, muitos deles justiçados posteriormente, foram absolvidos pelo Santo Padre.
3. O Templo nunca foi dissolvido, senão suspenso.
4. O Papa Clemente V nunca acreditou nas acusações de heresia e por isso permitiu aos templários justiçados receber os Santos Sacramentos.
5. Clemente V nega as acusações de traição, heresia e sodomia pelas quais o Rei da França acusou o Templo.
6. O processo e martírio de templários foi um “sacrifício” para evitar um cisma na Igreja Católica, que não compartilhava em sua grande maioria das acusações do Rei da França, e muito especialmente da Igreja francesa.
7. As acusações foram falsas e as confissões conseguidas sob torturas.

Indubitavelmente o Vaticano, com esse gesto, reconheceu publicamente seu erro, e sete séculos depois das condenações e mortes à Ordem do Templo e seus Cavaleiros, mostra os documentos de absolvição que demonstram fidedignamente que a Ordem do Templo é inocente de todas as acusações que deram motivo à sua suspensão.

O Grande Priorado da Espanha – Priorado Magistral da OSMTJ reconhece que a publicação do “Processus contra Templarios” é um enorme passo adiante, no sentido de que os caminhos paralelos que seguiram até então a Ordem do Templo e a Igreja Católica encontrarão em pouco tempo um ponto de convergência oficial, embora a realidade seja de que a OSMTJ e a Igreja Católica levam muitos anos trabalhando conjuntamente, em momentos onde a fé cristã tão necessitada está de fiéis devotos que possam fazer frente ao assédio a que se vê submetida em nossos dias. Esse grande passo dado pelo Vaticano deve ser reconhecido como um piscar de luz ao Templo na atualidade, gesto que foi reconhecido sem deixar dúvidas pela OSMTJ.


Gabinete de Comunicação
Grande Priorado da Espanha
Priorado Magistral da OSMTJ



Simbologia Oculta do Baluarte Templário

Texto extraído e traduzido da Revista “Cuadernos Medievales” Nº 3, da FICEM–Fundación Instituto Campomanes de Estúdios Medievales- Espanha, por Fr. +João Baptista Neto

Autor: Jesús Arcos


A imagem dos eleitos! Assim é como começa a grande maioria dos argumentos que foram escritos sobre o Tau. Uns amparados nos escritos de Ezequiel, outros no Gênesis ou outros, no Apocalipse, todos eles coincidem que o Tau é um símbolo de “eleição divina”.

São Francisco o utilizou como selo. Esteve presente no Concílio de Latrão em 1215 como exemplo de exaltação da verdadeira fé frente aos gentios. Aparece inclusive nas lendas do século XIII como uma forma de explicar a remissão dos pecados do mundo. Como conseqüência, o Tau, é mais forma do que símbolo, tanto que identifica uma estrutura, inspirada e sustentada sobre o sobrenatural, procedente da imanência do imanifestado e sempre venerada em todos os tempos. A “idéia” impressa, do absoluto, sobre a forma: isso é o Tau!

Para o Templo de hoje, diferente do Templo de ontem, o Tau representa grande parte de seus ideais de cavalaria. Sua forma procedente da Cruz Patê representa a expressão do pensamento Templário a partir de um centro (Deus) para os quatro pontos do universo sobre os quais se estende, para proclamar a força do Evangelho de sua espada, baluarte de sua razão de ser como cavaleiros. Espada e Cruz são forças de uma idéia, ambas em um sentido ou outro, hão de ser empregadas na mesma causa.

Sobre o Baluarte Templário, a Cruz Patê adquire um duplo significado. Por um lado unifica o céu e a terra (além de onde cada um deles se encontre), representando o fim último do Templo como cavalaria do espírito. Por outro lado, unifica também o cavaleiro em seu aspecto animal e religioso. As duas cores, a branca e a negra, tradicionalmente atribuídas aos contrários, são também as cores do noviciado e maestria; entre os templários de antigamente, os sargentos se vestiam de negro para representar o trabalho que tinham que fazer com seus vícios, e ao contrário, os cavaleiros se vestiam de branco demonstrando o que haviam conseguido com suas virtudes (hoje continua sendo assim na OSMTJ-OSMTJH). Branco e negro se converteram nas cores da “tensão”, da “força”, da “energia”, da oposição, por fim, as geradoras de uma reação. São a prévia de uma síntese, a ante-sala de um resultado: a cor vermelha.

image Assim como o branco e o negro dividem em duas partes bem diferenciadas os estágios do cavaleiro, ou seja, o referente ao seu corpo e o referente à sua alma, assim como o referente a suas obrigações com o mundo e com seu Deus, o vermelho vem representar o mais imediato e próximo à sua vida, quer dizer, o sangue, o espírito que o anima.

Quando o Papa Eugênio III concedeu aos Templários levar uma cruz vermelha sobre o lado esquerdo de seus mantos, o fez talvez tendo em mente que as demais cores heráldicas já haviam sido designadas: o verde à São Lázaro, o negro aos Teutônicos, o branco à Malta, e por último talvez, o vermelho aos Templários.

De qualquer modo o vermelho é uma cor primitiva que convida a refletir na “tensão produzida por duas forças”. Na espécie animal reflete o valor do sangue, na natureza o valor do perigo, no ambiente reflete o valor da vida ou da fertilidade; em qualquer caso, o vermelho é uma cor valente, irradiadora, potente e decisiva, que no caso presente representa a regeneração, a dor e a entrega.

A cor em perfeita simbiose com a forma, deriva no caso presente, em uma síntese de conteúdos universais que transcende todo significado racional ou emocional. O duplo Tau vermelho, um para cima e outro para baixo, cada um deles enraizado sobre uma cor de contraste, a branca ou a negra, e cada um deles em uma posição diferente, nos informa de dois conteúdos bem distintos e não obstante, muito unidos.

TAU DE GULES SOBRE CAMPO DE PRATA

image O Tau de gules (NT: vermelho em heráldica) com o flanco para baixo suportando um eixo horizontal sobre um campo de prata (NT: branco em heráldica), representa o homem realizado, o homem perfeito, o homem que superou as provas da vida e venceu a morte; ao contrário, o Tau de gules invertido sobre um campo de sabre (NT: negro em heráldica) convida à prudência, ao rigor e à medida.

O guerreiro espiritual pleno da fortaleza que brota da sua fé em Deus, entrega sua vida para a defesa dos oprimidos pela injustiça. Caracteriza a sua vida sua potencia, seu ardor, seu espírito de entrega e sua fortaleza. Soldado e sacerdote, entregue a uma mesma causa em uma só pessoa; espada e cruz, ambas uma e a mesma coisa.

Filosoficamente falando, referimo-nos ao cavaleiro que compreendeu os passos da iniciação templária; abandonou o mundo e tudo o quanto representa, enfrentou as próprias paixões, descobriu a localização dos lugares sagrados, quer dizer, aqueles que importam à sua existência. Compreendeu a verdadeira realidade do mundo, sua fantasia e sua certeza. Compreende para onde investir seu esforço. Já sabe acerca do efêmero e do eterno. Conduz sua vida pelo bem em detrimento da paz. Cavaleiro do Templo, Militiae Templi, Soldado de Deus.

O simbolismo heráldico dos esmaltes(cores) é:

A prata (ou branco) significa, em correspondência com as pedras preciosas, à pérola. Com os astros, a lua; com os signos do zodíaco, câncer, e com os elementos, a água; com os dias da semana, a segunda-feira;com os meses do ano, janeiro e fevereiro; com as árvores, a palmeira; com as flores, a açucena; com as aves, a pomba; e com os animais, o arminho. A prata nos brasões de armas recebe o nome de lua, no que se refere a dos soberanos; nos que se referem aos títulos, pérola e no que se refere aos demais nobres, prata. As características heráldicas que lhe correspondem são: pureza, integridade, obediência, firmeza, vigilância, eloqüência e honradez da palavra. Os que a levam em suas armas estão obrigados a defender as virgens e amparar os órfãos.

TAU INVERTIDO DE GULES SOBRE CAMPO SABRE

image O gules (ou vermelho) simboliza Marte, entre os planetas; entre os signos do zodíaco, áries e escorpião; entre os elementos, o fogo; entre as pedras preciosas, o rubi; entre os dias da semana, a terça-feira; entre os meses do ano, março e outubro; entre os metais, o cobre; entre as árvores, o cedro; entre as flores, o cravo; entre as aves, o pelicano. As características heráldicas que lhe pertencem, são: fortaleza, vitória, ousadia, alteza e valentia. Os que trazem essa cor em seus escudos estão obrigados principalmente a socorrer os que se vêem oprimidos pela injustiça.

Invertendo os valores do mundo, o guerreiro espiritual se encontra submerso em plena luta moral. Prudência e rigor, honestidade e obediência, são as principais faculdades para cultivar o homem interior. Entregue à observação de si mesmo, o estudo da história, a cultura e o culto à sua tradição, fazem do sargento e do escudeiro um potencial cavaleiro do espírito. Porque compreender o supérfluo e vão que pode resultar a vida, não é tarefa ao alcance de qualquer um.

As mesmas paixões que o ensoberbeceram na vida, e fizeram dele ou dela uma pessoa forte e robusta, hoje são relegadas a um segundo plano para atender os assuntos do céu. A meditação, o estudo, a observação, e tantas outras atividades intelecto-espirituais, são necessárias para adquirir o domínio da arte de portar armas para repartir justiça; a excelência e o treinamento, praticados com pudor e escrupulosa submissão a seus chefes, é uma das principais virtudes daqueles que se preparam para a cavalaria.

O gules do Tau está dessa vez invertido, para representar o homem treinando seus sentidos interiores, os da alma e não os do corpo. O campo de sabre que sobre ele se estende, representa agora o rigor da batalha, ao invés da batalha superada como na situação anterior.

Basta portanto assinalar os significados da cor sabre:

O Sabre (ou negro) procede da palavra “zobel” ou “zables” que em alemão significa “marta negra ou cebelina” (animalzinho de pelo negro muito suave e fino). A cor negra é de antiqüíssima tradição e simboliza o pudor; entre as pedras preciosas, o diamante; entre os planetas, saturno; entre os signos do zodíaco, aquário e touro, entre os dias da semana, o sábado; entre os meses do ano, janeiro e abril; entre os metais, o ferro. As características heráldicas que lhe correspondem, são: prudência, tristeza, rigor, honestidade e obediência. Os que levam essa cor em seu escudo devem servir a seu soberano, política e militarmente.

A CRUZ PATÊ DE GULES SOBRE DOIS CAMPOS EM SABRE E PRATA

image A Cruz Patê presente nos símbolos do Agnus Dei, nos anuncia um novo amanhecer. Um centro a partir do qual se estendem as asas dos Quatro Evangelistas para alcançar o mundo inteiro.

O sangue do Salvador sobre a dualidade da vida..., ou talvez devesse ser visto com as faixas branca e negra na vertical. Se assim fosse, qual seria sua interpretação...


O Espírito que São Bernardo Legou ao Templo

Texto extraído da “Revista Hermética” nº 26 – www.revistahermetica.org – Espanha, e traduzido por Fr. +João Baptista Neto

Autor: Antonio Galera Gracia

Através da história encontramos autores que duvidaram que a Regra dos Cavaleiros Templários tivesse sido ditada por São Bernardo e, também, por outro lado, alguns que asseveraram ao contrário. Nem uns nem outros nos deram, no meu entender, provas que nos fizessem crer em uma ou outra hipótese.

Se não fosse suficiente o documento histórico do escrivão Juan de Michaelensis, no qual nos diz, entre outras muitas coisas, que: “...por mandato do Concílio e do venerável Abade de Claraval, a quem estava a cargo, e ainda lhe era devido esse assunto, mereci, pela Graça de Deus ser escritor do seguinte Regulamento...”. Documento que está rubricado ou marcado por mais de 17 dirigentes da Igreja, entre os quais se encontravam Bispos, arcebispos e Abades; por mais 12 seculares, entre os quais se encontravam os condes Teobaldo, Nivernense e Andrés de Bandinento. E onde também nos diz que se achavam presentes o Mestre Hugo, com Frater Godofrido, Fray Rotallo, Frater Gaufrido Bisól, Frater Pagano de Monte Desiderio e Archembando de Santo Amando, Cavaleiros Templários... Pois, como dizia, se não fosse suficiente esse documento histórico que chegou até nós através do tempo, graças a pessoas honestas que o guardaram do fogo vingativo ou da destruição despreocupada de néscios que criam estar fazendo um favor à Igreja, descubramos e comparemos qual era o espírito de São Bernardo de Claraval: A regra número XXV, diz: “Se algum irmão quiser, por mérito ou por soberbia, o melhor vestuário, sem dúvida merece o pior”.

No ano de 1150, São Bernardo escreve ao Papa Eugênio III, uma carta da qual extraímos o seguinte fragmento: “...Hás de promover aos cargos não aqueles que os desejam, antes aqueles que os recusam; não aqueles que correm para eles, antes aos que se detêm...” A regra número XXIX, começa da seguinte forma: “Que os colares, e fechos (com emblemas) [Adornos em geral - nt] é coisa de Gentios, e como seja abominável a todos, o proibimos, e reprovamos, para que ninguém os tenha, pelo contrário careça deles...”

De um sermão que São Bernardo fez ao povo, criticando os bispos, pegamos o seguinte fragmento:...”Olhai-os como vão elegantes, esplendorosos, envoltos em tecidos como uma esposa que sai de seu leito conjugal...”

A regra número XXXVII, diz: “De nenhuma maneira queremos seja lícito a nenhum irmão comprar, nem portar ouro, ou prata, que são bens particulares, tampouco nos freios, peitorais, estribos, e esporas, porém se essas coisas lhes forem dadas por caridade, esses instrumentos usados, o tal ouro, ou prata se lhe dê tal cor, que não pareça nem reluza tão esplendidamente que pareça arrogância; se forem novos os ditos instrumentos, faça o Mestre deles o que quiser.”

São Bernardo escreveu no ano de 1125 uma série de cartas para se defender dos ataques dos monges de Clunny, que estavam muito magoados por causa de umas críticas que o santo havia feito contra eles uns anos antes. Uma dessas cartas, da que selecionamos um pedaço, diz o seguinte: “Ninguém se atreve a responder com liberdade coisas que, ainda que sejam repreensíveis, são conformes com a fraqueza humana. Ninguém se atreve a indignar-se severamente contra outros nas coisas que a si mesmo se mostra brando. Vou falar, pois: Falarei mesmo que me tachem de atrevido; mas direi a verdade. Como se obscureceu a luz do mundo? Como se tornou insípido o sal da terra? Aqueles que com os exemplos de suas vidas deviam ser guias e faróis de nossa vida, oferecendo-nos, ao contrário, exemplos de soberbia em suas obras, tornaram-se cegos e guias de cegos. Pois – para não falar outra coisa – que espelho de humildade é esse que nos mostram quando passam rodeados de tão grandes procissões e cavalgadas, com lacaios com grandes perucas emplumadas e cantos e cortejos que não parecem com o séqüito de um abade, antes poderiam formar dois cortejos para dois bispos? Mentiria se dissesse que não vi um abade que levava em sua passagem mais de sessenta cavalgaduras. Ao ver-los, diríeis que passavam por ali não abades de monastérios, antes senhores de castelos e príncipes; não pastores de almas, antes senhores de províncias...”

E na mesma carta que São Bernardo escreveu ao Papa Eugênio III, acima mencionada, diz: “...Aquele em cuja cadeira estais é São Pedro, de quem não se soube jamais que saísse vestido de sedas ou adornado de pedras ou mantos de ouro...”.

E em um tratado que São Bernardo escreve sobre “Os costumes e deveres dos bispos”, diz: “Indignam-se contra mim e me mandam fechar a boca dizendo que um monge não tem porque julgar os bispos. Oxalá me fechassem também os olhos para que não visse o que me proíbem impugnar..! Mas, ainda que eu me cale, se ouvirá uma voz na Igreja: “Que não portem trajes suntuosos nem ricos adornos...E clamarão os famintos e os desnudos queixando-se: Nosso é o que malbaratais! Vossas vaidades nos roubam o que nos é necessário!”.

A regra número IV, diz; “Mandamos dar as demais oblações, esmolas, de qualquer forma que se façam, aos capelães, ou a outros que estejam temporariamente na unidade do Capítulo comum, por sua vigilância e cuidado; e assim, que os servidores da Igreja tenham tão somente, segundo a autoridade comida, e vestimenta, e nada mais, antes o que cristãmente lhes der de sua vontade o mestre”.

Um escrito de São Bernardo sobre a cúria romana começava da seguinte forma: “Ontem falávamos de que bispos gostaríamos de ter para que nos guiem em nosso caminho; mas não dos quais temos em realidade. Nossa experiência dista muito do que dissemos, pois os que hoje cercam e ensinam na Igreja não são todos amigos da Igreja. São bem mais escassos os que não buscam seus próprios interesses. Amam os presentes e não podem amar igualmente a Cristo, porque se deixaram atar as mãos pelo dinheiro...”.



A Missão Secreta dos Templários


Traduzido por Fr. +João Baptista Neto

Matéria extraída da www.revistahermetica.org nº36

Palavras iniciais

Apesar de uma pesquisa segundo o objetivo da matéria, a mesma não se prende só à narrativa e cronologia dos fatos. Revela também aspectos do relacionamento dos Templários com o Islam, com a Igreja Católica Romana e, de passagem, com os Cátaros.

Autor: Dr. Ramiro Anzit Guerrero

imageA ORDEM TEMPLÁRIA foi fundada em 1118 em Jerusalém por nove cavaleiros franceses dirigidos por Hugo de Payens. Se autodenominavam “Os pobres Soldados de Cristo do Templo de Salomão”, que, ante sua pobreza, o patriarca de Jerusalém, Balduíno I, lhes cedeu como residência uma parte de seu palácio, anexo à mesquita de Al-Aqsa e em cima das ruínas do templo de Salomão, incluindo as cavalariças, que ainda hoje podem ser contempladas pelo visitante.

A razão aludida pelos nove cavaleiros em Jerusalém para a fundação da Ordem no Reino Latino, foi supostamente a proteção dos peregrinos aos Santos Lugares, em especial o caminho Jaffa-Ramleh-Jerusalém: “comprometeram-se a defender os peregrinos contra os ladrões e malfeitores e a proteger os caminhos e a servir como cavaleiros ao rei soberano”.

No ano de 1127 regressa Hugo de Payens e André de Montbard a Europa com o propósito de formalizar a Ordem de acordo com as normas da Igreja de Roma.

Na verdade, encarregam Bernardo de Claraval, reformador do Cister e sobrinho de André de Montbard, essa tarefa, obtendo o respaldo definitivo da Igreja no concílio de Troyes no ano de 1128.

Não iremos analisar as mudanças economicas e sociológicas que a Ordem produziu, antes vamos destacar que em sua estrutura se produziu a integração da cavalaria e a ordem sacerdotal. É também necessário ressaltar que o Templo que nasceu no Oriente é uma criação original do Cristianismo do Ocidente.

Originariamente a Ordem era essencialmente monacal e copiada da ordem cisterciensse, seus integrantes, monjes-soldados, eram submissos a votos de obediência, castidade e pobreza, e sua roupa era o hábito cisterciense de cor branca com uma capa da mesma cor para os cavaleiros e o negro para os inferiores na hierarquia, os quais o Papa Eugenio III lhes concedeu o uso da cruz vermelha que exibiam os professos.

No período em que a Ordem Templária funcionou tanto no Oriente como na Europa seu trabalho interno foi o estudo das religiões e tradições antigas, e sua principal tarefa era obter o conhecimento e a preservação dos ensinamentos do mundo antigo. Sem dúvida foram um ponto de ligação entre os mundos Ocidental e Oriental.

Nosso propósito não é o conhecimento de aspectos militares, sócio-culturais ou economicos que a Ordem Templária deixou, senão a formação de uma Escola de Desenvolvimento Espiritual seguindo a antiga tradição Templária, através do conhecimento das Escolas de Mistérios tanto do Ocidente quanto do Oriente. Mais do que o estudo dos aspectos militares da antiga atividade Templária, nosso trabalho se concentra no estudo das tradições, escolas iniciáticas e religiões antigas para poder descobrir os pontos de união com as tradições perenes ocidentais e orientais, tanto antigas como atuais.

AS CRUZADAS

As cruzadas foram um movimento que durou dois séculos, que oficialmente buscava recuperar os Lugares Santos das mãos dos “Infieis” muçulmanos e defende e proteger os cristãos do Oriente. Esta chamada à luta foi realizada pelo Papa Urbano II no Concílio de Clermont Ferrand (1095) e tiveram lugar entre os séculos XI e XIII. Especificamente se pode determinar que como data de início a tomada da cidade Jerusalém (1071) que se encontrava sob o domínio do Califado Fatimi do Egito. O fim das Cruzadas ocorre com a tomada da cidade de Acre (1291) pela forças islâmicas.

Essas campanhas militares não foram só contra os muçulmanos, antes ao contrário, contra cristãos dissidentes como os Cátaros, as forças oposicionistas políticas como Frederico II, o ataque ao império cristão bizantino e aos povos pagãos da região do Mar Báltico. De certa forma, os exércitos cruzados foram o braço armado da política papal.

Em 1054 o Cristianismo sofre o cisma entre a Igreja de Roma e a Igreja Ortodoxa grega. O surpreendente é que o Papa Urbano convoca as Cruzadas com o argumento da defesa que se devia fazer dos cristãos do Oriente (ortodoxos gregos, armênios, sírios, coptos, etc.), que perigavam ante a ameaça dos turcos Seljúcidas, que já dominavam parte da Ásia Menor.

Desde os tempos primitivos da igreja cristã, seus fiéis visitaram seus santuários na Palestina. Ao ocorrer a conquista desta pelos árabes (637), o Califa Omar permitiu que os cristãos continuassem com suas práticas, sem dificultar em nenhum sentido a devoção dos peregrinos, satisfazendo-se só com a imposição do tributo (Yiziah) para as pessoas do Livro (Ahlul Al Kitab) que moravam no território islâmico.

Deve-se ressaltar a tradição islâmica na qual se relata que o califa Omar, sucessor de Maomé, entrou em Jerusalém montado junto com um companheiro em um só cavalo, questão que nos relatos se descreve como uma situação que se tornou confusa para os cidadãos da Cidade Santa, já que não sabiam a quem render homenagens. Esse fato explica o significado do sêlo templário de dois cavaleiros em um só cavalo.

O único antecedente de agressão aos cristãos se observou quando o califa Fatimi Al Hakim, que era mentalmente insano para a lei islâmica, destruiu uma parte das instalações do Santo Sepulcro (1010), que foi reconstruído pelos próprios muçulmanos, que a seguir assassinaram Al Hakim.

Com relação à origem das Cruzadas, Franco Cardini nos diz:

“Para uns, foi somente a forma medieval de um inevitável conflito armado entre Oriente e Ocidente. Segundo outros, nas Cruzadas deve-se ver a reação à agressão muçulmana contra a Europa. Mas aqui a cronologia não se enquadra: em primeiro lugar, os muçulmanos golpearam o mundo oriental muito mais que o ocidental; e, segundo, o impulso expansionista do Islam, muito forte entre os séculos VII e X, parecia esgotado aos fins do XI”.

Um dos motivos principais para o surgimento das Cruzadas foram as lutas internas entre os reis europeus e as disputas religiosas. No fim, essas guerras foram inevitáveis, já que ante às desordens e desvios da Igreja Católica Romana, o monje dominicano Martin Lutero, escreve – no ano de 1517 – suas “Noventa e cinco Teses”, nas quais expõe os erros da igreja medieval em relação à Fé cristã. Assim se iniciam as modernas guerras religiosas no seio do Cristianismo – entre católicos e protestantes -, que durariam séculos e ensanguentariam toda a Europa.

As Cruzadas (1095-1270) deveram seu nome à cruz que os soldados levavam no peito como distintivo. Estas foram em número de oito, quatro na Palestina, duas no Egito, uma em Constantinopla e uma no Norte da África.

A Europa padecia de escassez de alimentos que resultou, por vezes, na prática de canibalismo, situação que desestabilizava o poder político e religioso, devido a que muitas igrejas e monastérios foram roubadas e usurpadas em suas colheitas e criações de animais. Essa questão se somou ao fervor religioso que deu o impulso necessário ao povo para empreender a marcha para a Terra Santa. A consequencia foi de que a maior parte das pessoas empreendiam a marcha para o Oriente Médio morriam no caminho e muito poucos, os melhores preparados e alimentados, chegavam ao destino para finalmente serem dizimados pelos exércitos Seljúcidas.

A primeira Cruzada (1095-1099) foi capitaneada por Pedro o Ermitão; o núcleo central dessa cruzada foi outorgado a Godofredo de Bouillón.

Pedro o Ermitão, oriundo de Amiens, foi o primeiro a predicar a favor das Cruzadas dentro dos escalões mais baixos. Antes de ser um personagem religioso havia sido soldado, diferente dos recrutados que eram pricipalmente camponeses sem instrução militar.

Pedro chegou à Palestina onde colaborou com Godofredo de Bouillón na tomada de Jerusalém (1099), que foi realizada com umpoderoso exército cristão formado em sua maioria por nobres e militares franceses, normandos, italianos e alemães, belgas e holandeses, calculando-se que só dez mil dos sessenta mil homens que lutaram tinham o armamento adequado.

Essa vitória foi possível graças às disputas internas do mundo islâmico. Da parte dos Seljúcidas estavam divididos entre Irã, Alepo e Damasco após a morte do Sultão Malik (1092) e do Califado Fatimi do Cairo. Quando o islam se uniu é digno de nota ver o retrocesso dos cruzados graças à figuras como Salah Ul Din (Saladino) e o Sultão Baibars.

A segunda cruzada foi predicada por Bernardo de Claraval e dirigida militarmente por Felipe IV da França e Conrado III, imperador da Alemanha.

A terceira cruzada foi dirigida por três reis: Ricardo Coração de Leão, rei da Inglaterra, Felipe Augusto, rei da França e Frederico I Barba Ruiva, imperador da Alemanha.

A quarta cruzada foi organizada pelos venezianos contra a Constantinopla ortodoxa grega, sede do Império Bizantino (1202-1204), com o objetivo de tomar o poder, na qual os próprios cristãos assassinaram seus irmãos e saquearam Constantinopla.

A Cruzada contra os Cátaros (Puros) foi entre 1208 e 1224 no sul da França. Os Cátaros ou Albigenses eram originários do condado de Tolouse com influência em Provence e no Languedoc. Eram considerados pela Igreja Católica Romana como hereges, já que eram gnósticos e maniqueístas, crenças que afirmam a existência de um Deus do bem (pregado porJesus Cristo no novo testamento) que dominava o plano espiritual, e outro do Mal ((Yavé do antigo testamento) que exercia seu poder no plano material e era representado pela Igreja Católica da época, que devia ser derrubada.

Por sua vez, criam na reencarnação que dependeria do estado espiritual da pessoa, portanto podia-se voltar como ser humano ou animal dependendo do estado evolutivo. Para voltarem como humanos tinham que se desprender de todos os bens materiais e levar uma vida casta, ascética e pura. Dividiam-se em dois graus: os simples crentes e os denominados “Perfeitos” que tinham passado pelo rito do batismo do Espírito Santo (Consolamentum).

O Papa Inocêncio III designou Simón de Monfort para realizar a cruzada contra os albigenses, que foram aniquilados em suas fortalezas em Narbona, Montségur e Béziers em 1244 pela recém criada Inquisição.

A sexta cruzada foi realizada por Andrés II da Hungria e Federico II da Alemanha.

A sétima e oitava cruzadas foram organizadas e dirigidas por Luis, rei da França, que chegou até Chipre e depois desceu para o Egito, onde foi feito prisioneiro. Ao ser liberado, organizou a oitava e última que dirigiu em Tunis, onde morreu devido à peste.

Nessa época o Islam vinha do período do Califado Omeya (659-750), seguido do Abbasi (a partir de 750) e terminado no Califado de Córdoba (923-1031), três períodos de esplendor, enquanto que na Europa Ocidental imperava uma época de obscuridade cultural.

Isso demonstra a falta de consciência que se tinha da função científica e benfeitora para o Ocidente que tinham tido os aportes do Islam. Nessa época, o Islam era uma luz intelectual, transmitindo seus conhecimentos tanto em geografia, ótica, arquitetura como em agricultura, medicina, filosofia, literatura, astronomia, náutica e álgebra, entre outras. A seguir, como consequencia do descobrimento de outras regiões desconhecidas, o aporte do sistema decimal trazido da Índia ou o papel da China. É de se destacar que a Europa conheceu o pensamento grego graças ao trabalho das bibliotecas islâmicas de Toledo e Palermo.

Nas palavras de Muhammad Asad:

“O que os Árabes tinham feito não foi só ressuscitar a antiga ciência grega, tinham criado um mundo científico próprio inteiramente novo, desenvolvendo meios de investigação e filosofia até então desconhecidos. Tudo isso foi transmitido ao mundo ocidental por diversos canais; e não foi exagerado dizer que a era científica moderna em que vivemos atualmente não se iniciou nas cidades da Europa cristã, antes nos centros da Cultura Islâmica de Damasco, Baghdad, Cairo, Córdoba, Nishapur e Samarcanda”.

Na época das Cruzadas o mundo islâmico teve que enfrentar tanto os cruzados europeus como os bizantinos e mongóis. Os turcos Seljúcidas dominaram desde 1038 até 1194. Sua estrutura era do tipo persa e com uma forma de governo militarizada com soldados de todas as regiões da Ásia Menor.

O Vaticano finalmente pôs em relêvo a riqueza do Islam e as possibilidades de diálogo no texto conciliar ‘Nostra Aetate’ (Nossa Época), elaborado no Concílio Vaticano II que se verificou entre 1963 e 1965 o qual ficou estabelecido como Doutrina oficial da Igreja Católica Apostólica Romana. No mesmo podemos ler:

“A Igreja vê também com apreço os muçulmanos e sua adoração ao único Deus vivente e subsistente, misericordioso e todo-poderoso, criador do céu e da terra, que falou aos homens e a cujos decretos ocultos procuram se submeter com toda a alma, como se submeteu a Deus Abrahão, de quem a fé islâmica gosta de fazer referência. Veneram Jesus como profeta, embora não o reconheçam como Deus; honram sua Virgem Mãe, Maria, e às vezes também a invocam devotamente. Esperam, além do mais, o dia do juízo, quando Deus recompensará a todos os homens uma vez que tiverem ressuscitado. Apreciam, portanto, a vida moral e honram a Deus, sobretudo com a oração, as esmolas e o jejum. Se no transcurso dos século surgiram não poucas desavenças e inimizades entre cristãos e muçulmanos, o sagrado Concílio exorta a todos a que, esquecendo o passado, procurem sinceramente uma mútua compreensão e, atuando em comum, defendam e promovam para todos os homens a justiça social, os bens morais, a paz e a liberdade”.

A MISSÃO SECRETA DOS TEMPLÁRIOS

“A partir desse momento necessitavam de uma organização forte e poderosa, para que pudessem cumprir seu verdadeiro objetivo, que intuo era a formação de uma Nova Ordem sobre a Terra, sob os mais puros ensinamentos do Cristo Redentor. Um reinado ecumênico de paz e justiça”...”A transcendência da missão necessitou, sem dúvida, da existência de Irmãos iniciados e Irmãos profanos. Uns e outros serviriam para cumprir o objetivo e a nova cobertura da Ordem: As Cruzadas”.
Horácio Amadeo Della Torre

O Templo é fundado em 1118 em Jerusalém. Em 1127 graças à assistência de São Bernardo de Claraval se organiza o Concílio de Troyes, é autorizada a fundação da Ordem do Templo e se lhe outorga suas sessenta e oito regras que regerão sua vida pública por quase dois séculos até sua dissolução simbólica em 1307 por parte do papado, a queima de seu Grão-Mestre Jacques de Molay (18.03.1314) e sua passagem posterior à clandestinidade e o trabalho encoberto até a atualidade, trabalho que foi possível graças às regras e fins secretos da Ordem.

O Templo foi acusado em várias ocasiões por outras ordens cristãs devido sua relação com os muçulmanos, que tinha como origem a admiração e respeito ante um excelente adversário. Isso também foi possível porque os templários falavam o árabe como língua habitual e conheciam perfeitamente as crenças deles.

Os denominados Turcopoles eram contratados pela Ordem como a força de Infantaria. Não se pode esquecer que os templários eram cavaleiros e portanto careciam de nobres que cumprissem a vital função dos infantes, que são, em qualquer guerra, os que tomam o objetivo. Em um plano não tão difundido se relacionaram com os sufis (Tariqah) e os intelectuais muçulmanos que eram protegidos em seus monastérios (ribbats) pelo Templo.

O chefe dos Turcopoles era chamado Turcoplier e tinha como característica particular reportar-se diretamente ao Grão-Mestre do Templo ou ao Mariscal na Batalha. Esse não é um dado menor porque demonstra que dentro de uma estrutura piramidal como a Ordem do Templo, os turcopoles tinham privilégios ao poder se dirigir diretamente à autoridade máxima, que por sua vez era a única que podia lhes dar ordens e puní-los.

Cada um dos altos oficiais do Templo (Grão-Mestre, Senescal, Mariscal e Comendador) tinha dentro do seu estado maior um funcionário turcopole, além de um escriba árabe. O oficial turcopole o assessorava e o assistia em temas militares, políticos, culturais e cabe suspeitar que compartiam informação que faziam as diretivas da Ordem Interna e que teriam tido um importante grau de ingerência dentro das decisões que tomavam os dignitários da ordem.

Cabe supor também que participavam da Ordem Interna os sábios judeus da Kabalah e dessa forma estariam juntos os três credos monoteístas que derivam do mesmo pai em comum: Abraão.

Com o tempo, os templários que eram originários da França se sentiram mais próximos aos muçulmanos que eram seus vizinhos habituais e que por sua vez os influenciaram com suas crenças, questão que fez o Templo se afastar da ortodoxia da Igreja Católica.

Ao chegarà Terra Santa a célula inicial que formaria os Pobres Cavaleiros de Cristo se deu conta da inutilidade da Cruzada, já que o Islam e o Cristianismo tinham os mesmos valores. Por isso é que os onze irmãos templários iniciais estiveram nove anos vivendo na Terra Santa , sem entrar em combate.

É surpreendente que grande parte dos historiadores considere que os “templários” eram denominados dessa forma devido ao Templo de Salomão, lugar que lhes teria dado o rei Balduíno II de Jerusalém. O Templo de Salomão não existia mais desde o ano 70, só restavam suas ruínas devido à destruição que havia sofrido pelas forças do imperador romano Tito. Séculos depois é que se construiu sobre essas ruínas a Mesquita de Al Aqsa, que foi o lugar onde se albergaram os Templários e a qual lhe devem seu nome e que por sua vez lhe revelaria o princípio arquitetônico que os Templários utilizaram em suas construções que é a forma octogonal, desenho típico da arte islâmica. Pelo dito, os templários se denominavam assim por ter sua base central no ‘Templo da Rocha’ (Al Aqsa Masyid).

Faz séculos que existe a crença de que a missão dos Templários era proteger a linhagem de Cristo. Fala-se sobre o sangue do Homem, de Jesus, levado por Maria Madalena em seu ventre em seu périplo de exílio, após a aparente crucifixão, que termina no que hoje é a França. De dita estirpe provêem os Reis Merovíngios, descendentes do Rei David, como o foi Jesus por parte de pai e mãe. Desses reis descendem as casas européias reais de Lorena, Augsburgo e Borbón.

Quando se deram as lutas civis européias, nos séculos XVIII e XIX , houve uma série de assassinatos de príncipes portadores dessa estirpe. Alguns descendentes conseguiram emigrar para salvar seus filhos.

Entre os reis que foram educados por tutores Templários, se encontra Federico II Hohenstaufen (1194-1250). Esse imperador alemão foi monarca do Sacro Império Romano-Germânico, Alemanha, Sicília e Jerusalém. Filho de Henrique VI e da imperatriz Constanza, com a morte de seu pai quando tinha três anos, sua mãe o leva para viver no reino da Sicília, uma vez que ela era herdeira do reino normando, onde morre a imperatriz um ano depois.

Devido à sua educação liberal e tolerante em Palermo, onde havia uma mistura entre a cultura árabe e bizantina, diferente da dos reis do norte da Europa que deviam seguir um estrito ensinamento católico, foi alternativamente inimigo do Papado e defensor da Cristandade, questão essa que lhe custou ser excomungado duas vezes. Embora tenha organizado a sexta Cruzada, foi ele que entregou por meio de um acordo a cidade de Jerusalém ao Sultão do Egito Malik Al Qamil. Falava o latim, grego e árabe com perfeição tendo dificuldades com o francês e o alemão, e simultâneamente usava roupa islâmica em sua Corte real onde havia sábios de todas as crenças, enquanto que sua guarda pessoal era formada em sua totalidade por muçulmanos.

Piers Paul Read, nos diz sobre o tema:

“O trato indulgente de Federico para com os muçulmanos de seu reino escandalizava alguns de seus contemporâneos católicos, porém quase com toda a certeza provinha tanto de considerações práticas como ideológicas: os Templários da Espanha, por exemplo, permitiam aos muçulmanos praticar sua religião nas possessões templárias como um incentivo para mantê-los no lugar”.

Seu espírito profundamente Templário, buscava unificar em sua pessoa a coroa de toda a Europa. Juan Atienza afirma que através de uma negociação secreta (1228) as Ordens Templária, Hospitalária, Teutônica, Hassasin e outras haviam investido Federico II como Imperator Mundi (Rei do Mundo), a seguir do que o coroaram como rei de Jerusalém (1229).

Outro dado de transcendência é a conexão Cátara. Muitos imãos templários de ofício e sargentos tinham escapado da Cruzada contra os Cátaros. Eles também levaram suas doutrinas ao Oriente Médio e principalmente ao seio do Templo.

Os Cátaros não criam na divindade de Cristo, antes pelo contrário, que era um Profeta elevado (à semelhança do Islam) que tinha vindo ao mundo para ensinar um caminho espiritual de pureza. A Cruz era um objeto que rechaçavam por considerar que Jesus não havia morrido dessa forma. Faziam que seus discípulos negassem a Cruz e com ela o simbolo de Cristo, para adotar e seguir a figura de Jesus. Outra coincidência com o Islam e o evangelho apócrifo de São Barnabé.

No julgamento do Templo se comprova que estes rechaçavam o símbolo da Cruz. Eles criam que Jesus não havia morrido crucificado e que inclusive essa crença se constituia em uma blasfemia.

Os Templarios consideravam que a Cruz simbolizava o homem (microcosmos), a cruz templária representava os quatro elementos, que eram os que supostamente tinham figurado como inscrição na Cruz de Cristo ‘I.N.R.I.’, que se interpretou historicamente como ‘Jesus Rei dos Judeus’ mas que seu significado real era: lesbeschah (Terra), Nour (Fogo), Ruah (Ar) e Iammin (Água). Com esse sentido, o Templo não estava contra a Cruz, senão contra a imagem de Deus crucificado.

No julgamento do Templo, o cavaleiro templário Gaucemont confessou a adoração de uma imagem que descreveu como ‘in figuram baffometi’ termo que parece ser era de uso habitual entre os Templários.

O famoso ídolo, descrito como uma cabeça barbada, denominada ‘Baphomet’ que foi uma das causas contra o Templo que se apresentou no julgamento contra a Ordem, era uma deformação em dialeto occitano da palavra francesa ‘Mahomet’ ou seja Maomé. Isso demonstraria que os Templários superiores respeitavam o profeta Maomé, em seu círculo mais íntimo.

Alguns autores discordam desse critério, porque consideravam o islam clássico ou Suni, que não aceita o culto dos ídolos (Shirk). A isso se deve que fiquem óbvios o fato de que os Hassasin eram muçulmanos ‘Sui Generis’ da mesma forma que os Cátaros e Templários o são no Cristianismo.

Outra interpretação poderia estar na deformação do título árabe de ‘Abu fi hamat’ ou Pai da Sabedoria como se designava os Mestres sufis, sábios islamicos que estiveram em estreito contacto com os cavaleiros templários.

Entre as causas que fundamentaram o rei Felipe o Belo e o Papa Clemente V para o extermínio do Templo, estava a que reconhecia que os Templarios tinham uma regra secreta que era reservada para as mais altas autoridades e que diferia profundamente da regra que havia estabelecido o Papado.

Em 1º de Dezembro de 1145, cai a cidade de Edesa em mãos islâmicas. O Papa Eugênio III convoca todas as forças cristãs para uma terceira cruzada, que será conduzida por Luiz VII da França.

Essa Cruzada termina em fracasso como também a expedição a Damasco, devido, entre outras coisas, pelas intrigas e lutas internas entre o rei Balduíno III de Jerusalém com sua mãe a rainha Melisenda, protegida do Templo, ao que se somou a disputa entre o rei Luiz VII e sua mulher Leonor de Aquitânia. A culpa da perda de Damasco é lançada sobre o Templo a que se lhe acusa de haver conspirado com os sultões Nur Al Din e Unur.

Nas palavras de Fernando Ciez Celaya:

“Na Terra Santa os templários não só encontram o infiel contra o qual combater, senão um marco adequado para entrar em contato com as doutrinas e filosofias próprias das civilizações da Ásia Menor e do Oriente. Assim ocorre, na verdade, segundo muitos autores, que atribuem aos templários do Templo um conhecimento e uma irmandade deliberada com sufis e mais tarde cabalistas e inclusive com ‘ashashins’. Essa teoria, que se baseia num sincretismo entre as religiões monoteístas fundamentais e suas respectivas tradições esotéricas – no que coincidem no fundo – faz suspeitar a muitos, que os acusam de haverem-se contaminado, de seguir condutas permissivas com a religião dos infiéis, precisamente com tudo o que foram chamados a erradicar”.

Com base nos relatos de Esquiu de Floryan e de Otto de Blasien, o ministro real Guillermo Nogaret, trama a detenção dos cavaleiros Templários da França.

O último Grande Mestre do Templo é queimado vivo junto com outros cavaleiros na presença do rei e do Papa. Antes de morrer grita ao rei Felipe que ele e seu vassalo (o Papa Clemente) estariam juntos a Molay antes do transcurso de um ano na presença do Tribunal Divino. Essa maldição se cumpre em menos de um ano a partir da morte do último Grão Mestre e morre Felipe IV, o Belo, e o Papa Clemente V.

Os descendentes diretos de Felipe morrem no transcurso de catorze anos, e assim fica a linhagem direta da família Capeto extinta. O último dos reis com esse sangue morrerá em consequência da Revolução de 1789, seu nome era Luiz XVI.

Fato cheio de significados é que a família real de Luiz XVI é confinada na Torre do Templo em Paris, a partir de onde é transportado para ser guilhotinado. Quando se cumpre a sentença os relatos nos contam que um mestre construtor, maçon em francês, saiu da multidão, tomou em suas mãos o sangue de Luiz XVI e dirigindo-se ao povo disse: “Jacques de Molay foi vingado”.

Para finalizar a real missão do Templo, pode-se concluir com Martin Walter:

“Quais foram os objetivos daquela Ordem..? Evidentemente foram mais além de seu papel de monjes-soldados, e o fizeram precisamente porque não desejavam tornar público as diferenças de credo e concepções filosóficas nos campos de batalha, embora fossem excelentes guerreiros. O contato com outras culturas, talvez mais estreitamente do que se crê geralmente, os fez reparar que existem mais coisas que unem os homens do que os separam... Quixotes de Cristo pelo desmensurado de seus sonhos, perseguiram o impossível como fim último de suas atividades, a revitalização do conceito de Império: um Ocidente e um Oriente Islâmico, integrados por uma federação de Estados autônomos, sob a direção de dois chefes supremos, um dos assuntos políticos e outro para os espirituais”...”O Templo defendeu a reconciliação das grandes religiões (talvez buscava alcançar uma espécie de sincretismo?) advogando pela criação de um duplo Conselho de Estado e de Igreja (de diversas confissões). E eles seriam os garantidores do processo, pelo menos em sua fase de transição, opondo-se aos abusos dos poderes políticos e econômicos”... “O que o rei (Felipe IV da França) e um Papa (Clemente V) se esforçaram para enterrar sob as cinzas das fogueiras – chega a afirmar o investigador e esoterista Saint Yves – era a possibilidade de uma revolução política e o plano, todavia latente, de uma reforma religiosa e social”.

CONCLUSÕES

Os Templários chegaram a combater, na Terra Santa, contra outras Ordens Cristãs, de certa forma porque eles buscavam o diálogo como o Islam, diferentemente de outras ordens que não haviam nascido como eles no Oriente Médio e não estavam acostumados no trato e com os costumes dos nativos.

É assim como vemos porque essas duas Tradições se afastam do Islam e do Cristianismo clássicos respectivamente. Buscavam um fim superior que era através dessa união, preparar o terreno para o tempo da Parusia no qual Jesus Cristo, reconhecido como Messias pelas duas crenças , governaria o mundo em comum que adoraria ao mesmo e único Deus. Por isso foram sacrificados os Templários, sofrendo toda classe de insultos, torturas e calúnias.

A união fraternal entre Cristianismo (Cruz Solar) e Islam (Crescente Lunar), ou seja um Crislam que unirá as duas Tradições monoteístas mais fortes da terra. De outra parte, nos encontramos com outro fim em comum entre os Hassasin e os Templários, o de defender as linhagens sagradas para que possam governar tanto o Oriente como o Ocidente permitindo que o mundo seja uma grande fraternidade.


DANTE ALIGHIERI
E a Filiação Templária de "Os Fiéis do Amor”


Traduzido por Fr. +João Baptista Neto

Matéria extraída da www.revistahermetica.org nº2

Nota: A figura abaixo não consta do original

Palavras iniciais

Acredito que Vocês hão de concordar que ninguém melhor que Dante Alighieri para comprovar que a poesia e a literatura são indubitavelmente dois caminhos Iniciáticos. Seus personagens e suas metáforas nada mais são que símbolos ora da realidade que vivia, ora da realidade que almejava.

Além desse aspecto, com a matéria abaixo, de excelente conteúdo, veremos as ligações da Ordem com demais Ordens Iniciáticas, tudo considerando que o esotérico está acima do religioso, normalmente impregnado de superstições e fanatismos.



Autor: Dr. Carlos Raitzin

image Uma questão de especial interesse relacionada com a Ordem do Templo são suas filiações ou Ordens derivadas de caráter laico ou secular.Possuem-se evidências de que ao menos uma dessas filiações existia já bastante antes do infame processo a que foi submetido o Templo e da perda do caráter canônico da Ordem, o que teve lugar em 1312. Essa filiação a que aludimos é a Orden de los Fedeli d’Amore (Ordem dos Fiéis do Amor), às vezes designada também com o nome da doutrina iniciática por ela transmitida: a Fé Santa.

Não parece caber dúvida razoável de que o nome de Fedeli d’Amore provinha diretamente do famoso grito de guerra dos cavaleiros templários quando esses se lançavam ao combate com valor insuperável: esse grito era: Viva Deus, Santo Amor!

De outra parte é bem conhecido como membro dessa Ordem Dante Alighieri, com dignidade de Grão Mestre e também do pintor Pedro de Pisa. Porém não foram eles os dois únicos talentos, senão que causa grande admiração ainda hoje a plêiade de grandes figuras da literatura italiana que passaram pelos Fedeli d’Amore. Basta mencionar Bocaccio, Petrarca, Andreas Cappelanus, o Cardeal Francesco da Barberino, Cavalcanti, Dino Compagni como também Brunetto Latini, autor bem conhecido de duas obras, o “Tesouro” e o “Tesourinho” a quem nos referiremos depois. Inquestionavelmente os Fedeli d’Amore possuíam uma transmissão iniciática e uma corrente doutrinária esotérica própria em sua forma externa, de indubitável origem templária à primeira vista porém ismaelita (Ordem dos Haschischin) de fato. Essa doutrina, precisamente por ser iniciática, era supra-religiosa e não podia de nenhuma maneira ser enquadrada nos cânones do cristianismo, nem sequer como uma heterodoxia.

É necessário ressaltar aqui uma vez mais que o autenticamente iniciático e tradicional tem seu lugar próprio em um plano espiritual-intelectual mais elevado que o religioso, entendendo esse último tanto no aspecto dogmático como devocional. Recordemos que o religioso é, por excelência, essencialmente passivo e funciona exclusivamente a nível de consolo e suporte emocional. O iniciático, ao contrário, corresponde ao modo ativo de desenvolvimento espiritual empregando técnicas próprias e distintas que são as disciplinas dessa via. Por isso ambos caminhos não podem, a rigor, se encontrar nem coexistir, sendo essencialmente incompatíveis tanto por uma questão de nível espiritual como por outra de índole metodológica. Ademais, e isso é básico, a via iniciática é antes de tudo caracterizada pela transmissão espiritual que se denomina, precisamente, iniciação. Não existe contrapartida ou análogo da iniciação no campo religioso, a despeito do que pretenderam alguns autores desencaminhados e confusos, tais como Frithiof Schuon. Bem entendido, tudo aquilo de natureza devocional, tal como oração, êxtase, místico, mortificação ascética e esmola caritativa não tem absolutamente nada a ver com a via iniciática, correspondendo sem exceção a um nível muito inferior de coisas que é , certamente, o religioso.

Isso aqui enunciado é muito simples de entender para quem possui as necessárias aptidões e qualificações para empreender verdadeiramente a via iniciática mas não resulta, por certo, coisa simples para a imensa maioria das pessoas. De fato, foi requerido muito tempo para chegar a aclarar as idéias até esse ponto. E certamente, durante muitos séculos aqueles que recorriam à via iniciática seguiam (e geralmente seguem até hoje em dia) adicionando-lhe elementos supérfluos de tipo religioso com todos os prejuízos que isso implica: dogmatismo fanático, sectarismo, perda de universalidade e de fraternidade. Certamente, tais atitudes provêm de uma incompreensão profunda da natureza do iniciático, cujo desenvolvimento tem lugar no plano da experiência metafísica a nível totalmente supra-pessoal. Mas, certamente, quem jamais passou por tais experiências inefáveis e, por fim, possua só uma idéia muito vaga e remota da natureza destas, mal pode compreender porque deve se desvencilhar do religioso para alcançar algo certamente mais elevado no que faz tanto à vivência interior como ao Conhecimento do Ser.

Naturalmente todas essas dificuldades provêm do fato que normalmente se iniciam pessoas que não possuem, nem ainda em grau ínfimo, as mínimas condições que as fariam aptas para tal via de realização espiritual. E o que ainda é mais grave, chegam à iniciação carregados de idéias absurdas e concepções errôneas que geralmente tomam do “saber” profano como do dogmatismo religioso e que após lhes resultam muito difíceis de esquecer.

Pois bem, nos Fedeli d’Amore ocorriam com bastante freqüência fatos da natureza mencionada. O genuinamente esotérico e iniciático se revestia vez por outra com uma roupagem demasiadamente marcada pela ignorância, pelo fanatismo e pela superstição próprias do tipicamente religioso.

Outras vezes, o temor à Inquisição e aos partidários do Papa fazia que essa roupagem religiosa, com todos seus absurdos e limitações, fosse adotada deliberadamente. E assim nasceu inclusive uma linguagem secreta dos Fedeli d’Amore bastante interessante e da qual nos ocuparemos mais adiante.

Um tema de tanto interesse como os Fedeli d’Amore não podia escapar à atenção dos especialistas tanto do campo esotérico como historiadores. E assim foi como homens da estirpe de René Guenon, Julius Evola, G. Rosseti, Luigi Valli, A. Ricolfi e Arthur Scult (para mencionar somente apenas alguns dos mais conspícuos) dedicaram a essa Ordem considerável esforço. Hoje revelaremos nessa exposição alguns dos resultados por eles obtidos.

Vejamos alguns fatos de interesse a respeito. No museu de Viena, junto ao Ródano, existem duas medalhas com a imagem de Dante Alighieri e do mencionado pintor Pedro de Pisa em que se leem as letras FSKIPFT.

O observador desprevenido poderia facilmente pensar que tais letras são simplesmente as iniciais das denominadas virtudes teologais: Fé, Esperança e Caridade junto com as correspondentes às virtudes cardeais: Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança. Mas um instante de reflexão basta para compreender que não era possível que homens de tamanha ilustração como os nomeados admitissem ou cometessem o erro grosseiro de escrever em latim “caridade” (charitas) com K. A questão se tornou clara por obra de Aroux, que identificou que na realidade se tratava de uma sigla absolutamente específica da Ordem dos Fedeli d’Amore. René Guénon pôde retificar um erro de Aroux e finalmente se chegou à solução do enigma. As letras mencionadas são as iniciais de “Fidei Sanctae Kadosh, Imperialis Principatus, Frater Templaris” ou seja “Consagrado da Fé Santa, Príncipe Imperial, Irmão Templário”. Como o mesmo René Guénon assinala, a denominação de Kadosh (Consagrado ou Santo) é uma palavra que se emprega até hoje em conexão com o Grau 30 da Maçonaria, Grau que é templário por excelência. A denominação de Príncipe Imperial há que se vincular à marcante orientação gibelina da Ordem, quer dizer uma atitude de total apoio ao Imperador do Sacro Império Romano Germânico em confronto com o poder temporal usurpado pela Igreja Católica.

Mas o que merece um esclarecimento mais detalhado é o de Fidel Sancta (ou Fé Santa em italiano) a que não guarda relação com o dogmatismo e crenças de nenhum credo religioso corrente e esotérico.

De fato, há boas razões para pensar com Guénon que a Fé Santa, filiação templária laica ou secular, era nos tempos de Dante algo que em alguma medida se assemelhava ao que mais tarde se conheceu como “Fraternidade da Rosa-Cruz”, se é que essa mesma não se originou diretamente dela. Para esclarecer um mal-entendido frequente esclareçamos desde já que os membros da Fe Santa se autodenominavam como Fedeli d’Amore, nome com o qual após chegou a se denominar a própria Ordem. O simbolismo básico era de natureza astrosófica, semelhante por um lado a que os Templários tinham assimilado dos cátaros.

Sem entrar em detalhes que não cabem aqui, digamos que esse simbolismo faz referência ao Trivium e ao Quadrivium quer dizer as “sete artes liberais”: Gramática, Lógica, Retórica, Geometria, Astronomia, Aritmética e Música. Naturalmente essas disciplinas eram encaradas na Ordem a partir de um enfoque sapiencial e iniciático, mais elevado em espírito e conteúdo que o saber profano. Naturalmente isso tem ampla relação com as esferas e os ciclos planetários aos que faz ampla alusão Dante na “Divina Comédia”. Não obstante, quanto à estrutura de graus, ou seja a hierarquia iniciática interna, os Fedeli d’Amore se separavam da estruturação em sete graus da Ordem do Templo, que se conserva até os dias de hoje. Essa estrutura de sete graus se originou ao que parece na Ordem dos Haschischin. Vale a pena assinalar isso, mencionando de passagem que existem distintos trabalhos sobre as analogias entre ambas Ordens. Voltaremos após a respeito mas assinalemos desde já que a estruturação da Fede Santa se fazia com base em um sistema de quatro graus que analisaremos em seguida. Convém de passagem recordar que outra das autodenominações que se davam os Fideli tinha por base a palavra Merzé ou Mercê (presente, graça, mercê) e que ainda hoje um alto grau maçônico, lamentavelmente caido em desuso, pretende ter uma origem ou filiação hermético-templária. Esse grau, aparentemente vinculado pelo menos em seu simbolismo, com a Fede Santa é o dos “Príncipes de Mercy”. Assim sendo, o notável é que a melhor fonte para conhecer a fundo o simbolismo e o ritual dos Fedeli d’Amore é uma obra de Dante: a “Vita Nuova”. Contudo o profano que a ler sem cuidado e inadvertidamente nada poderá captar nem entender.

Porém o iniciado não poderá deixar de se deter em detalhes que logo revelarão a chave de toda a obra. Essa é genuinamente iniciática mas sua avaliação exige precisamente que ponhamos em prática o conselho do próprio Dante na “Divina Comédia”:

“O voi ch’avete li’ntelleti sani, mirate la dottrina [O vós que tendes o discernimento, olhai a doutrina]
Che s’asconde sotto ‘l velame de li versi strani”.[que se esconde sob o véu dos versos estranhos.]
(Inferno, IX, 61-63).

E as surpresas com a “Vita Nuova” começam a partir da primeira página, pois ali diz Dante algo preciso, inconfundível que constitui, por excelência, uma alta verdade na ordem iniciática e metafísica:

“In quel punto dico veracemente che lo spirito [Naquele ponto digo verazmente que o espírito]
Della vita, lo quale dimora nella segretissima camera [da vida, o qual mora na secretíssima câmara]
Del cuore…” [do coração…]

Aquí o esoterismo se torna transparente em uma alusão direta à presença divina (átmica) na câmara etérica do coração de todos os seres. Deus está em nós mesmos: para buscá-lo e achá-lo não fazem falta enviados nem vice-deuses. Naturalmente que Dante não pôde continuar nessa obra sendo tão explícito: teria terminado nas garras dos fanáticos. Essa é a causa determinante de que emprega vez ou outra uma terminologia secreta que é precisamente essa linguagem em chave dos Fedeli d’Amore a que fazíamos referência antes. Assim, por exemplo, uma ou outra vez Dante fala de “coração gentil” para dar a entender um coração purificado das paixões próprias da natureza inferior do ser humano. O vento tinha para os membros daquela Ordem o mesmo sentido que tem hoje a palavra “chuva” para os maçons: não falar pois há profanos que escutam. Todas essas medidas de prudência eram, como se disse, impostas pelo fanatismo e intolerância da seita católica. E reiteramos isso pois unicamente uma religião em curso e exotérica pode ser sectária (que corta, divide) já que separa e divide seus seguidores dos que não têm as mesmas crenças.

No nível iniciático não pode haver seitas, pois toda genuína fraternidade esotérica pratica o universalismo e postula a unidade, transcendendo assim toda possível divisão real ou fictícia entre os seres humanos.

Dizíamos que a “Vita Nuova” constitui uma verdadeira síntese a nível ritualístico e simbólico da “Fede Santa”, sob as aparências de canto a um amor sublime mas profano. Certamente seria muito ingênuo querer ver aqui um reflexo do amor do poeta por Beatriz, ou seja Bice Portinari, uma jovem que Dante conheceu em tenra idade. A obra tem por certo fins muito mais elevados e Beatriz, tanto aqui como na “Divina Comédia” é um símbolo de Sophia, a Sabedoria Divina de natureza transcendente e, certamente, situada muito mais além de todos os dogmatismos sectários e idólatras. As investigações dos autores já citados permitiram por às claras que os quatro primeiros capítulos da “Vita Nuova” correspondem ao Primeiro Grau da Fé Santa, denominado FEIGNARE ou Aspirante. Os capítulos 5 a 13 se referem ao segundo Grau, PREGNAIRE ou Postulante. Nos capítulos 14 a 17 se velam simbolicamente ritual e doutrina do Terceiro Grau, ENTENDEIRE ou Ouvinte. Finalmente os capítulos 22 a 29 se centram no Quarto e último Grau, SERVUS ou Servidor.

Os capítulos 30 a 34 inclusive narram as experiências espirituais subsequentes à Iniciação entre os membros da Ordem. Os capítulos 35 a 39 são dedicados à narrativa dos entusiasmos do iniciado ao retornar à vida cotidiana. O final feliz se reserva para os capítulos 40 a 42 que constituem um cântico espiritual de grande elevação.

É de interesse assinalar que Dante foi iniciado no Primeiro Grau dos Fedeli d’Amore ao redor de 1290. Seu iniciador foi um eminente filósofo e erudito da época, de nome Bruneto Latini (1230, circa 1294), muito respeitado e querido por Dante. O grande florentino visivelmente se inspirou no “Tesoretto” de Latini ao escrever o Canto Primeiro do Inferno, obra de clara inspiração templária escrita em italiano na forma de resumo de uma obra anterior em francês, o: “Trésor” do mesmo autor.

E passamos agora a considerar de forma breve a obra máxima de toda a literatura italiana: a “Divina Comédia”. Observe-se que esse título do poema dantesco e que perdurou, foi dado por Bocaccio. Dante morreu deixando sem título sua obra principal. Em sua obra capital Dante revela o mais elevado da gnose templária de forma oculta, cifrada em símbolos e velada por alegorias. E novamente aparece aqui patente sua filiação templária, pois após haver sido guiado no poema por Virgílio e por Beatriz é Bernardo de Claraval, fundador do Temple e inspirador de sua Regra, quem o conduz aos planos da mais elevada espiritualidade, até chegar ao “Amor que move o Sol e as estrelas”, onde culmina e finaliza o poema.

Com respeito aos treze Cantos finais da “Divina Comédia” vale talvez a pena fazer a seguinte anotação. Dante morreu em Ravena em 1321. Os últimos treze cantos do Paraíso, precisamente naqueles em que ele havia cifrado habilmente o mais elevado da doutrina esotérica do Temple e dos Fedeli d’Amore, não pensava seu autor em publicá-los posto que isso seria perigoso. E assim foi que os escondeu num ôco da parede de sua casa, habilmente dissimulado por uma esteira de palha. Por enquanto não vamos elucidar qual é essa doutrina, vale a pena reler nas entrelinhas esses Cantos pois isso pode nos conduzir a descobertas de muita importância.

Morto o grande florentino, seus filhos e amigos pensaram que sua obra mestra havia ficado truncada. Como efetivamente o Inferno consta de uma Introdução e trinta e tres cantos e outros trinta e tres tem o Purgatório, era lógico esperar outros tantos como extensão do Paraíso. Conta Bacaccio em sua “Vida de Dante” que essa história teve um final tão feliz como surpreendente. Oito meses depois da morte de Dante, um discípulo seu por muitos anos, de nome Piero Ravignani, sonhou com o poeta. O grande gibelino apareceu nesse sonho vestido com túnica branca e irradiando de sua figura um halo de luz, como de um autêntico Iniciado que era. No sonho seu discípulo lhe perguntou se estava vivo ao que Dante respondeu que em verdade ele vivia mas a verdadeira vida, não a nossa terrenal e miserável. Ao interrogar-lhe de novo o discípulo, desta vez sobre se seu grandioso poema havia sido concluído, Dante respondeu de novo afirmativamente e no sonho o conduziu até o ôco anteriormente mencionado na parede da que havia sido sua casa em vida, dizendo-lhe que ali se achava o que tanto se havia procurado. Após isso a imagem do poeta se desvaneceu, despertou o discípulo e correu de imediato até a casa de Jacopo Alighieri, filho do grande florentino e que morava na casa que havia sido de Dante.

Conta-lhe o sonho e juntos correm à parede de marreta em punho. Ali, atrás da esteira se encontrava o ôco do qual tiram, terrivelmente emocionados, os manuscritos dos Cantos faltantes do Paraíso, a que a umidade já começava a deteriorar. Assim se pôde dispor do texto completo da “Divina Comédia” que nos chegou até hoje inteira apesar de que em diversas oportunidades a Inquisição pensou em destruí-la. Em particular, na Espanha do século XVII foram queimados numerosos exemplares pelos sempre ativos representantes da intolerância e do fanatismo ignorante.

O tema central do esoterismo de Dante é o amor Divino como meio para alcançar a Sophia, a divina Sabedoria que se acha mais além de todas as crenças e dogmas. E essa Sophia é o tema chave de todo esoterismo gnóstico, incluindo aqui não só aos Templários e aos Fedeli d’Amore senão também aos cátaros, para não mencionar agora senão correntes iniciáticas ocidentais. Não cabe dúvida de que o catarismo e o templarismo mantiveram relações muito estreitas, o que se torna evidente ao examinar certos ritos nos altos graus da Ordem do Templo. E quanto à Sophia ou Divina Sabedoria, vale a pena recordar aqui o assinalado pelo Dr. Hugh Schonfield, quem analisou em suas obras o código cifrado “Atbash”, baseado na permutação de letras e que empregavam tanto os essênios como os sadoquitas e nazareos para fazer ininteligíveis seus textos. De acordo com o Dr. Schonfield ao aplicar essa chave criptográfica a palavra “Baphomet” esta se transforma em “Sophia”, o que resulta pelo menos muito sugestivo (C.f.r. Lincoln-Baigent-Leigh: “O Legado Messiânico”). Não resta dúvida de que os Templários tiveram contatos muito estreitos com diversos agrupamentos iniciáticos na Terra Santa e essa poderia ser uma prova a mais a respeito. Em diversos trabalhos se mencionou a evidente analogia entre as cores vermelha e branca usadas em suas vestimentas tanto pelos ismaelitas haschischin como pelo Templários, quer dizer que as duas Ordens reclamavam para si o título de “Guardiãs da Terra Santa”. Essa analogia na realidade vai mais longe ainda pois essas cores aparecem também em combinação com o negro como fundamentais em Alquimia.

Notadamente branca e vermelha são também as cores tanto de “Conduiramour” como de Beatriz, sendo a primeira para Perceval o que é Beatriz para Dante. Naturalmente há que se remeter aqui à obra de Wolfram von Eschenbach... e recordar que a Tradição Iniciática é una e universal.

A essa altura se faz necessário, para concluir, assinalar alguns pontos a mais que tocam diretamente a aspectos doutrinais da Fede Santa. Resulta muito ilustrativa a respeito a obra “Documenti d’Amore” do cardeal Francesco da Barberino (nascido cerca de 1597). Esse livro traz em sua primeira página a imagem de um guerreiro de espada em punho. Da boca desse sai uma inscrição que é a seguinte:

“Eu sou a força e defendo se vier
Alguém que esse livro abrir quiser;
E se for de não ter direito
Com essa espada lhe trespasso o peito”.

Torna-se desnecessário esclarecer que esse Cardeal era membro da Ordem. O quarteto anterior se refere bem claramente à absoluta necessidade de guardar os tesouros espirituais para aqueles que sejam realmente dignos deles. Uma nova e sábia indicação de que jamais se deve iniciar profanos que não possuam altas condições e virtudes (tornando alheio ao “vulgo ingrato” de que falava Dante ou seja a turba desagradável) a dá ele próprio Barberino com aquela de “temer os ignorantes” e acrescenta após o mesmo autor: “Digo e declaro que todas as obras feitas por muitos referentes ao Amor as entendo em um sentido espiritual, porém nem todas podem ser compreendidas por todos”. E em outra obra emanada da Ordem, o “Julgamento do Amor” se faz referência aos “Mistérios de Amor” que não se podem comunicar aos vís, aos indiscretos e às pessoas vulgares.

O notável é que toda a dissimulação empregada em suas obras com relação a temas iniciáticos, Dante a perdia subitamente ao passar a ocupar-se, inclusive nas mesmas obras suas, de temas mais profanos. Assim por exemplo, quando no Canto XXXI do Purgatório faz referência à nefasta aliança entre a Igreja e o Rei da França, Philippe o Belo para destruir a Ordem do Templo, ele afirma sem vacilar:

(Na tradução do Prof. Battistessa esses versos ficam assim):

Firme como um castelo no alto da montanha
Ví ali, sentada, uma rameira
Meio desnuda, pronta a dar guinadas.
E como porque não a tiraram dali
Um gigante vi de pé à sua frente,
E assim de vez em quando se beijavam.

Cabe esclarecer que o poeta com o gigante alude a Philippe o Belo, o rei da França (era muito alto como todos os homens de sua família). A rameira ou prostituta simboliza a Igreja Católica. Aqui Dante se inspira claramente no Apocalipse XVII, quando esse texto se refere à prostituta da cidade das sete colinas que fornicou com todos os poderosos da Terra, e os habitantes da Terra se embriagaram com o vinho de sua prostituição.

E nós agregamos: a confissão de parte, substituição de provas. Mas, sem dúvida era grande a justa indignação de Dante ao assistir a um fato tão iníquo como a destruição do Templo. Ele correu a Paris no começo de 1310, tão logo começou a paródia do julgamento dos Cavaleiros Templários e permaneceu ali até 1312, sem que nenhuma razão profana o obrigasse nem a tal viagem nem a tal prolongada estada. Cabe supor, com bons fundamentos, que se acudiu à Paris foi simplesmente para fazer o quanto estivesse a seu alcance para salvar os Cavaleiros, seus Irmãos, do tormento e da fogueira.

Tempos muito duros foram esses para o Templo e suas Ordens filiais, tempos em que se deviam redobrar as precauções para não cair como vítima da voragem do fanatismo ignorante. Por isso tantas precauções, tanto segredo, tanta chave esotérica. E assim, a nível de síntese final, demos para facilitar a leitura da obra do florentino a partir do ponto de vista esotérico, um breve glossário:

Amor: nostalgia e desejo da união com Deus.
Piedade: Igreja espiritual ou seja os Mistérios Iniciáticos.
Violência e Força: O Papa e o clero romano.
Morte e crueldade: Inquisição Romana.
Beatriz: Igreja do Espírito, Sophia; Divina Sabedoria.
Beatriz é a antítese da
Prostituta: Igreja da carne, Igreja Católica.

VELTRO (o ‘lebrel’): É o eVangELho eTeRnO (observar as maiúsculas) tal como supeitou Giovanni Papini mas com referência à Sophia e à Igreja Joanita (baseada no evangelho de São João) e não nas doutrinas de Gioacchino da Fiori e Gerardo de San Donnino, como conjecturava Papini.

A tirania do espaço nos impede aqui de entrar em outros aspectos fundamentais do esoterismo dantesco tais como a influência que tiveram no grande florentino os mestres espirituais islâmicos e os esquemas astrosóficos que se observam na “Divina Comédia”. Desenvolveremos esses temas em outros trabalhos, continuando os esforços colossais de Miguel Asín Palácios e de Georg Rabuse, cujas obras muito contribuiram para esclarecer essa questão. Desde já isso reabre a velha questão acerca da muito provável iniciação recebida pelos Cavaleiros Templários por parte de esoteristas islâmicos. Essa exposição não estará completa se não mencionarmos brevemente dois grupos de fatos fundamentais que não podem se dever ao acaso de modo algum. Em primeiro lugar a viagem poética de Dante pelo Inferno, Purgatório e Paraíso está calcada ainda em detalhes menores sobre a viagem noturna de Maomé descrita no Corão e em outros modelos da literatura espiritual islâmica. Disso se ocupa extensamente Miguel Asín Palacios em sua famosa obra “A escatalogia muçulmana na Divina Comédia”, reeditado por Hiperión, Madrid, 1984. Mais sugestivas ainda são as repetidas citações por parte de Dante do maior dos mestres espirituais do Islam, o murciano Mohyiddin Ibn ‘Arabi sem citar jamais a fonte. Como assinala Geúnon mesmo se Dante conheceu a obra de Ibn ‘Arabi de fontes profanas porque o ocultava, principalmente quando não tem inconveniente em citar outros filósofos islâmicos como Avicena e Averroes.

Remeto para maiores detalhes à obra clássica de René Guénon “L’ésoterisme de Dante”, Gallimard, Paris, 1957.

O outro grupo de fatos que se conecta estreitamente com o dito são os vínculos indubitáveis que existiram entre o Templo e a seita islâmica dos Haschischin (mal traduzido por assassinos ou por “gente do Haschischin”). De fato Haschischin só pode se traduzir como “Guardiões da Terra Santa”, quer dizer a mesma designação que os Templários davam à sua própria Ordem. Isso foi assinalado por Guénon e por J.H. Pronst-Biraben “Os Mistérios dos Templários”. As semelhanças de ambas as Ordens iam muito mais longe pois suas estruturas hierárquicas, passando inclusive pela adoção das mesmas cores (branca e vermelha) de uma e outra. De fato é sabido que os Templários e os Haschischin tiveram contato na Síria antes de 1128, ano da redação da Regra do Templo.

Os fatos anteriores levam a suspeitar que nos achamos frente a uma corrente iniciática subterrânea com indubitável origem no Islam. Desta o que se fez público só o foi em forma velada através dos escritos dos Fedeli d’Amore. Na realidade existem outros fatos contundentes do mais alto interesse mas é suficiente o que aqui foi exposto. Concluamos pois essa exposição e justifiquemos esse noss silêncio com as palavras de outro membro da Fede Santa, Andreas Cappelanus, em sua obra “Liber de arte amandi”:

QUEM NÃO SABE CALAR
NÃO SABE AMAR.



A Sociedade Feudal e os Templários


Traduzido por Fr. +João Baptista Neto

Matéria extraída da www.revistahermetica.org nº28

Autor: Juan Antonio Cabezos Martinez

[O Autor é Professor de Geografia e História. Contou com a colaboração de Dª Maria Rosas Cabezos Martinez, Catedrática de Geografia e História, e de Dª Maria Teresa González Chacinero].

“Se Karl Marx definiu a sociedade do século XIX como 'classista' visto que o indivíduos se agrupavam por classes sociais cujas diferenças consistiam na propriedade dos meios de produção (e por isso para Marx só existiam proprietários ou não dos meios de produção, quer dizer, ricos e pobres, burgueses e proletários), a sociedade feudal foi definida pelo bispo Adalberto de Laón ao descrever, no século IX, que a sociedade se organizava em três categorias ou ordens: os que oravam para a salvação dos demais, os que lutavam para proteger os demais e os que trabalhavam para manter os demais.

A diferença social na sociedade feudal não residia no patrimônio ou dinheiro como no caso da sociedade classista, antes na função social. Para entender esse fato basta recordar a figura de Don Quixote, fidalgo, por pertencer à baixa nobreza, e Sancho Panza que é do povo, e portanto pertence à categoria de trabalhador; ambos passam fome, necessidades mas existe uma diferença social e é sua origem de nascimento, por isso Don Quixote monta um cavalo, sinal de nobreza, enquanto que Sancho Panza um burrico, sinal de que pertence à terceira categoria.

A definição de Adalberto de Laón é muito peculiar porque reflete uma estrutura social baseada na função social do indivíduo, ou seja, o indivíduo está dentro de um corpo social que cumpre uma função social; sendo essa função social em uns casos defender, em outros orar e em outros trabalhar.

Com o tempo esse esquema se complica ' ao distinguir entre clérigos seculares e regulares ou ao estabelecer diferenças entre simples clérigos, abades, bispos, papa....ao deixar de ser a terra a base única da riqueza e ao dividirem-se os trabalhadores em rurais e urbanos; e ao produzirem-se claras distinções entre os defensores cuja missão será cristianizada a partir do século XI, ao adquirir corpo a teoria da guerra e reduzir, teoricamente, a guerra à guerra justa'. (1) Martin, j.l. defensores e cavaleiros História 16 número 83 pags. 40 e seguintes.

Para não deixar de examinar as distintas organizações sociais a nível histórico, Aristóteles, outro intelectual, instrutor de Alexandre Magno, também definiu a sociedade em que vivia e a definiu como escravagista porque há seres que não sabem se governar a si mesmos e necessitam dos homens livres para serem governados.

Os tres intelectuais definiram sua sociedade como 'estática', onde não havia mais grupos ou categorias ou classes sociais que as que eles haviam conceituado e os três ... se equivocaram.

Aristóteles não levou em conta os bárbaros (estrangeiros segundo a língua latina) como elemento dinâmico de transformação, Adalberto não levou em conta a burguesia como elemento dinâmico de mudança e Karl Marx não levou em conta a classe média como elemento de mudança de sua época.

Os bárbaros mudaram a sociedade escravagista dando lugar à sociedade feudal, os burgueses transformaram a sociedade feudal em classista e as classes médias transformaram uma sociedade de pobres e ricos na atual sociedade na qual predominam os interesses das classes médias e, tal como se definiu, se trata de uma 'sociedade de amplas classes médias'.

Em última análise a destruição política do Império Romano do Ocidente foi a conseqüência direta da derrota militar e esta se produziu, não pela pressão dos bárbaros ou estrangeiros sobre as fronteiras do Império, senão pela mudança de estratégia realizada por Constantino quando abandonou o esquema defensivo da fronteira por uma reserva móvel que podia deslocar-se a qualquer parte do Império, e dita reserva móvel deu prioridade à cavalaria à frente da infantaria quando as vitórias romanas haviam sido obtidas por meio da infantaria. 'Constantino organizou um grande exército de campanha móvel, centralmente situado, formado por tropas retiradas das fronteiras deixando-as em situação debilitada...'(2) Ferrila. La caída del Romano, las causas militares, Edaf pag. 42 e seguintes.

A conseqüência direta da destruição política do Império Roman0 do Ocidente foi a criação de novas entidades políticas muito débeis frente ao poder dos grandes senhores e a partir desse momento a evolução histórica consistiu na nova criação de entidades políticas mais fortes e mais centralizadas.

Devido [ao fato de] que o Rei é um 'primus inter pares', o primeiro entre os iguais, não tem suficiente poder militar para impor a forma de estado aos demais nobres, ademais, como são tribos todo membro da tribo tem direito a ser chefe, a ser nomeado Rei e a primeira luta foi entre os Reis para tornar hereditário o trono e o povo bárbaro por ter acesso ao trono.

Os Reis debilitados dividem o poder com seus capitães, coronéis, por último, com a categoria militar.

A categoria militar forma os nobres que têm à sua disposição homens armados, pequenos exércitos; porque os Reis tinham pouco poder, se viram obrigados a confiar a seus oficiais militares a defesa de castelos, praças, cidades e territórios.

Os que estão à frente desses pequenos exércitos são os duques, ou os condes, ou os marqueses e constituem a hierarquia militar como hoje em dia temos nossa própria hierarquia militar formada por tenentes, capitães, coronéis ou generais.

O ponto crucial de transformação dos cargos militares na nobreza ocorreu quando os senhores da guerra tornaram hereditários ditos cargos militares e os vincularam a suas famílias: nesse momento nasce a nobreza.

A nobreza não é uniforme; por exemplo, existe uma alta nobreza na Espanha que ordenada hierarquicamente é composta por duques, marqueses, condes, viscondes e barões, e uma baixa nobreza, o suficientemente rica para manter um cavalo, formada por cavaleiros e por fidalgos (lembremos que Don Quixote era um pobre fidalgo da Mancha).

Ademais, no caso espanhol temos os 'Grandes da Espanha' que tem mais privilégios que os restantes nobres, tais como chamar o Rei de primo, não esperar para ser recebidos em audiência ou olhar diretamente nos olhos do rei.

Atualmente a nobreza espanhola é formada por 2500 títulos que separados são 143 duques, 1250 marqueses, 865 condados, 190 viscondes e 155 baronatos e ainda 385 que são os Grandes da Espanha; esses formam a alta nobreza aos que se tem que somar a baixa nobreza. Não se incluem os títulos nobiliárquicos concedidos pelos carlistas nem os títulos estrangeiros reconhecidos na Espanha.

Tanto a baixa como a alta nobreza vê na guerra o meio de aumentar seu patrimonio, ora lutando entre eles, ora lutando contra os muçulmanos na Espanha.

Em ambos os casos a vitória traz consigo a aquisição de novos territórios e, como a riqueza reside na terra, aumentam seu patrimônio, fortalezas, servos da gleba, possibilidades de arrecadação de impostos e, enfim, poder.

E nesse ambiente de guerra constante porque não existe poder político centralizado que imponha a paz, que somente foi possível com as monarquias autoritárias, somente a Igreja vai, pouco a pouco, impondo sua autoridade àqueles bandos de foragidos a mando de um conde ou de um duque. E a Igreja o fez mediante as Tréguas de Deus, períodos onde aqueles bandoleiros se comprometiam a se respeitar e a não lutar.

As Tréguas de Deus não resolveram o problema de ordem pública porque os nobres continuavam lutando entre si para obter riquezas e por isso os Reis apoiaram a idéia das Cruzadas porque era um mecanismo para reduzir os conflitos internos, sobretudo quando o poder político era muito débil para se impor à nobreza.

A energia da Europa, a energia dos duques e dos condes se dirigiu para a Terra Santa e a partir desse momento os Reis foram aumentando seu poder, seus exércitos, e sua capacidade financeira, o que lhes permitiu financiar exércitos permanentes, fato que explica a construção do estado moderno.

Os duqes, os condes viram na conquista da Terra Santa a possibilidade de aumentar suas riquezas, de fazer 'as Américas'.

A solução prática foi a fundação das ordens monásticas militares. O nobre se converte em monge, aceita a disciplina monacal e, ao mesmo tempo continua sendo militar. A 'cavalaria cristã se contrapõe à mundana de forma mais clara e na defesa apaixonada feita por São Bernardo da Milícia do Templo, cujos cavaleiros praticam todas as virtudes cristãs e dessas idéias se faz eco Gautier de Map, a quem se atribui a novela sobre a 'Busca do Graal'. (3) Martin J.Lu defensores e cavaleiros...página 40.

Para os Reis Europeus a Ordem do Templo representou a solução de seus problemas com a nobreza insurgente, por isso não se deve estranhar a proteção dos Reis porque a Ordem do Templo solucionou um problema político que estava sem solução desde a destruição do Império Romano do Ocidente, e problema reconhecido de ordem pública.

Ademais, a Ordem do Templo resolveu mais dois problemas.

Ao aceitar o nobre a disciplina monacal os cavaleiros templários se converteram em uma magnífica máquina militar, pelo que os Reis a utilizaram como a força principal suas batalhas; bom exemplo disso foi a batalha das Navas de Tolosa, sendo os cavaleiros do Templo a espinha dorsal do exército cristão espanhol.

Por fim os Reis se encontraram com um exército ou uma cavalaria bem preparada e obediente, os Reis já não dependiam exclusivamente de suas próprias tropas, que eram poucas, nem das dos grandes senhores que eram inseguras.

E restava um outro problema a ser resolvido: os pagamentos internacionais; o Império Romano possibilitou comerciar por todo o Mar Mediterrâneo, mare nostrum como o chamavam os romanos, com a moeda romana, porém destruído o Império destruiram-se os meios de pagamentos internacionais. Os Templários solucionaram este porque se converteram em banqueiros internacionais adicionando ao aspecto militar e monacal o financeiro e os fez mudar seus esquemas mentais para adaptá-los à nova realidade européia.

A necessidade, pois, os impulsionou a ter uma concepção transnacional de sua força. Basta um exemplo para entender o exposto: quando a multinacional de automóveis Ford implantou sua fábrica em Valencia o fez por várias razões técnicas, como a existência do porto de Valencia, a de estradas, e a siderúrgica de Sagunto.

A estas vantagens de caráter interno devemos acrescentar que a fábrica de automóveis que a marca Ford tem em Almusafes faz somente a montagem já que os motores se fabricam na Alemanha e as carrocerias na Inglaterra, no entanto na Espanha são montados e o produto vendido em todo o mundo. Isso significa uma concepção transnacional da fabricação do automóvel.

Pois bem, os Templários tinham essa concepção global do problema militar na Terra Santa pois manter o esforço militar na Terra Santa requeria ter uma mentalidade organizadora transnacional que superasse os limites da comarca, porque implicava enviar dinheiro (com o problema adicional da inexistência de uma moeda internacional de pagamento), enviar, também, alimentos e forragem; significava transportar os cavaleiros com seus cavalos e equipamento militar à Terra Santa e, por último, manter o esforço bélico.

O que surpreende é que foram capazes de fazê-lo durante quase duzentos anos e que de forma definitiva a Ordem do Templo resolvesse os problemas de pagamentos internacionais favorecendo o comércio e o ressurgimento econômico da Europa. Desse modo a Europa deixou de ser um continente com poucas cidades para converter as cidades em eixos de seu desenvolvimento econômico.

E não devemos esquecer outro aspecto importante do Templo: a criação de elites dirigentes que foram preparadas para que as sociedades pudessem evoluir. Enquanto houve Templários houve arte Gótica, houve elites dirigentes, houve pagamentos internacionais, nasceu um sentido Europeu que surgiu da mixagem dos povos bárbaros com os povos romanizados e governados por um grande Império Romano.

Com a destruição da Ordem Templária podemos afirmar que a Europa entrou na Baixa Idade Média, a Idade Média das cidades e da peste negra e da pré- renascença ".


São Bernardo de Claraval (Bernard de Clairvaux) - Padroeiro dos Templários

Palavras Iniciais: Em se tratando de um Site sobre Templarismo, não poderia deixar de estar presente o grande articulador e implementador da Ordem do Templo, São Bernardo de Claraval.
Sem querer influenciar, o Leitor verá através desta pequena biografia a importância de São Bernardo para a Igreja Católica na divulgação da fé através de suas obras, bem como na de um arauto contra os desvios da Igreja de sua época.

Matéria extraída do Site www.osmtj.org da Orden Soberana y Militar del Temple de Jerusalem – Espanha, traduzida por Fr. +João Baptista Neto mediante autorização para publicação neste Site.

imageImpulsionador e propagador da Ordem Cisterciense, valedor e protetor do Templo e o homem mais importante do século XII na Europa.

Bernard de Fontaine, abade de Clairvaux (1090, Castelo de Fontaine, Dijon – 20 de agosto de 1153, Abadia de Clairvaux) é um monge e um reformador francês. Foi canonizado pela Igreja Católica em 1174 passando a ser a partir desse momento São Bernardo.

O nome Bernardo deriva de “ber” (poço, fonte) e de nardo, nome de uma planta que segundo a explicação do Cantar dos Cantares é humilde, cálida por natureza e muito aromática. São Bernardo foi também cálido por sua fervorosa caridade, humilde em sua conduta, fonte de doutrina, poço de profunda ciência e aromático por sua excelente reputação espraiada qual suave perfume por todas as partes.

Guillermo, seu companheiro e abade de são Teodorico, e Hernaldo, abade de Valbuena, escreveram sua vida. Contam que era confessor e doutor da Igreja, nascido em 1090 no castelo de Fontaines, na Borgonha, e que morreu em Claraval em 21 de agosto de 1153.

Nascido em uma grande família nobre de Borgonha, Bernardo é o terceiro dos sete filhos de Tescelin le Roux e de Aleth de Montbard. Aos nove anos de idade, o mandam à escola canônica de Chatillon-sur-Seine, onde mostra um gosto particular pela literatura. Em 1112, entra na abadia de Citeaux, fundada em 1098 por Robert de Molesme, onde Etienne Harding acaba de ser eleito seu abade.

Os começos no Cister

Depois da morte de sua mãe, abandonou a casa paterna em 1113 para entrar na abadia do Cister (citeaux) junto com trinta jovens da nobreza de Borgonha.

Em 1115, Etienne Harding envia o jovem Bernardo à frente de um grupo de monges para fundar uma nova casa cisterciense no Vale de Langres. A nova congregação recebe o nome de Claire Vallé - “vale claro” -, que logo se converte em Clairvaux, e confirmado por Guillermo de Champeaux, bispo de Châions e célebre teólogo. Foi abade por quarenta anos até sua morte; cercou sua nova casa com o rigor de sua disciplina e atraiu um grande número de pessoas desejosas de santidade, entre elas seu próprio pai e a cinco de seus irmãos. Ocupando esse cargo se desdobrou em uma inaudita atividade sob múltiplos aspectos.

Os começos de Clairvaux são difíceis: a disciplina imposta por Bernardo é muito severa. Bernardo continua com seus estudos sobre as Santas Escrituras e sobre os Pais da Igreja. Tem uma predileção quase exclusiva por pelo Cântico de Salomão e por Santo Agostinho. Este autor e esse livro correspondem às tendências da época.

Pessoas afluem à nova abadia e Bernardo chega a converter toda sua família: seu pai Tescelin e seus cinco irmãos entram em Clairvaux como monges. Sua irmã, Ombeline, e também Jully assumem os hábitos. A partir de 1118 novas casas devem ser fundadas para evitar o estancamento de Claivaux (Abadia de Nossa Senhora de Fontenay). Em 1119, convocado por Etienne Harding, Bernardo toma parte do capítulo geral dos cistercienses, dando sua forma definitiva à ordem. A “Carta de Caridade” que é redigida alí pouco depois é confirmada pelo Papa Calixto II.

Com a chegada de São Bernardo em 1112 se inicia um processo de rápida expansão e influência do Cister, sendo, sem sombra de dúvidas, o Século XII a grande época dos monges brancos.

É nessa época que Bernardo escreve suas primeiras obras, tratados e homilias, e sobretudo uma Apologia, escrita a pedido de Guillermo de Saint-Thierry, que defende os beneditinos brancos (cistercienses) contra os beneditinos negros (cluniciences). Pierre o Venerável, abade de Cluny, o responde amistosamente e apesar de suas divergências ideológicas firmam amizade. Também envia numerosas cartas para incitar à reforma o resto do clero, em particular os bispos. Sua carta ao arcebispo de Sens, Henri de Bolsrogues, chamada mais tarde “De Officiis Episcoporum” (Sobre a conduta dos bispos) é reveladora do papel importante desempenhado pelos monges no século XII, e por tensões entre o clero regular e o secular.

Sua personalidade

Bernardo tinha um extraordinário carisma que atraía todos para Cristo.

Amável, simpático, inteligente, bondoso e alegre, inclusive muito atencioso, pois sabemos que sua irmã Humbelina carinhosamente o chamava pelo apelido de “olhos grandes”. Durante algum tempo o seu fervor esfriou e começou a se inclinar para o mundano. Porém, as amizades mundanas, por mais atrativas e brilhantes que fossem, o deixavam vazio e cheio de fastio. Depois de cada festa se sentia mais desiludido do mundo e de seus prazeres.

A visão que mudou sua trajetória

Numa noite de Natal, enquanto enquanto celebravam as cerimônias religiosas no templo, adormeceu e lhe pareceu ver o menino Jesus em Belém nos braços de Maria, e que a Santa Mãe lhe oferecia seu menino para que o amasse e o fizesse ser muito amado pelos demais. A partir desse dia já não pensou senão em se consagrar à religião e ao apostolado. Um homem que arrasta tudo o que encontra, Bernardo foi ao convento de monges beneditinos chamado Cister, e pediu para ser admitido. O superior, Santo Estevão Harding o aceitou com grande alegria.

Seu amor à Virgem Santíssima

Foi grande enamorado da Virgem Santíssima. Adiantou-se em seu tempo em considerá-la medianeira de todas as graças e poderosa intercessora nossa perante seu Filho Nosso Senhor. A São Bernardo são devidas as últimas palavras da Salve Rainha: “Oh clementíssima, oh piedosa, oh doce Virgem Maria”, assim como a belíssima oração do “Acordai-os”. Tal era seu Amor à Virgem que tendo o costume de saudá-la sempre que passava diante de uma imagem dela com as palavras “Deus te Salve Maria”, a imagem um dia lhe respondeu “Deus te salve, meu filho Bernardo”.

Chamavam-lhe “O Doutor boca de mel” (doutor melífluo). Seu imenso amor a Deus e à Virgem Santíssima e seu desejo de salvar almas o levavam a estudar por horas e horas cada sermão que ia pronunciar, e de imediato como suas palavras iam precedidas de muita oração e penitências, o efeito era fulminante nos ouvintes. Escutar São Bernardo já era um impulso fortíssimo a se tornar melhor.

A importância de São Bernardo em sua época

São Bernardo é a principal figura religiosa e eclesiástica do século XII, árbitro dos principais conflitos doutrinários e seculares de seu tempo, era um homem de ação, que viajava sem cessar pela Europa, combatendo desvios heréticos, não cessou de denunciar os abusos eclesiásticos e predicou a segunda cruzada. Também foi um reformador, crítico e fundador de ordens religiosas, defensor do papado, profundo pensador, teólogo, e escritor; deixou 350 sermões, mais de 500 cartas e uma série de opúsculos. Enquanto fazia tudo isso, governava ao mesmo tempo, sua abadia de 700 homens.

Em teologia, São Bernardo aponta três graus no caminho para Deus: a vida prática, a vida contemplativa e o extâse.

São Bernardo teve amizades reconhecidas como a do cisterciense inglês Santo Estevão Harding e a do cisterciense irlandês São Malaquias que morreu em seus braços em Claraval em 2 de novembro de 1149. “Duas coisas fazem de Malaquias um santo”, escreveu São Bernardo em sua “Malachie Vita”, uma perfeita doçura e uma fé viva”.

São Bernardo se converte numa personalidade importante e escutada na cristandade, intervém nos assuntos públicos, defende os direitos da Igreja contra os príncipes temporais e aconselha aos papas. Em 1130, depois da morte de Honório II no momento do cisma de Anaclet, é sua opinião que faz que Inocêncio II seja aceito. Em 1132 faz com que o papa aceite a independência de Clairvaux frente a Cluny.

Nesse período de desenvolvimento das escolas urbanas, onde os novos problemas teológicos são discutidos em forma de perguntas (quaestio), em forma de argumentação e em forma de busca de conclusão (disputatio), São Bernardo é partidário de uma linha tradicionalista. Combate as posições de Abelard, a partir do ponto de vista teológico , e faz que o condenem no Concílio de Sens em 1140.

Em 1145 Clairvaus dá um Papa à Igreja, Eugênio III, e à petição deste, Bernardo difunde a Segunda cruzada em Vézelay em 31 de março de 1146 e em Spyre. O faz com tal êxito que o jovem Rei Luis VII e o Imperador Conrado III adotam a cruz.

No concílio de Reims em 1148 emite uma acusação de heresia contra Gilbert de la Porré, bispo de Poitiers. Obtém uma pequena vitória, mas seu adversário conserva seu bispado e importância. Em sua defesa resoluta pela ortodoxia, combate também as teses de Pierre de Bruys, de Arnaud de Brescia, como também se opôs aos excessos do monge Raoul, que queria que se massacrasse todos os judeus.

Na história da Igreja é difícil encontrar outro homem que tenha sido dotado por Deus de um poder de atração tão grande para encaminhar pessoas para a vida religiosa, como o que recebeu Bernardo. As moças tinham pavor de que seus noivos falassem com o santo. Nas universidades, nos povoados, nos campos os jovens ao ouvir-lhe falar das excelências e das vantagens espirituais da vida num convento, iam em grupos numerosos para que ele os instruísse e os formasse como religiosos. Durante sua vida fundou mais de 300 conventos para homens, e fez chegar à santidade muitos de seus discípulos. O chamavam “o caçador de almas e vocações”. Com seu apostolado conseguiu que 900 monges fizessem profissão religiosa.

Viajante infatigável

O mais profundo desejo de São Bernardo era permanecer em seu convento dedicado à oração e à meditação. Mas o Sumo Pontífice, os bispos, os povoados e os governantes pediam-lhe continuamente que fosse ajudar-lhes, e ele estava sempre pronto a prestar sua ajuda onde quer que pudesse ser util. Com uma saúde sumamente débil (porque os primeiros anos de religioso se dedicou a fazer penitências em demasia, o que lhe prejudicou o sistema digestivo) percorreu toda a Europa impondo a paz onde havia guerras, contendo as heresias, corrigindo erros, animando desanimados e até reunindo exércitos para defender a santa religi]ao católica. Era o árbitro aceito por todos. Exclamava: “Às vezes não me deixam tempo durante o dia nem sequer para me dedicar à meditação. Mas essas pessoas estão tão necessitadas e sentem tanta paz quando se lhes fala, que é necessário atendê-las” (já à noite passaria imediatamente horas dedicado à oração e à meditação).

Suas obras

Deixou um gande numero de escritos: “de Gradibus Superbiae et Humilitatis”, “de Laudibus Mariae”, “Homillías sobre el evangelio Missus Est” (1120), “apologia a Guillermo de Saint Thierry”, sobre a conversão dos clérigos (1122), “de Laudibus Novae Militiae”, “Os Templários”, cuja regra compôs (1129), “de Amore Dei”, livro dos preceitos e dispensações (1131), “de Gratia et Libero Arbitrio” , livro das considerações (1143): este livro foi destinado pelo autor ao Papa Eugenio III, que foi cisterciense, e contém instruções para o governo, sobretudo espiritual, dos papas, os quais o tinham sempre em grande estima; “de Officis Episcoporum”. Além de muitos sermões, centenas de cartas e outros vários escritos.

Seus belíssimos sermões são lidos hoje, depois de vários séculos, com verdadeira satisfação e grande proveito.

Assim como também dentre seus numerosíssimos livros e textos se acha o de umas reflexões de grande importância chamado “A Consideração” lido por vários Papas, entre eles o Papa João XXIII.

À morte do grande reformador de Claraval, em 1153, sua ordem havia se expandido notavelmente. Ele fundou 163 monastérios na França, Alemanha, Suécia, Inglaterra, Irlanda, Espanha (em 1133, a pedido de Alfonso VII de Castilla, la abadia de Moruruela, e depois a de Oliva, Fitero, as Huelgas, Veruela, Santa Creus, Poblet), Portugal, Suíça e Itália.

Quando termina a idade média são 742 os cenóbios masculinos e passam de setecentos os correspondentes a monjas. As novas comunidades mantinham uma estreita relação de dependência com a casa matriz. Em todas elas as mesmas normas e a observância dos capítulos gerais para que, praticamente, não existissem exceções que rompessem a uniformidade da ordem.

São Bernardo representa uma figura de grande relêvo na história da idade média. Foi homem de estudo mas de enérgica ação, que contrastava com uma suavidade e doçura ilimitadas. Mostrou com seus feitos a quanto pode chegar a atividade humana impulsionada por um ideal. Sua abnegação, caridade e humildade, chegaram a um alto grau; foi um contemplativo e um místico, e ao mesmo tempo um apóstolo infatigável.

São Bernardo valedor e protetor da Ordem do Templo

Contribuiu em boa medida para difundir as façanhas dos cavaleiros templários profundamente preocupado com a situação do oriente, não se cansava de apostrofar aos cavaleiros que preferiam as branduras da corte na Europa aos atos heróicos na terra santa.

Apoiou energicamente Hugues de Payns, fundador da ordem do templo, que tinha vindo do oriente em busca de vocações, redigiu os estatutos da ordem, e conseguiu que o papa Honório II, no começo de 1128, convocasse o concílio de Troyes, que pesidiria seu legado, o cardeal Mateo Albano; assistiram ao concílio dois arcebispos, dez bispos, sete abades, dois escolásticos e uma infinidade de outros personagens eclesiásticos.

A voz que mais se escutou em tão importante assembléia de teólogos e grandes senhores da Igreja, foi a do abade Bernardo, secretário do concílio; expôs os princípios e primeiros serviços da Ordem e, a seguir, soube responder com presteza a todas as perguntas, mostrando a habilidade própria de um mestre de homens. Isso permitiu a criação e reconhecimento oficial da Ordem do Templo.

Em 1127, o Mestre Hugo de Payns, uma vez obtida a aprovação dos Templários pelo Patriarca de Jerusalem, preparou uma viagem a Roma com o fim de obter uma definitiva aprovação pontifícia, e que desse modo o Templo se convertesse em Ordem militar de pleno direito. Balduíno II, regente de Jerusalem, escreveu ao então abade de Claraval, Bernardo, para que apoiasse o primeiro Mestre da Ordem perante a Igreja.

São Bernardo de Claraval, um dos iniciadores da Ordem monacal do Cister na França era, aos seus vinte e cinco anos, uma personalidade espiritual arrebatadora, ativíssimo trabalhador, que funda numerosos monastérios e escreve a reis, papas, bispos e monjes, redige tratados de teologia, está sempre em oração combatendo os inimigos da fé romana. Tinha além disso, dois parentes próximos entre os nove fundadores do Templo (Hugo de Payns e Andrés de Montbard, que era seu tio), pelo que parece provável que tivesse já notícias da fundação do novo agrupamento de monjes-soldados. Assim pois, como esta nova Ordem satisfazia sua própria idéia de sacralização da milícia, recebeu com todo entusiasmo a carta do rei Balduíno e se converteu no principal valedor do Templo.

Naquela época, os Templários haviam recebido dos canonistas do Santo Sepulcro a mesma regra de Santo Agostinho que eles professavam, porém o abade de Claraval desejava algo mais próximo e original para seus novos protegidos. O primeiro que fez foi gestionar a favor de seu parente Hugo de Payns e os quatro Templários que o acompanhavam, uma acolhida positiva e cordial por parte do Papa Honório II, a quem os fundadores do Templo estavam a ponto de visitar em Roma. De acordo com a proposta de Bernardo, na primavera de 1128, celebrou-se o concílio extraordinário de Troyes, com abundante assistência de prelados franceses e de territórios próximos: dois arcebispos, dez bispos, sete abades, dois escolásticos e uma infinidade de outros personagens eclesiásticos, tudo isso sob a presidência de um representante papal, o cardeal Mateo de Albano.

O hábil abade Bernardo, que de uma maneira ou outra estava vinculado à maioria dos assistentes, expôs os princípios e primeiros serviços da Ordem, e a seguir soube responder prontamente a todas as perguntas que lhe foram formuladas. O Concílio de Troyes, após várias semanas de interrogatório e deliberações, aprovou a Ordem do Templo com entusiasmo, como uma espécie de institucionalização da Cruzada. Dessa maneira ficou estabelecida “oficialmente” a Ordem do Templo. O concío pediu aos nobres e aos príncipes que ajudassem a nova fundação e encarregou a Bernardo de Claraval que redigisse uma regra original para os Templários.

A decisão de São Bernardo foi a de adaptar ao Templo a dura Regra do Cister, com a qual a Ordem militar organizou sua vida monacal. Os Templários, enquanto monjes no sentido pleno, deviam pronunciar os votos de pobreza, castidade e obediência, mais um quarto voto de contribuir para a conquista e preservação da Terra Santa, para o qual, se fosse necessário, dariam com prazer a vida.

Elogio à Nova Milícia do Templo.

Bernardo de Claraval (1090-1153) passou à posteridade como reformador do monacato cristão e como homem de extrema piedade e assombrosa sabedoria. E também como hábil diplomata e, sobretudo, como organizador e propagandista máximo de uma das Ordens militares mais famosas do Ocidente, a Ordem do Templo, que teve prolongada sua existência como tal por dois séculos, desde 1118 até sua controvertida suspensão em 1312.

Na sua qualidade de secretário do Concílio de Troyes (1128), o abade de Claraval redigiu a regra da nova Ordem e a seguir, entre 1130 e 1136, compôs um sermão exortatório, “De laudae novae militiae ad Milites Templi” (titulado Elogio da nova milícia templária na presente edição), a pedido de Hugo de Payns, primeiro grão mestre da Ordem e seu bom amigo, a quem vai dedicado o opúsculo. O futuro São Bernardo dá a conhecer nesta obra suas impressões pessoais acerca da vida do Templo enaltecendo as chaves éticas dos cavaleiros templários que, à força de determinação e confiança em sua incumbência, haviam conseguido superar a velha antinomia monge/guerreiro e encarnar, como escreveu René Guénon, “o protótipo de Galahad, o paladino sem mácula, o herói vitorioso na busca do Graal”.

Respondendo à fascinação que a Ordem do Templo continua exercendo em nossas mentes, esse livro inclui o Elogio da nova milícia templária que traçara Bernardo de Claraval faz mais de oito séculos, com prólogo de Javier Martin Lalanda, e uma extensa introdução ao mundo templário redigida por Regine Pernoud, a célebre medievalista francesa.

São Bernardo funda até 72 monastérios, distribuidos por todas as partes da Europa: 35 na França, 14 na Espanha, 10 na Inglaterra e na Irlanda, 6 em Flandres, 4 na Itália, 4 na Dinamarca, 2 na Suécia, 1 na Hungria.

Em 1151, dois anos antes de sua morte, há 500 abadias cistercienses e Clairvaux conta com 700 monges.

Bernardo morre em 1153, aos 63 anos.

Canonização

Canonizado em 18 de junho de 1174 por Alexandre III, Bernard de Clairvaux foi nomeado doutor da Igreja por Pio VIII em 1830. São Bernardo de Claraval se comemora em 20 de agosto.

São Bernardo é, cronologicamente, o último dos Pais da Igreja, mas é um dos que mais impacto teve sobre ela.

Depois de haver chegado a ser o nomem mais famoso da Europa em seu tempo e de haver conseguido vários milagres (como por exemplo o de fazer falar um mudo, o qual confessou muitos pecados que tinha sem serem perdoados) e depois de haver repleto vários países de monastérios com religiosos fervorosos, ante o pedido de seus discípulos para que pedisse a Deus a graça de continuar vivendo, exclamava: “Meu grande desejo é ir ver a Deus e estar junto a Ele. Mas o amor a meus discípulos me move a querer continuar ajudando-os. Que o Senhor Deus faça o que a Ele melhor lhe pareça”. E a Deus lhe pareceu que já havia sofrido e trabalhado bastante, e que merecia o descanso eterno e o premio preparado para os discípulos fiéis, e o levou para sua eternidade feliz, em 20 de agosto do ano de 1153. Tinha 63 anos.




Livro da Ordem de Cavalaria (1279-1283)

Tradução: Prof. Ricardo da Costa (UFES)
Revisão: Dr. Rui Vieira da Cunha (
IHGB) e
Prof.
Esteve Jaulent (Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio)

 

 

Deus honrado, glorioso, que sois cumprimento de todos os bens, por vossa graça e vossa bênção começa este livro que é da Ordem de Cavalaria

 

 

INICIA O PRÓLOGO

1


Por significação dos VII planetas, que são corpos celestiais e governam e ordenam os corpos terrenais, dividimos este Livro de cavalaria em VII partes, para demonstrar que os cavaleiros tem honra e senhorio sobre o povo para o ordenar e defender. A primeira parte é do começo de cavalaria; a segunda, do ofício de cavalaria; a terceira, do exame que convém que seja feito ao escudeiro com vontade de entrar na ordem de cavalaria; a quarta, da maneira segundo a qual deve ser armado o cavaleiro; a quinta, do que significam as armas do cavaleiro; a sexta é dos costumes que pertencem ao cavaleiro; a sétima, da honra que se convém ser feita ao cavaleiro.

 

2


Em uma terra aconteceu que um sábio cavaleiro que longamente havia mantido a ordem de cavalaria na nobreza e força de sua alta coragem, e a quem a sabedoria e ventura o haviam mantido na honra da cavalaria em guerras e em torneios, em assaltos e em batalhas, elegeu a vida ermitã quando viu que seus dias eram breves e a natureza o impedia, pela velhice, de usar as armas. Então, desamparou suas herdades e herdou-as a seus infantes, e em um bosque grande, abundante de águas e árvores rutuosas, fez sua habitação e fugiu do mundo para que o enfraquecimento de seu corpo, no qual chegara pela velhice, não lhe desonrasse naquelas coisas que, com sabedoria e ventura ao longo do tempo o haviam honrado tanto. E, por isso, o cavaleiro cogitou na morte, relembrando a passagem deste século ao outro, e entendeu a sentença perdurável a qual havia de vir.

 

3


Em um belo prado havia uma árvore muito grande, toda carregada de frutos, onde o cavaleiro vivia naquela floresta. Debaixo daquela árvore havia uma fonte muito bela e clara, da qual eram abundantes
o prado e as árvores que ali eram ao redor. E o cavaleiro havia em seu costume, todos os dias, de vir àquele lugar adorar e contemplar e pregar a Deus, a qual fazia graças e mercês da grande honra que Lhe havia feito todos os tempos de sua vida neste mundo.

 

4


Em aquele tempo, na entrada do grande inverno, aconteceu que um grande rei muito nobre e de bons e bem abundantes costumes, mandou haver cortes. E pela grande fama que tinha nas terras de suas cortes, um escudeiro de assalto, só, cavalgando em seu palafrém, dirigia-se à corte para ser armado novo cavaleiro; e pelo esforço que havia suportado em sua cavalgada, enquanto ia em seu palafrém, adormeceu; e naquela hora, o cavaleiro que na floresta fazia sua penitência chegou à fonte para contemplar a Deus e menosprezar a vaidade daquele mundo, segundo que cada um dos dias havia se acostumado.

 

5


Enquanto o escudeiro cavalgava assim, seu palafrém saiu do caminho e meteu-se pelo bosque, e andou tão à vontade pelo bosque, até que chegou na fonte onde o cavaleiro estava em oração. O cavaleiro, que viu chegar o escudeiro, deixou sua oração e assentou-se no belo prado, à sombra da árvore, e começou a ler em um livro que tinha em sua falda . O palafrém, quando foi à fonte, bebeu da água; e o escudeiro, que sentiu em sua dormência que seu palafrém não se movia, despertou e viu diante de si o cavaleiro, que era muito velho e tinha grande barba e longos cabelos e rotas vestes por seu uso; e pela penitência que fazia, era magro e pálido, e pelas lágrimas que vertia, seus olhos eram humildes, tudo dando uma aparência de vida muito santa. Muito se maravilharam um do outro, pois o cavaleiro havia longamente estado em seu eremitério, no qual não havia visto nenhum homem depois de haver desamparado o mundo e deixado de portar armas; e o escudeiro se maravilhou fortemente como tinha
chegado naquele lugar.

 

6


O escudeiro desceu de seu palafrém saudando agradavelmente o cavaleiro, e o cavaleiro o acolheu o mais belamente que pôde, e sentaram-se na bela erva, um ao lado do outro. O cavaleiro, que percebeu que o escudeiro não queria primeiramente falar porque lhe queria dar honra, falou primeiramente e disse:

— Belo amigo, qual é a vossa coragem, onde ides e por que vieste aqui?

— Senhor — disse o escudeiro — é fama por longínquas terras que um rei muito sábio mandou haver cortes, e fará a si mesmo cavaleiro e logo armará cavaleiros outros barões estrangeiros e privados. E
por isso, eu vou àquela corte para ser novo cavaleiro; e meu palafrém, enquanto dormia pelo trabalho que tive nas grandes jornadas, conduziu-me neste lugar.

 

7


Quando o cavaleiro ouviu falar de cavalaria e relembrou a ordem de cavalaria e o que é pertencente ao cavaleiro, verteu um suspiro e entrou em considerações lembrando a honraria no qual a cavalaria o havia mantido tanto tempo. Enquanto o cavaleiro assim cogitava, o escudeiro perguntou ao cavaleiro quais eram suas considerações. O cavaleiro disse:

— Belo filho, meus pensamentos são sobre a ordem de cavalaria e do grande dever que é do cavaleiro manter a alta honra de cavalaria.

 

8


O escudeiro rogou ao cavaleiro que lhe dissesse o que era a ordem de cavalaria, e de que maneira o homem pode melhor honrá-la e conservar a honra que Deus lhe havia dado.
— Como, filho? — disse o cavaleiro — e tu não sabes qual é a regra e a ordem da cavalaria? E como tu podes aspirar à cavalaria se não tem sapiência da ordem de cavalaria? Pois nenhum cavaleiro pode
manter a ordem que não sabe, nem pode amar sua ordem, nem o que pertence à sua ordem, se não sabe a ordem de cavalaria, nem sabe conhecer as faltas que são contra sua ordem. Nem nenhum cavaleiro deve ser cavaleiro se não sabe a ordem de cavalaria, porque desonrado cavaleiro é que faz cavaleiro e não sabe lhe mostrar os costumes que pertencem ao cavaleiro.

 

9


Enquanto o cavaleiro dizia aquelas palavras e repreendia o escudeiro que desejava cavalaria, o escudeiro perguntou ao cavaleiro:
— Senhor, se a vós aprouver dizer-me em que consiste a ordem de cavalaria, assim sentirei coragem de aprender a ordem e seguir a regra e a ordem de cavalaria.

— Belo amigo — disse o cavaleiro — a regra e a ordem de cavalaria estão neste livro que leio algumas vezes para que me faça relembrar a graça e a mercê que Deus me fez neste mundo; porque eu honrei e mantive a ordem de cavalaria com todo meu poder; porque assim como a cavalaria dá tudo que pertence ao cavaleiro, assim o cavaleiro deve empenhar todas as suas forças para honrar a cavalaria.

 

10


O cavaleiro entregou o livro ao escudeiro; e quando o escudeiro acabou de o ler, entendeu que o cavaleiro é um eleito entre mil homens para haver o mais nobre ofício de todos, e tendo então entendido a regra e ordem de cavalaria, pensou consigo um pouco e disse:

— Ah, senhor Deus! Bendito sejais Vós, que me haveis conduzido em lugar e em tempo para que eu tenha conhecimento de cavalaria, a qual foi longo tempo desejada sem que soubesse a nobreza de sua ordem nem a honra em que Deus pôs todos aqueles que são da ordem da cavalaria.

 

11


— Amável filho — disse o cavaleiro — eu estou perto da morte e meus dias não são muitos, ora, como este livro foi feito para retornar a devoção e a lealdade e o ordenamento que o cavaleiro deve haver em ter sua ordem, por isso, belo filho, portai este livro à corte onde ides e mostrai-o a todos aqueles que desejam ser novos cavaleiros; guardai-o e apreciai-o se amais a ordem de cavalaria. E quando fores armado novo cavaleiro, retornai a este lugar e dizei-me quais são aqueles que foram feitos novos cavaleiros e não foram tão obedientes à doutrina da cavalaria.

 

12


O cavaleiro deu sua bênção ao escudeiro, e o escudeiro pegou o livro e muito devotadamente se despediu do cavaleiro, e subiu em seu palafrém e se foi para a corte muito alegremente. E
sábia e ordenadamente deu e apresentou aquele livro ao muito nobre rei e toda a grande corte, e permitiu que todo cavaleiro que quisesse entrar na ordem de cavalaria o pudesse trasladar, para que
de vez em quando o lesse e recordasse a ordem de cavalaria.

 

 

I. DO COMEÇO DE CAVALARIA

1


Faltou caridade, lealdade, justiça e verdade no mundo; começou inimizade, deslealdade, injúria, falsidade; e por isso surgiu erro e turvamento no povo de Deus, que foi criado para que Deus fosse amado, conhecido, honrado, servido e temido pelo homem

 

2


No começo, como veio ao mundo menosprezo de justiça devido à míngua de caridade, conveio que a justiça retornasse à sua honra pelo temor. E por isso, de todo o povo foram feitos milenaristas e de cada mil foi eleito e escolhido um homem, mais amável, mais sábio, mais leal e mais forte, e com mais nobre coragem, com mais ensinamentos e de bons modos que todos os outros.

 

3


Buscou-se em todas as bestas qual era a mais bela besta e a mais veloz, e a que pudesse sustentar maior trabalho, e qual era a mais conveniente para servir ao homem; e porque o cavalo é a mais nobre besta e a mais conveniente a servir ao homem, por isso, de todas as bestas, o homem elegeu o cavalo, que foi doado ao homem que foi dos mil homens eleito; e por isso aquele homem tem o nome de cavaleiro.

 

4


Ajustada a mais nobre besta ao mais nobre homem, seguidamente conveio que o homem elegesse e escolhesse de todas as armas, aquelas armas que são mais nobres e mais convenientes para o
combate e para defender o homem das feridas e da morte, e aquelas armas o homem doou e apropriou ao cavaleiro.

 

5


Quem quer entrar na ordem de cavalaria lhe convém meditar e pensar no nobre começo de cavalaria e convém que a nobreza de sua coragem e seus bons modos concordem e convenham ao começo da cavalaria, pois, se assim não o faz, contrário seria à ordem de cavalaria e a seus princípios. E por
isso, não se convém que a ordem de cavalaria receba seus inimigos em suas honras, nem aqueles que são contrários a seus princípios

 

6


Amor e temor são convenientes contra desamor e menosprezo; e por isso, convém que o cavaleiro, por nobreza de coragem e de bons costumes e pela honra tão alta e tão grande na qual lhe foi feita por eleição, e pelo cavalo e pelas armas, seja amado e temido pelas gentes, e que pelo amor retornassem a caridade e ensinamento, e pelo temor retornassem a verdade e a justiça.  

 

7


O homem, enquanto possui sensatez e entendimento e é de mais forte natureza que a fêmea, pode ser melhor que a mulher, porque se não fosse tão poderoso e bom como a fêmea, seguir-se-ia que
bondade e força de natureza fosse contrária à bondade de coração e boas obras. Logo, assim como o homem por sua natureza é mais aparelhado a haver nobre coragem e ser bom que a fêmea, assim o homem é mais aparelhado a ser vil que a mulher; pois, se assim não fosse, não seria digno que tivesse maior nobreza de coração e maior mérito de ser bom que a fêmea.

 

8


Guarda, escudeiro, que farás se abraçares a ordem de cavalaria; porque se és cavaleiro, tu recebes a honra e a servidão que se convém aos amigos de cavalaria. Porque quanto mais nobres princípios tens, mais obrigado a ser bom e agradar a Deus e às gentes; e se és vil, tu serás o maior inimigo de cavalaria, e mais contrário a seus princípios e sua honra.

 

9


Tão alta e nobre é a ordem do cavaleiro que não bastou à ordem que o homem a fizesse das mais nobres pessoas; nem que o homem lhe doasse as bestas mais nobres nem lhe desse as mais honradas armas, antes conveio ao homem que se fizessem senhores das gentes aqueles homens que são da ordem da cavalaria. E porque no senhorio há tanto de nobreza, e na servidão tanto de submissão, se tu, que abraças a ordem de cavalaria, fores vil e malvado, poderá pensar qual injúria fazes a todos seus submetidos e a todos companheiros que são bons, porque pela vileza em que estás, deverias ser súdito, e pela nobreza dos cavaleiros que são bons, és indigno de ser chamado cavaleiro.

 

10


Eleição, nem cavalo, nem armas, nem senhoria não bastam à alta honra que pertence ao cavaleiro; antes convém que o homem lhe dê escudeiro e palafreneiro que o sirvam e que cuidem das bestas. E convém que as gentes arem e cavem e traguem o mal para que a terra lhe dê os frutos de que viva o cavaleiro e suas bestas; e que o cavaleiro cavalgue e senhoreie e haja bem-aventurança daquelas coisas em que seus homens são maltratados e sofrem malefícios.

 

11

 

Ciência e doutrina têm os clérigos para poder a sapiência e querer amar, conhecer e honrar a Deus e suas obras, e para dar doutrina às suas gentes e bom exemplo em amar e honrar a Deus; e para que sejam ordenados nestas coisas, aprendem e estão em escolas. Logo, assim como os clérigos, por honesta vida e por bom exemplo e por ciência, têm ordem e ofício de inclinar as gentes à devoção e à boa vida, assim os cavaleiros, por nobreza de coragem e por força das armas mantêm a ordem de
cavalaria, têm a ordem em que estão para que inclinem as gentes ao temor, pelo qual temem fazer falta uns homens contra outros.

 

12


A ciência e a escola da ordem de cavalaria é que cavaleiro faça ensinar a seu filho cavalgar em sua juventude; pois, se o infante em sua juventude não aprender a cavalgar não poderá aprender em sua velhice. E ao filho do cavaleiro convém que enquanto é escudeiro, saiba cuidar do cavalo. E ao filho de cavaleiro convém que antes seja súdito que senhor, e que saiba servir ao senhor, pois de outra maneira não conheceria a nobreza de seu senhorio quando fosse cavaleiro. E por isso o cavaleiro deve submeter seu filho a outro cavaleiro para que aprenda a cortar e a se guarnecer e as outras coisas que pertencem à honra da cavalaria

 

13


Quem ama a ordem de cavalaria convém que, assim como aquele que deseja ser carpinteiro tem mestre que seja carpinteiro e aquele que deseja ser sapateiro convém que tenha mestre que seja sapateiro, assim quem deseja ser cavaleiro convém que tenha mestre que seja cavaleiro, porque é coisa inconveniente que escudeiro aprenda a ordem de cavalaria de outro homem, mas de homem que seja cavaleiro, como seria coisa inconveniente se o carpinteiro ensinasse ao homem que desejasse ser sapateiro.

 

14


Assim como os juristas e os médicos e os clérigos nas ciências e livros, ouvem a lição e aprendem seu ofício por doutrina de letras, é tão honrada e alta a ordem de cavalaria que não tão somente basta que ao escudeiro seja ensinada a ordem de cavalaria para cuidar do cavalo nem para servir senhor nem para ir com ele aos feitos de armas nem para outras coisas semelhantes a estas; como ainda seria coisa conveniente que o homem da ordem de cavalaria fizesse escola, e que fosse ciência escrita em livros e que fosse arte ensinada, assim como são ensinadas as altas ciências; e que os infantes filhos dos cavaleiros, em seus princípios, que aprendessem a ciência que pertence à cavalaria, e depois que fossem escudeiros e que andassem pelas terras com os cavaleiros.

 

15


Se faltas não houvesse em clérigos nem em cavaleiros, apenas faria faltas em outras gentes; porque, pelos clérigos todo homem teria amor e devoção a Deus, e pelos cavaleiros todos temeriam injuriar seu próximo. Ora, se os clérigos têm mestre e doutrina e estão em escolas para serem bons, e se há tantas ciências em doutrina e em letras, injúria muito grande é feita à ordem de cavalaria porque não é assim uma ciência ensinada pelas letras e que não seja feita escola como são nas outras ciências.
Logo, por isso, aquele que compõe este livro suplica ao nobre rei e à toda sua corte que está reunida para a honra de cavalaria, que seja satisfeita e restituída a honrada ordem de cavalaria, que é
agradável a Deus.

 


II. DO OFÍCIO QUE PERTENCE AO CAVALEIRO

1


Ofício de cavaleiro é o fim e a intenção pelos quais foi principiada a ordem de cavalaria. Logo, se o cavaleiro não cumpre com o ofício de cavalaria é contrário à sua ordem e aos princípios de
cavalaria acima ditos; pela qual contrariedade não é verdadeiro cavaleiro, mesmo sendo chamado cavaleiro, e esse tal cavaleiro é mais vil que o tecelão e o trompeteiro que seguem seu ofício.

 

2


Ofício de cavaleiro é manter e defender a santa fé católica pela qual Deus, o Pai, enviou seu Filho para encarnar na virgem gloriosa Nossa Senhora Santa Maria, e para a fé ser honrada e multiplicada sofreu neste mundo muitos trabalhos e muitas afrontas e grande morte. Daí que, assim como nosso senhor Deus elegeu clérigos para manter a Santa Fé com escrituras e com provações necessárias, pregando aquela aos infiéis com tão grande caridade que até a morte foi por eles desejada, assim o Deus da glória elegeu cavaleiros que por força das armas vençam e submetam os infiéis que cada dia pugnam em destruir a Santa Igreja. Onde, por isso, Deus honrou neste mundo e no outro tais cavaleiros que são mantenedores e defensores do ofício de Deus e da fé pela qual nos havemos de salvar.

 

3


Cavaleiro que tem fé e não usa da fé e é contrário àqueles que mantêm a fé, é assim como entendimento de homem a quem Deus tem dado a razão e usa de desrazão e de ignorância. Ocorre que, quem tem fé e é contrário à fé quer ser salvo justamente por isso ao qual é contra, e por isso sua vontade concorda com a descrença que é contrária à fé e à salvação, pela qual descrença o homem é condenado a trabalhos que não têm fim .

 

4


Muitos são os ofícios que Deus têm dado neste mundo para ser servido pelos homens; mas todos os mais nobres, os mais honrados, os mais próximos dos ofícios que existem neste mundo são ofício de clérigo e ofício de cavaleiro; e por isso, a maior amizade que deveria existir neste mundo deveria ser entre clérigo e cavaleiro. Onde, assim como o clérigo não segue a ordem de clerezia quando é contra a ordem de cavalaria, assim, cavaleiro não mantém ordem de cavalaria quando é contrário e desobediente aos clérigos, que são obrigados a amar e a manter a ordem de cavalaria.

 

5


Uma ordem não consiste tão somente nos homens que amam sua ordem, senão que consiste neles quando amam outras ordens. Por isso, amar uma ordem e desamar outra ordem não é manter a ordem, porque nenhuma ordem Deus fez contrária a outra ordem. Onde, assim como algum homem
religioso que amasse tanto sua ordem que fosse inimigo de outra, ordem não seguiria, assim cavaleiro não tem ofício de cavaleiro quando ama tanto sua ordem que menospreza e desama outra ordem. Porque, se cavaleiro tivesse a ordem de cavalaria desamando e destruindo outra ordem, seguir-se-ia que Deus e ordem fossem contrários, a qual contrariedade é impossível.

 

6


Tanto é nobre coisa o ofício de cavaleiro que cada cavaleiro deveria ser senhor e regedor de terra; mas, para os cavaleiros, que são muitos, não bastam as terras. E, para significar que um só Deus
é senhor de todas as coisas, o imperador deve ser cavaleiro e senhor de todos os cavaleiros; mas, porque o imperador não poderia por si manter e reger todos os cavaleiros, convém que tenha abaixo de si reis que sejam cavaleiros, para que o ajudem a manter a ordem de cavalaria. E os reis devem haver abaixo de si condes, condores , varvesores, e assim os outros graus de cavalaria; e debaixo destes graus devem estar os cavaleiros de um escudo, os quais sejam governados e possuídos pelos graus de cavalaria acima ditos.

 

7


Para demonstrar o excelente senhorio, sabedoria e poder de nosso senhor Deus, que é uno e pode e sabe reger e governar tudo o quanto é, incoveniente coisa seria que um cavaleiro pudesse por si
só manter e reger todas as gentes deste mundo; porque se o fizesse, não seriam tão bem significados o senhorio, o poder, a sabedoria de Nosso Senhor Deus. Onde, por isso, Deus quis que, para reger todas as gentes deste mundo, haja mister muitos oficiais que sejam cavaleiros; daí que o rei ou o príncipe que fizer procuradores, vegueres , bailios, de outros homens que não sejam cavaleiros o faz contra o ofício de cavalaria, dado que seja mais conveniente que o cavaleiro, segundo dignidade de seu ofício, senhoreie o povo do que outros homens. Pois, pela honra de seu ofício, lhe deve esse feito mais de honra que a outro homem que não seja tão honrado no ofício; e pela honra em que se encontra pela sua ordem, tem nobreza de coração, e pela nobreza de
coragem, se inclina mais tarde à maldade e ao engano e a feitos vis, que outro homem.

 

8


Ofício de cavaleiro é manter e defender o senhor terreno, pois o rei, nem o príncipe, nem nenhum outro barão sem ajuda poderia manter justiça em suas gentes; logo, se um povo ou algum homem é
contra o mandamento do rei ou do príncipe, convém que os cavaleiros ajudem a seu senhor, que é um homem sozinho, assim como qualquer outro homem. Logo, o cavaleiro malvado que antes ajuda o povo que a seu senhor, ou que quer ser senhor e quer despossuir seu senhor, não segue o ofício pelo qual é chamado cavaleiro.  

 

9


Pelos cavaleiros deve ser mantida justiça, porque, assim como os juízes têm ofício de julgar, assim os cavaleiros têm ofício de manter justiça. E se cavaleiro e letras pudessem convir tão fortemente que cavaleiro por ciência bastasse para ser juiz [...] como é de cavaleiro; porque aquele por quem justiça pode ser melhor mantida é mais conveniente para ser juiz que outro homem, com o que o cavaleiro é conveniente a ser juiz-cavaleiro.

 

10


Cavalgar, justar, lançar a távola, andar com armas, torneios, fazer távolas redondas, esgrimir, caçar cervos, ursos, javalis, leões, e as outras coisas semelhantes a estas que são ofício de cavaleiro; pois por todas essas coisas se acostumam os cavaleiros a feitos de armas e a manter a ordem de cavalaria. Ora, menosprezar o costume e a usança disso pelo qual o cavaleiro é mais preparado a usar de seu ofício é menosprezar a ordem de cavalaria.

 

11


De onde, assim com todos estes usos acima ditos pertencem ao cavaleiro quanto ao corpo, assim justiça, sabedoria, caridade, lealdade, verdade, humildade, fortaleza, esperança, esperteza e
as outras virtudes semelhantes a estas pertencem ao cavaleiro quanto à alma. E, por isso, o cavaleiro que usa destas coisas que pertencem à ordem de cavalaria quanto ao corpo , e não usa
quanto à alma daquelas virtudes que pertencem à cavalaria, não é amigo da ordem de cavalaria, porque se o fosse, seguir-se-ia que o corpo e a cavalaria juntos fossem contrários à alma e à suas
virtudes, e isso não é verdade.

 

12


Ofício de cavaleiro é manter terra; porque pelo pavor que as gentes têm dos cavaleiros, duvidam em destruir as terras, e por temor dos cavaleiros, duvidam os reis e os príncipes vir uns contra os outros. Mas o malvado cavaleiro que não ajuda a seu senhor terrenal, natural, contra outro príncipe é cavaleiro sem ofício, e é assim com fé sem obra, e é assim com descrença, que é contra a fé. Logo, se esse tal cavaleiro seguisse a ordem e seu ofício de cavalaria, cavalaria e sua ordem seriam injuriosas ao cavaleiro que combate até a morte por justiça e pelo seu senhor, para o manter e o defender.

 

13


Nenhum ofício há que seja feito que não possa ser desfeito, porque se o que é feito não pudesse ser desfeito nem destruído, só o que é feito seria semelhante a Deus, que não é feito nem pode ser destruído. Logo, como o ofício de cavalaria é feito e ordenado por Deus e se mantém por aqueles que amam a ordem de cavalaria e que estão na ordem de cavalaria, por isso, o malvado cavaleiro que se vai da ordem de cavalaria desama o ofício da cavalaria, desfaz em si mesmo a cavalaria.

 

14


Rei ou príncipe que desfaz em si mesmo ordem de cavaleiro não tão somente desfaz cavaleiro em si mesmo como também aos cavaleiros que lhe são submetidos; os quais, pelo mau exemplo de seu senhor e para que sejam amados por ele e seguirem seus malvados ensinamentos, fazem o que não pertence à cavalaria nem à sua ordem. E por isso, os malvados príncipes não tanto sómente são
contrários em si mesmo à ordem de cavalaria, que também o são em seus submetidos, nos quais se desfaz a ordem de cavalaria. Logo, se expulsar um cavaleiro da ordem de cavalaria é grande malvadez, muito e grande vileza de coração, quanto mais o é quem muitos cavaleiros expulsa da ordem de cavalaria!

 

15


Ah, como é grande a força de coragem no cavaleiro que vence e apodera muitos malvados cavaleiros! O qual cavaleiro é príncipe ou alto barão que ama tanto a ordem de cavalaria que, para muitos malvados homens que são chamados cavaleiros e que cada dia lhe aconselhem que faça maldades , faltas e enganos para destruir em si mesmo a cavalaria, e o bem-aventurado príncipe, só com a nobreza de seu coração e com a ajuda que lhe faz a cavalaria e sua ordem destrói e vence todos os inimigos da cavalaria.

 

16


Se cavalaria fosse em força corporal mais que em força de coragem, seguir-se-ia que a ordem de cavalaria concordaria mais fortemente com o corpo que com a alma, e se então fosse, o corpo teria
maior nobreza que a alma. Logo, como nobreza de coragem não pode ser vencida nem apoderada por um homem nem por todos os homens que são, e um corpo ser vencido por outro e preso, o malvado cavaleiro que tem mais fortemente a força do corpo quando foge da batalha e desampara seu senhor, que pela maldade e a fraqueza de sua coragem, não usa do ofício de cavaleiro nem é
servidor nem obediente à honrada ordem de cavalaria, que foi iniciada pela nobreza de coragem.

 

17


Se a menor nobreza de coragem fosse melhor conveniente com a ordem de cavalaria que a maior, concordar-se-iam fraqueza e covardia com cavalaria contra ardor e força de coragem; e se isto fosse assim, fraqueza e covardia seriam ofício de cavaleiro, e ardor e força desordenariam a ordem de cavalaria. Logo, como isto seja o contrário, por isto, se tu, cavaleiro, queres e amas muito a cavalaria, te convém esforçar para que, quanto mais fortemente tiver faltas de companheiros e de armas e de mantimentos, ajas ardorosamente e com coragem e esperança contra aqueles que são contrários à
cavalaria. E se tu morres para manter a cavalaria, então tu tens a cavalaria naquilo que mais pode amar e servir e ter, porque cavalaria em nenhum lugar está tão agradavelmente como em nobreza de coragem; e nenhum homem não pode mais amar nem honrar nem ter cavalaria que aquele que morre pela honra e a ordem de cavalaria.

 

18


Cavalaria e ardor não se convêm sem sabedoria e sentido, porque se o fizessem, loucura e ignorância seriam convenientes à ordem de cavalaria; e se isto fosse assim, sabedoria e sentido, que são contrários a loucura e ignorância, seriam contrários à ordem, e isso é impossível, pela qual impossibilidade é significado a ti, cavaleiro que tens grande amor à ordem de cavalaria, que assim como cavaleiro, por nobreza de coragem, te faz haver ardor e te faz menosprezar os perigos, para que a cavalaria possas honrar; assim à ordem de cavalaria convém que se faça amar sabedoria e sentido, e que busquem honrar a ordem de cavalaria contra o desordenamento e o falecimento que existem naqueles que cuidam seguir a honra da cavalaria pela loucura e pela míngua de entendimento.

 

19


Ofício de cavaleiro é manter viúvas, órfãos, homens despossuídos; porque assim como é costume e razão que os maiores ajudem a defender os menores, e os menores achem refúgio nos maiores, assim, é costume da ordem de cavalaria que, por isso porque é grande e honrada e poderosa, vá em socorro e ajuda a aqueles que lhe são debaixo em honra e em força. Logo, se isto é assim, se forçar viúvas que tem mister de ajuda, e deserdar órfãos, que tem mister de protetor, e roubar e destruir os homens mesquinhos e despossuídos, a quem o homem deve empenhar, se concorda com a ordem de cavalaria, maldade e engano e crueldade e falta se convém à ordem e à nobreza e à honra; e se isto é assim, então cavaleiro e sua ordem são contrários aos princípios da ordem de cavalaria.

 

20


Se Deus deu olhos ao mesteiral para que veja obrar, ao homem pecador deu olhos para que possa
chorar seus pecados, e se ao cavaleiro deu o coração para que seja câmara onde esteja a nobreza de sua coragem, ao cavaleiro que tem na força e em sua honra deu coração para que nele tenha
piedade de mercê para ajudar e salvar e guardar aqueles que levam os olhos a chorar e os corações com esperança aos cavaleiros, que os ajudem e os defendam e os protejam de suas necessidades. Logo, cavaleiro que não tenha olhos para que veja os despossuídos, nem coração para pensar suas necessidades, não é verdadeiro cavaleiro nem está na ordem de cavalaria, porque é tão alta coisa e nobre a cavalaria, que todos aqueles que são obcecados e tem vil coragem expulsa de sua ordem e
de seu benefício.

 

21


Se cavalaria, que é tão honrado ofício, fosse ofício de roubar e de destruir os pobres e os despossuídos, e de enganar e de forçar as viúvas e as outras fêmeas, bem grande e bem nobre
ofício seria ajudar e manter órfãos e viúvas e pobres. Logo, se o que é maldade e engano fosse na ordem de cavalaria que é tão honrada, e por maldade e por falsidade e traição e crueldade cavalaria se mantém em sua honra, muito mais fortemente sobre cavalaria seria honrada ordem que fizesse honra pela lealdade e cortesia e liberalidade e piedade!

 

22


Ofício de cavaleiro é haver castelo e cavalo para guardar os caminhos e para defender os lavradores. Ofício de cavaleiro é ter vilas, cidades, para manter em justa harmonia as suas gentes e para congregar e ajustar carpinteiros em um lugar, ferreiros, sapateiros, drapeiros , mercadores,
e outros ofícios que pertencem ao ordenamento deste mundo, e que são necessários a conservar o corpo a suas necessidades. Logo, se os cavaleiros para manter seu ofício são tão bem alojados que
são senhores de castelos e vilas e cidades, se destruir vilas, castelos, cremar cidades, cortar as árvores, as plantas, e matar o bestiário e roubar os caminhos fosse ofício e ordem de cavaleiro, obrar
e edificar castelos, fortes, vilas, cidades, defender lavradores ter atalaias para manter os caminhos seguros, e as outras coisas semelhantes a estas seria desordenamento da cavalaria; e se isto fosse assim, a razão pela qual a cavalaria é constituída seria uma única mesma coisa com o seu desordenamento e seu contrário.

 

23


Traidores, ladrões, salteadores devem estar sob o encalço dos cavaleiros, porque assim como o machado é feito para destruir as árvores, assim cavaleiro tem seu ofício para destruir os maus ho-
mens. Logo, se cavaleiro é salteador, ladrão, traidor, e os salteadores, traidores e ladrões devem ser mortos pelos cavaleiros, e presos, se o cavaleiro que é ladrão ou traidor ou salteador quer usar
de seu ofício e usa em outro de seu ofício, mate e prenda a si mesmo; e se em si mesmo não for usar de seu ofício, e usa em outro de seu ofício, com ordem de cavalaria se convém melhor em outro que em si mesmo. Não é coisa lícita que nenhum homem mate a si mesmo, e por isso cavaleiro que seja ladrão, traidor e salteador deve ser destruído e morto por outro cavaleiro. E cavaleiro que sofre e
mantenha cavaleiro traidor, salteador, ladrão, não usa de seu ofício; porque se usasse de seu ofício, contra seu ofício faria se os homens ladrões, traidores que não são cavaleiros matasse e destruísse .  

 

24


Se tu, cavaleiro, tem dor ou algum mal em uma mão, aquele mal mais próximo está da outra mão que de mim ou outro homem; logo, cavaleiro que seja traidor e ladrão e salteador mais próximo está seu vício e sua falta a ti, que és cavaleiro, que a mim, que não sou cavaleiro. Logo, se o teu mal te dá mais trabalho que o meu, porque escusas e manténs cavaleiro um inimigo da honra de cavalaria? E porque blasfemas os homens que não são cavaleiros pelas faltas que fazem?

 

25


Cavaleiro ladrão maior latrocínio faz à alta honra de cavalaria quando se retira dela ou quando ela retira o seu nome, que quando rouba dinheiro ou outras coisas; porque roubar honra é dar vileza e má fama àquela coisa que é digna de ser louvada e honrada; e como honra e honradez valem mais que dinheiro, que ouro e prata, por isso é maior falta envilecer a cavalaria que roubar dinheiro e outras coisas que não são a cavalaria. E se isto não fosse assim, seguir-se-ia que dinheiro e as coisas que o homem rouba seriam melhores que o homem, ou que era maior latrocínio roubar um
dinheiro do que roubar muitos dinheiros.

 

26


Se homem traidor que mata seu senhor ou dorme com sua mulher ou se entrega seu castelo é cavaleiro, que coisa é o homem que morre para honrar e defender seu senhor? E se o cavaleiro
traidor é objeto da blandícia de seu senhor, qual falta poderá fazer para que seja punido ou repreendido? E se o senhor não mantém a honra de cavalaria contra seu cavaleiro traidor, quem a manterá? E o senhor que não destrói seu traidor, qual coisa destruiria, e por que é senhor e homem e coisa nula?

 

27


Se ofício de cavaleiro é reptar ou combater o traidor, e se ofício de cavaleiro traidor é esconder-se e combater o leal cavaleiro, que coisa é ofício de cavaleiro? E se coragem tão malvada como é a coragem do cavaleiro traidor cuida vencer coragem do cavaleiro leal, a alta coragem do cavaleiro que combate pela lealdade, que coisa cuida vencer e sobrar? E se o cavaleiro amigo de cavalaria e de lealdade é vencido, qual é o pecado feito e onde foi parar a honra de cavalaria?

 

28


Se roubar fosse ofício de cavaleiro, dar seria contrário à ordem de cavalaria; e se dar fosse conveniente a algum ofício, quanto de valor seria aquele homem que tivesse o ofício de dar!
E se dar as coisas roubadas conviesse com a honra de cavalaria, restituir, com quem conviriam? E se tirar o que Deus dá deve possuir o cavaleiro, que coisa é que o cavaleiro não deve possuir?

 

29


Pouco sabe de encomendar quem ao lobo faminto encomenda suas ovelhas, e quem sua mulher bela encomenda ao cavaleiro jovem traidor, e quem seu forte castelo encomenda ao cavaleiro avaro e salteador. E se um tal homem sabia pouco de encomendar suas coisas, quem é aquele que seus bens sabe encomendar, e qual é aquele que suas encomendas sabe reter e guardar?

 

30


Tem visto algum cavaleiro que seu castelo não queira recuperar? E visto um cavaleiro que não queira sua mulher guardar de cavaleiro traidor? E visto algum cavaleiro salteador que não roube
escondido? E se nenhum destes cavaleiros tem visto, regra nem ordem os poderá retornar à ordem de cavalaria.

 

31


Ter reluzente seu arnês e bem cuidado seu cavalo é ofício de cavaleiro. E se jogar suas armas e seu cavalo é ofício de cavaleiro, donde, é ofício de cavaleiro o que é e o que não é; logo, se isto é assim, donde ofício de cavaleiro é e não é; logo, como ser e não ser são contrários, e destruir seu arnês não é cavalaria, e donde, cavalaria sem armas qual coisa é? E por qual razão és nominado cavaleiro?

 

32


É mandamento de lei que o homem não seja perjuro. Logo, se fazer falsamente uma sagração não é contra a ordem de cavalaria, Deus, que fez o mandamento, e cavalaria, são contrários; e se o são, onde está a honra de cavalaria, e qual coisa é seu ofício? E se Deus e cavalaria são convenientes, convém que jurar falsamente não se dê naqueles que mantêm a cavalaria. E se fazer voto e prometer a Deus e jurar em vão não se dá no cavaleiro, o que é seu e em que está a cavalaria?

 

33


Se justiça e luxúria se convêm, cavalaria, que se convêm com justiça, se convêm com luxúria. E se cavalaria e luxúria se convêm, castidade, que é o contrário da luxúria, é contra a honra de cavalaria; e se isto é assim, seria verdade que cavaleiros quisessem honrar a cavalaria para manter a luxúria.
E se justiça e luxúria são contrários, e cavalaria é para manter justiça, então cavaleiro luxurioso e cavalaria são contrários, e se o são, na cavalaria deveria ser esquivado mais fortemente o vício da lúxúria, o que não é; e se fosse punido o vício da luxúria segundo deveria, de nenhuma ordem não seriam expulsos tantos homens como da ordem de cavalaria.

 

34


Se justiça e humildade fossem contrárias, cavalaria, que concorda com justiça, seria contra a humildade e concordar-se-ia com orgulho. E se cavaleiro orgulhoso mantém ofício de cavalaria, outra
cavalaria foi aquela que começou pela justiça e para manter os homens humildes contra os orgulhosos injustos. E se isto é assim, os cavaleiros que são destes tempos não estão na ordem na
qual eram os outros cavaleiros que foram primeiros; e se estes cavaleiros que agora estão têm a regra e usam o ofício do qual usavam os primeiros, orgulho nem maldade existem nestes cava-
leiros que vemos orgulhosos e injuriosos; e se o que parece que seja orgulho e injúria nada é, então, humildade e justiça em que estão e onde estão e o que são?

 

35


Se justiça e paz fossem contrárias, cavalaria, que concorda com justiça, seria contrária à paz; e se o é, então estes cavaleiros que são inimigos da paz e amam guerras e trabalhos são cavaleiros, e aqueles que pacificam as gentes e fogem de trabalhos são injuriosos e são contra cavalaria. Logo, se isto é assim, e os cavaleiros que agora estão usam do ofício de cavalaria se são injuriosos e guerreiros e amadores do mal e de trabalhos, pergunto qual coisa eram os primeiros cavaleiros, que se concordavam com justiça e com paz, pacificando os homens pela justiça e pela força das armas? Pois assim como nos tempos primeiros era ofício de cavaleiro pacificar os homens pela força das armas, e se os cavaleiros guerreiros injuriosos, que estão nestes tempos em que estamos,
não estão na ordem de cavalaria nem possuem ofício de cavaleiro, onde está cavalaria, e quais e quantos são aqueles que estão em sua ordem?

 

36


Muitas maneiras são porque cavaleiro pode e deve usar do ofício da cavalaria, e como nós temos de tratar de outras coisas, por isso nós passamos o mais abreviadamente possível, e mormente como o fizemos a pedido de um cortês escudeiro, leal, verdadeiro, que por longo tempo têm seguido a regra de cavaleiro, temos feito este livro abreviadamente, porque em breve tempo deve ser armado novo cavaleiro.

 

III. DO EXAME DO ESCUDEIRO QUE DESEJA ENTRAR NA ORDEM DE CAVALARIA

1.


Ao examinar o escudeiro convém que o examinador seja cavaleiro amante da ordem de cavalaria, porque alguns cavaleiros são que amam maior número de cavaleiros que sejam bons; e porque cavalaria não observa multidão de número e ama nobreza de coragem e de bons modos, por isso, se o examinador ama mais multidão de cavaleiros que nobreza de cavalaria, é incoveniente que seja
examinador, e seria mister que fosse examinado e repreendido da injúria que faz à alta honra de cavalaria

 

2.


No princípio, convém perguntar ao escudeiro que deseja ser cavaleiro se ama e teme a Deus, porque sem amar e temer a Deus nenhum homem é digno de entrar na ordem de cavalaria, e o temor faz vacilar ante as faltas pelas quais cavalaria adquire desonra. Logo, quando sucede que o escudeiro que não ama nem tem Deus é feito cavaleiro, se o escudeiro adquire honra por receber cavala-
ria, cavalaria recebe desonra no escudeiro que não a recebe honrando Deus, que tem honrado a cavalaria. E como receber honra e dar desonra não se convêm, por isso escudeiro sem amor e temor
não é digno de ser cavaleiro.

 

3.


Assim como cavaleiro sem cavalo não se convém com o ofício de cavalaria, assim escudeiro sem nobreza de coragem não se convém com ordem de cavalaria; porque nobreza de coragem foi o começo da cavalaria e vileza de coragem é a destruição da ordem de cavaleiro. Logo, se escudeiro com vileza de coragem deseja ser cavaleiro, então deseja destruir a ordem que demanda; e se é contra a ordem, porque demanda a ordem? E o cavaleiro que faz escudeiro com vileza de coragem, porque desfaz sua ordem?

 

4.


Não demandes à boca nobreza de coragem, porque toda hora não diz verdade. Nem a demandes a honradas vestimentas, porque sob um honrado manto está um vil coração e fraco, onde está maldade e engano; nem nobreza de coragem demandes ao cavalo, porque não te poderá responder; nem demandes nobreza de coração às guarnições nem ao arnês, porque dentro das grandes guarnições pode estar traidor coração e malvado. Logo, se desejas encontrar nobreza de coragem demanda à fé, esperança caridade, justiça, fortaleza, lealdade, e às outras virtudes, porque naquelas
está nobreza de coragem, e por aquelas o nobre coração do cavaleiro se defende da maldade e do engano e dos inimigos da cavalaria.

 

5


Idade conveniente se convém ao novo cavaleiro. E se é muito jovem o escudeiro que deseja ser cavaleiro, não pode haver aprendido os ensinamentos que pertencem ao escudeiro antes que seja cavaleiro; e não poderá também relembrar o que prometeu à honra de cavalaria, se é na infância feito novo cavaleiro. E se o escudeiro é velho e tem debilidade de corpo e deseja ser cavaleiro, antes que fosse velho fez injúria à cavalaria, que é mantida pelos fortes combatentes e é aviltada pelos fracos, despossuídos, vencidos, fugitivos.

 

6


Assim como no meio está a medida da virtude e seu contrário está nos dois extremos, que são vício, assim cavalaria está na idade que convém ao cavaleiro, porque se não o fosse, seguir-se-ia que
contrariedade haveria entre meio e cavalaria, e se houvesse, virtude e cavalaria seriam contrárias. E se o são, tu escudeiro, que demasiadamente demoras e tardas a ser cavaleiro, porque desejas entrar na ordem de cavalaria?  

 

7


Se por beleza de feições e pelo grande corpo acorde com ruivos cabelos e pelo espelho na bolsa, escudeiro deve ser armado cavaleiro o belo filho de camponês ou da bela fêmea poderá ser
cavaleiro, e se o fazes, desonras a antigüidade da honrada linhagem e a menosprezas, e a nobreza que Deus deu mais ao homem que à mulher rebaixas em vileza. E por tal menosprezo e desonra aviltas e rebaixas a ordem de cavalaria.

 

8


Linhagem e cavalaria se convêm e se concordam, porque linhagem não é mais que continuada honra anciã, e cavalaria é ordem e regra que se mantém desde o começo dos tempos em que foi iniciada, que adentrou até os tempos em que estamos. Logo, porque linhagem e cavalaria se convêm, se fazes cavaleiro homem que não seja de linhagem, tu fazes ser contrário linhagem e cavalaria naquilo que fazes; e por isso, aquele que faz cavaleiro é contra linhagem e cavalaria, e se o é cavaleiro, que é isso em que está a cavalaria?

 

9


Se tu tens tanto poder na ordem de cavalaria que aí podes meter quem não lhe convém, necessariamente convém que tu ajas de tanto poder que busques tirar da ordem de cavalaria
aquele que por linhagem é conveniente para ser cavaleiro. E se cavalaria tem tanta virtude que tu não lhe possa tirar sua honra nem aqueles que por linhagem lhe convêm, então tu não podes haver poder para fazer cavaleiro homem vil de linhagem.

 

10


A respeito da natureza corporal, tão honrada é a natureza nas árvores e nas bestas quanto nos homens; mas, pela nobreza da alma racional, que participa tão somente do corpo do homem, por isso, a natureza tem maior virtude no corpo humano do que no corpo das bestas. Por isso, a ordem de cavalaria consente que, pelos muitos nobres costumes e pelos muitos nobres feitos e pela
nobreza do príncipe possa ter a cavalaria algum homem de nova honrada linhagem. E se isso não fosse assim, seguir-se-ia que, cavalaria fosse mais conveniente à natureza do corpo do que à virtude
da alma, e isso não é verdade, uma vez que a nobreza de coragem que convém à cavalaria, convém melhor com a alma do que com o corpo.

 

11


Segundo o exame do escudeiro que deverá ser cavaleiro, convém que se pergunte sobre seus ensinamentos e seus costumes, porque se malvados ensinamentos e malvados costumes expulsam da ordem de cavalaria os malvados cavaleiros, quanto menos é coisa conveniente que malvado escudeiro seja cavaleiro, e que entre na ordem de onde deveria sair por feitos vis e por desagradáveis costumes!

 

12


Se cavalaria se convém tão fortemente com valor que todos os amigos de desonra são expulsos de sua ordem, se a cavalaria não recebesse aqueles que têm valor e a amam e a mantêm, seguir-se-ia que a cavalaria poderia ser destruída por vileza, e não poderia refazer-se em nobreza. E como isso não é verdade, por isso tu, cavaleiro que examinas o escudeiro, és mais fortemente obrigado a enxergar valor e nobreza no escudeiro que em nenhuma outra coisa.

 

13


Deveis saber por qual intenção o escudeiro tem vontade de ser cavaleiro; porque se quer cavalaria para ser rico ou para senhorear ou para ser honrado, sem fazer honra à cavalaria nem honra aos honrados que a cavalaria dá honorificência e honra, amando a cavalaria ama sua desonra, pela qual desonra és indigno que pela cavalaria haja riqueza, nem bem-estar nem honorificência. Assim como intenção se desmente nos clérigos que são eleitos prelados por simonia, assim malvado escudeiro desmente sua vontade e sua intenção quando deseja ser cavaleiro contra a ordem de cavalaria; e se clérigo em tudo quanto faz é contra a prelazia, se há em si simonia, escudeiro em tudo quanto faz é contra a ordem de cavalaria, se com falsa intenção possui o ofício de cavalaria.

 

14


Ao escudeiro que deseja cavalaria convém saber a grande carga de cavalaria e os grandes perigos que são destinados a aqueles que desejam manter a cavalaria; porque o cavaleiro deve mais hesitar a censura das gentes do que a morte, e vergonha deve dar maior paixão a sua coragem do que a fome, sede, calor, frio ou outra paixão e trabalho a seu corpo. E por isso todos estes perigos devem ser mostrados e denunciados ao escudeiro antes que seja armado cavaleiro.

 

15


Cavalaria não pode ser mantida sem o arnês que pertence ao cavaleiro, nem sem os honrados feitos e as grandes despesas que convêm ao ofício de cavalaria. E por isso, escudeiro sem armas e que não possua tanta riqueza que possa manter cavalaria não deve ser cavaleiro, porque por falta de riqueza falha o arnês , e por enfraquecimento do arnês e despesas, malvado cavaleiro torna-se roubador, traidor, ladrão, mentiroso, falso, e de outros vícios que são contrários à ordem de cavalaria.

 

16


Homem aleijado ou gordo e grande, ou que possua outro vício em seu corpo pelo qual não possa fazer uso do ofício de cavaleiro não deve estar na ordem de cavalaria; porque vileza é da ordem de cavalaria se recebe homem que seja debilitado, corrompido e incapaz de portar arnês. E é tão nobre e alta a cavalaria em sua honorificência que nem riqueza, nem nobreza de coração, nem de linhagem não bastam ao escudeiro que seja mutilado em algum membro.

 

17


Interrogado e investigado deve ser o escudeiro que demanda cavalaria se fez maldade ou engano que seja contra a ordem de cavalaria; porque tal falta poderá haver feito, e tanto pode crescer à
falta que fez, que não é digno que a cavalaria o receba em sua ordem, nem que lhe faça companheiro daqueles que mantêm a honra de cavalaria.

 

18


Se o escudeiro tem vanglória do que faz, não parece que seja bom para cavaleiro, porque vanglória é vício que destrói os méritos e as recompensas dos bons feitos que são dados pela cavalaria. Nem o escudeiro adulador não se convém com o ofício de cavaleiro, porque adulador tem intenção corrompida, pela qual corrupção destrói e mutila a vontade e a lealdade que convém à coragem do
cavaleiro.

 

19


Orgulhoso escudeiro, mal ensinado, sujo em suas palavras e em suas vestimentas, com cruel coração, avaro, mentiroso, desleal, preguiçoso, irascícel e luxurioso, embriagado, glutão, perjuro, ou que possua outros vícios semelhantes a estes não é conveniente à ordem de cavalaria. Logo,
se cavalaria pudesse receber aqueles que são contra sua ordem, seguir-se-ia que ordem e desordenação seriam uma mesma coisa; logo, como cavalaria seja pura ordenação de valor, por isso deve ser examinado todo escudeiro antes que seja cavaleiro.

 

IV. DA MANEIRA SEGUNDO A QUAL O ESCUDEIRO DEVE RECEBER A CAVALARIA

1


No princípio, quando o escudeiro deve entrar na ordem de cavalaria, convém que se confesse das faltas que fez contra Deus, o qual vai servir na ordem de cavalaria; e se é sem pecado, deve receber o corpo de Jesus Cristo segundo o que se convém.

 

2


Para fazer cavaleiro, convém uma festa das honradas do ano, para que pela honra da festa se ajustem muitos homens naquele dia e naquele lugar onde o escudeiro deve ser feito cavaleiro: e que todos orem a Deus pelo escudeiro, que Deus lhe dê graça e bênção pela qual seja leal à ordem de cavalaria.

 

3


O escudeiro deve jejuar na vigília da festa, por honra do santo da festa. E deve vir a Igreja orar a Deus na noite antes do dia que deve ser feito cavaleiro; deve velar e estar em preces e em contemplação e ouvir palavras de Deus e da ordem de cavalaria; e se escuta jograis que cantam e falam de putarias e pecados, no começo que entra na ordem de cavalaria começa a desonrar e a menosprezar a ordem de cavalaria.

 

4


No dia seguinte, convém que a missa seja cantada solenemente. E o escudeiro deve vir diante do altar e deve se oferecer ao presbítero, que está no lugar de Deus, e à ordem de cavalaria, para tal que seja servidor de Deus. E convém que se obrigue e se submeta a honrar e a manter a ordem de cavalaria em todo seu poder. Naquele dia convém ser feito sermão, no qual sejam recontados os catorze artigos nos quais é fundada a fé, os dez mandamentos e os sete sacramentos da santa Igreja, e as outras coisas que pertencem à fé. E o escudeiro deve relembrar fortemente todas estas
coisas para que saiba harmonizar o ofício de cavalaria com as coisas que pertencem à santa fé católica.

 

5


Os catorze artigos são estes: crer num Deus é o primeiro artigo. Crer no Pai e no Filho e no Espírito Santo são três artigos. E convém que o homem creia que o Pai e o Filho e o Espírito Santo sejam um Deus eternamente, sem fim nem começo. Crer que Deus seja criador de tudo quanto é, é o quinto. O sexto é crer que Deus seja recriador, isto é, que tenha redimido a humana linhagem do pecado que Adão e Eva fizeram. O sétimo é crer que Deus dará glória a aqueles que estão no Paraíso. Estes sete artigos pertencem à deidade. Aqueles outros sete pertencem à humanidade, que o Filho de Deus tomou em Nossa Dona Santa Maria, os quais sete são estes: crer que Jesus Cristo foi concebido do Espírito Santo quando São Gabriel saudou Nossa Dona é o primeiro. Segundo é crer que Jesus Cristo tenha nascido. Terceiro é que tenha sido crucificado e morto para nos salvar. Quarto é que desceu a Sua alma ao Inferno para salvar Adão e Abraão e os outros profetas que creram em sua vinda antes que morressem. Quinto é crer que Jesus Cristo tenha ressuscitado. Sexto é crer que tenha subido ao Céu no dia da Ascensão. Sétimo é crer que Jesus Cristo virá no dia do Juízo, quando todos forem ressuscitados e julgará os bons e os maus. Todo homem é obrigado a crer nestes catorze artigos que são testemunhos de Deus e de Suas obras; e sem estes
artigos nenhum homem pode ser salvo.

 

6


Os dez mandamentos que Deus deu a Moisés no monte Sinai são estes: um Deus tão somente adorarás e servirás. Não sejas perjuro. Guardarás o sábado e honrarás teu pai e tua mãe. Não farás homicídio. Não fornicarás. Não farás latrocínio. Não farás falso testemunho. Não invejarás a mulher de teu próximo. Não terás inveja dos bens de teu próximo. A todo cavaleiro convém saber estes dez mandamentos para que sua ordem não seja desobediente aos mandamentos que Deus deu.

 

7


Os sete sacramentos da santa Igreja são estes: batismo, confirmação, o sacrifício do altar, a penitência que o homem faz de seus pecados, as ordens que o bispo faz quando faz presbíteros
e diáconos e subdiáconos, matrimônio, unção. Por estes sete sacramentos nos havemos de salvar. E a honrar e a cumprir estes sete sacramentos é obrigado o sacramento da cavalaria; e por isso,
pertence a todo cavaleiro que saiba quais coisas seu ofício é obrigado.  

 

8


De todas estas coisas ditas acima deve pregar o presbítero, e das outras coisas que pertencem à cavalaria. E o escudeiro que deseja ser cavaleiro deve orar a Deus que lhe dê graça e a bênção com que possa ser, por todo o tempo de sua vida, seu servidor.

 

9

 

Quando o presbítero tiver feito o que pertence a seu ofício, então convém que o príncipe ou alto barão que deseja fazer cavaleiro o escudeiro que demanda cavalaria possua virtude e ordem de cavalaria em si mesmo, para tal que possa, pela graça de Deus, dar virtude e ordem de cavalaria ao escudeiro que deseja ordem e virtude de cavalaria. E se o cavaleiro não é ordenado nem virtuoso em si mesmo, não pode dar o que não tem, e é de pior condição que as plantas, que têm virtude de dar a umas e outras sua natureza, e isso mesmo se segue com as bestas e as aves.

 

10


Esse tal cavaleiro malvado que desordenadamente deseja fazer e multiplicar a ordem, injúria faz à cavalaria e ao escudeiro; e disso por que ele deveria ser desfeito, deseja fazer o que não convém que seja feito. E pela falta desse tal cavaleiro acontece algumas vezes que o escudeiro que recebe cavalaria não é tão ajudado pela graça de Deus nem pela virtude de cavalaria; onde, por isso, todo
escudeiro que desse tal cavaleiro recebe cavalaria é louco.

 

11


O escudeiro, diante do altar, deve ajoelhar-se, e que levante seus olhos a Deus, corporais e espirituais, e suas mãos a Deus. E o cavaleiro deve cingir-lhe a espada, para significar castidade e justiça; e, como significado de caridade deve beijar seu escudeiro e dar-lhe uma bofetada para que se lembre disso que prometeu e do grande cargo a que se obriga e da grande honra que recebe pela ordem de cavalaria.

 

12


Depois que o cavaleiro espiritual e o cavaleiro terrenal tiverem cumprido seu ofício em fazer novo cavaleiro, o cavaleiro novo deve cavalgar e deve mostrar-se às gentes, para que todos saibam que ele é cavaleiro e que se obrigou a manter e a defender a honra de cavalaria; porque quanto mais gentes saibam de sua cavalaria, maior refreamento terá o novo cavaleiro a fazer novas faltas que sejam contra sua ordem.

 

13


Naquele dia deve ser feita grande festa de oferecimento, de convites, justas, e das outras coisas que se convém à festa de cavalaria. E o senhor que faz cavaleiro deve dar ao novo cavaleiro e aos outros novos cavaleiros; e o cavaleiro novo deve dar, naquele dia, porque quem recebe tão grande dom como é a ordem de cavalaria, sua ordem desmente se não dá segundo deve dar. Todas estas coisas e muitas outras que seriam longas de contar pertencem ao fato de dar cavalaria.

 

V. DO SIGNIFICADO QUE EXISTE NAS ARMAS DE CAVALEIRO

1


Tudo que o presbítero veste para cantar na missa tem algum significado que se convém ao seu ofício; e porque ofício de clérigo e ofício de cavaleiro se convêm, por isso ordem de cavalaria requer que tudo o que é mister ao cavaleiro usar de seu ofício tenha alguma significação, pela qual seja significada a nobreza da ordem de cavalaria.

 

2


Ao cavaleiro é dada a espada, que é feita à semelhança da cruz, para significar que assim como nosso Senhor Jesus Cristo venceu a morte na cruz na qual tínhamos caído pelo pecado
de nosso pai Adão, assim o cavaleiro deve vencer e destruir os inimigos da cruz com a espada. E porque a espada é cortante em cada parte, e cavalaria é para manter a justiça, e justiça é dar a
cada um o seu direito, por isso a espada do cavaleiro significa que o cavaleiro com a espada mantêm a cavalaria e a justiça.

 

3


A lança é dada ao cavaleiro para significar a verdade, porque verdade é coisa direita e não se torce ; e verdade vai diante da falsidade. E o ferro da lança significa a força que a verdade tem sobre a falsidade; e o pendão significa que a verdade se demonstra a todos, e não há poder de falsidade nem de engano; e verdade é a base da esperança, e assim das outras coisas que são significadas de verdade pela lança do cavaleiro.

 

4


Chapéu de ferro é dado ao cavaleiro para significar vergonha, porque cavaleiro sem vergonha não pode ser obediente à ordem de cavalaria. Logo, assim como a vergonha faz o homem ser vergonhoso, e faz o homem ter seus olhos na terra, assim o chapéu defende o homem das
coisas altas e o mira à terra, e é o meio que está entre as coisas baixas e as coisas altas. E assim como o chapéu defende a cabeça que é o mais alto e o principal membro que existe no homem,
assim a vergonha defende o cavaleiro, que é, após o ofício de clérigo, o mais alto ofício que existe, que não se inclina a vis feitos, nem a nobreza de sua coragem não deve descer à maldade nem ao engano nem a nenhum mau ensinamento.

 

5


Cota de malha significa castelo e muro contra vícios e faltas; porque assim como castelo e muro estão contidos em volta para que homem não possa entrar, assim cota de malha é encerrada por todas as partes e tampada para que dê significado à nobre coragem de cavaleiro para que não possa entrar nela traição nem orgulho nem deslealdade nem nenhum outro vício.

 

6


Calças de ferro são dadas a cavaleiro para manter seguros seus pés e suas pernas, para significar que cavaleiro deve manter seguros os caminhos com ferro, isto é, com espada e com lança, com maça e com as outras armas.

 

7


Esporas são dadas a cavaleiro para significar diligência e esperteza e ânsia com que possa manter honrada sua ordem; porque assim como com as esporas esporeia o cavaleiro seu cavalo para que se cuide e que corra o mais velozmente que possa, assim diligência faz cuidar as coisas que convêm ser, e esperteza faz o homem guardar de ser surpreendido, e ânsia faz procurar o arnês e a despesa que é mister à honra de cavalaria.

 

8


Gorjeira é dada ao cavaleiro como significado de obediência; porque cavaleiro que não é obediente a seu senhor nem à ordem de cavalaria, desonra seu senhor e vai-se da ordem de cavalaria. Logo, assim como a gorjeira envolve o colo do cavaleiro para que esteja defendido de feridas e golpes, assim obediência faz estar o cavaleiro dentro dos mandamentos de seu senhorio maior e dentro
da ordem de cavalaria, para que traição nem orgulho nem injúria nem outro vício não corrompa o sacramento que o cavaleiro tem feito a seu senhor e a cavalaria.

 

9


Maça é dada ao cavaleiro para significar força de coragem; porque assim como a maça é contra todas as armas, e dá e fere de todas as partes, assim a força de coragem defende cavaleiro de todos os vícios e fortifica as virtudes e os bons costumes pelos quais cavaleiro mantém a honra de cavalaria.

 

10


Misericórdia é dada a cavaleiro para que se lhe falharem armas, que se torne à misericórdia; porque se está tão próximo a seu inimigo que não o possa ferir com lança nem com espada nem com
maça, que lhe faça golpe com a misericórdia. Logo, esta arma, misericórdia, significa que o cavaleiro não deve confiar em suas armas nem em sua força, e deve-se tanto acostar a Deus por esperança
que com esperança e com Deus combate seus inimigos e aqueles que são contrários a cavalaria.

 

11


Escudo é dado ao cavaleiro para significar ofício de cavaleiro, porque assim como o escudo mete o cavaleiro entre si e seu inimigo, assim o cavaleiro é o meio que está entre rei e seu povo. E assim
como o golpe fere antes no escudo que em o corpo do cavaleiro, assim cavaleiro deve parar seu corpo diante de seu senhor se algum homem desejar pendurar ou ferir seu senhor.

 

12


A sela em que cavalga o cavaleiro significa segurança de coragem e carga de cavalaria; porque assim como pela sela cavaleiro está seguro sobre seu cavalo, assim segurança de coragem
faz estar de cara o cavaleiro na batalha, pela qual segurança sucede ventura amiga de cavalaria. E por segurança são menosprezadas muitas covardes presunções e muitas vãs semelhanças, e
são refreados muitos homens que não temem passar avante no lugar onde coragem nobre faz estar seguro o corpo do cavaleiro. E tanto é grande a carga de cavalaria que por ligeiras coisas não se
devem mover os cavaleiros.

 

13


Cavalo é dado ao cavaleiro por significado de nobreza de coragem e para que seja mais alto montado a cavalo que outro homem, e que seja visto de longe, e que mais coisas tenha debaixo de si, e que antes seja em tudo o que se convém à honra de cavalaria que outro homem.

 

14


Ao cavalo é dado freio e às mãos do cavaleiro são dados reinos , à significar que cavaleiro, pelo freio, refreie sua boca de parlar feias palavras e falsas, refreie suas mãos, que não dê tanto que haja de querer, nem seja tão ardente que de seu ardor expulse a sensatez. E pelos reinos, entenda que ele se deixe conduzir até qualquer parte a ordem de cavalaria o deseje empregar e enviar; e quando for mister, alargue suas mãos e faça despesa e dê segundo o que se convém à sua honra, e seja ardoroso e não hesite seus inimigos , e quando hesitar de ferir, deixe fraqueza de coragem. E se
disso o cavaleiro faz o contrário, seu cavalo, que é besta e que não possui razão, segue melhor a regra e o ofício de cavalaria que o cavaleiro.

 

15


Testeira é dada ao cavalo para significar que todo cavaleiro não deve fazer de armas sem razão; porque assim como a cabeça do cavaleiro vai primeiro, diante do cavaleiro, assim o cavaleiro deve
levar diante a razão em tudo o que faz; porque obra que seja sem razão possui tanta vileza em si que não deve existir diante de cavaleiro. Logo, assim como a testeira guarda e defende a cabeça do cavaleiro, assim razão guarda e defende cavaleiro de blasfêmia e de vergonha.

 

16


Guarnições do cavalo defendem cavalo; e pelas guarnições é feito o significado que o cavaleiro deve guardar e custodiar seus bens e suas riquezas, para tal que possa bastar ao ofício de cavalaria. Porque assim como o cavalo não poderia ser defendido de golpes e de feridas sem guarnições, assim cavaleiro sem estes bens temporais não poderia manter a honra de cavalaria nem
poderia ser defendido de malvados pensamentos, porque pobreza faz homem cogitar enganos e traições.

 

17


Perponte dá significado ao cavaleiro dos grandes trabalhos os quais lhe convém sofrer para honrar a ordem de cavalaria. Porque assim como o perponte está por cima de outras guarnições e está ao
sol e à chuva e ao vento, e recebe antes os golpes que a loriga e por todas as partes é combatido e ferido, assim cavaleiro é eleito para maiores trabalhos que outro homem; porque todos os homens que estão abaixo de sua nobreza e abaixo de sua guarda hão de recorrer a cavaleiro, e
cavaleiro deve a todos defender; e antes deve cavaleiro ser ferido e chagado e morto que os homens que lhe estão encomendados. Logo, como isso é assim, donde grande é a carga de cavalaria; logo, por isso são os príncipes e os altos barões em tão grande trabalho postos a reger e a defender suas terras e seu povo.  

 

18


Sinal no escudo e na sela e no perponte é dado ao cavaleiro para ser louvado dos ardores que faz e dos golpes que dá na batalha; e se é traidor e fraco e reincidente , lhe é dado o sinal para que seja difamado e repreendido. E porque sinal é dado a cavaleiro para que seja conhecido se é amigo ou inimigo de cavalaria, por isso cada cavaleiro deve honrar seu sinal, para que se guarde da difamação, que expulsa cavaleiro da ordem de cavalaria.

 

19


Bandeira é dada ao rei e ao príncipe e ao senhor de cavaleiros para significar que os cavaleiros devem manter a honra do senhor e de sua herdade; porque na honra do reino e do principado e na honra de seu senhor são honrados pelas gentes; e na desonra da terra onde estão e do senhor de quem são, os cavaleiros são mais difamados que outros homens. Porque assim como pela honra devem ser mais louvados, porque coração a honra mais está neles que em outros homens, assim na desonra devem ser mais difamados que outros homens, porque coração pela sua fraqueza ou traição são mais fortemente deserdados reis e príncipes e altos barões, e são perdidos mais reinos e condados e outras terras que pela fraqueza e traição de novos outros homens que não sejam cavaleiros.

 

VI. DOS COSTUMES QUE PERTENCEM A CAVALEIRO

1


Se a nobreza de coragem elegeu o cavaleiro sobre os homens que lhe estão abaixo em servidão, nobreza de costumes e de bons ensinamentos se convém ao cavaleiro, porque nobreza de coragem não pode subir na alta honra de cavalaria sem eleição de virtudes e de bons costumes. Logo, como isso é assim, então necessariamente se convém que cavaleiro convenha com bons costumes
e bons ensinamentos.

 

2


Todo cavaleiro deve saber as sete virtudes que são raiz e princípio de todos os bons costumes e são vias e carreiras da celestial glória perdurável. Das quais sete virtudes são as três teologais e as quatro cardeais. As teologais são fé, esperança, caridade. As cardeais são justiça, prudência, fortaleza, temperança.

 

3


Cavaleiro sem fé não pode ser bem acostumado porque, pela fé vê o homem espiritualmente a Deus e suas obras crendo nas coisas invisíveis. E pela fé o homem tem esperança, caridade, lealdade, e é o homem servidor da verdade. E pela fraqueza de fé, o homem descrê em Deus e suas obras e nas coisas verdadeiras invisíveis, às quais o homem sem fé não pode entender nem saber.

 

4


Pela fé que existe nos cavaleiros bem acostumados, vão os cavaleiros à Terra Santa de Ultramar em peregrinação e fazem armas contra os inimigos da cruz, e são mártires quando morrem para exaltar a santa fé católica. E pela fé defendem os clérigos dos malvados homens que por fraqueza de fé os menosprezam, e os roubam, e os desertam tanto quanto podem.

 

5


Esperança é virtude que se convêm muito fortemente ao ofício de cavaleiro porque, pela esperança relembram de Deus na batalha, em Suas coitas e em Suas atribulações; e pela esperança que têm em Deus recebem socorro e ajuda de Deus, que vence a batalha por razão da maior esperança e confiança que os cavaleiros têm no poder de Deus do que em suas forças e em suas armas. Com a esperança fortalece-se e retorna a coragem ao cavaleiro; e a esperança faz suportar trabalhos, e faz aventurar os cavaleiros nos perigos em que se metem; e a esperança os faz suportar fome e sede nos castelos e nas cidades que defendem quando são assediados. E se não houvesse esperança,
cavaleiro não teria como usar o ofício de cavalaria.

 

6


Cavaleiro sem caridade não pode ser sem crueldade e má vontade; e porque crueldade e má vontade não se convêm com o ofício de cavalaria, por isso caridade se convém ao cavaleiro. Porque se cavaleiro não tem caridade para com Deus e seu próximo, com que amará a Deus e com que terá piedade dos homens despossuídos e com que fará mercê dos homens vencidos que demandam mercê? E se caridade não há no cavaleiro, como poderá ser cavaleiro na ordem de cavalaria? Caridade é virtude que ajusta uma virtude com outra e separa um vício do outro; e caridade é amor do qual pode ter todo cavaleiro e todo homem tanto quanto dele haja mister para manter seu
ofício. E caridade torna mais fácil a grande carga de cavalaria, e assim como o cavalo sem patas não poderia suportar a carga do cavaleiro, assim nenhum cavaleiro sem caridade não pode sustentar o grande cargo que uma nobre coragem de cavaleiro sustenta para honrar a cavalaria.

 

7


Se homem sem corpo fosse homem, homem seria coisa invisível, e se o fosse, homem não seria o que é. Logo, se o cavaleiro fosse no ofício de cavalaria sem justiça convém que justiça não fosse o que é, ou que cavalaria fosse outra coisa contra aquela coisa que cavalaria é. E como cavalaria tem princípio de justiça, qual cavaleiro que está acostumado a fazer coisas tortas e injúrias cuida
estar na ordem de cavalaria? Desfazer cavaleiro é como romper a correia da espada por trás e lhe é levada a espada, para significar que não torna útil cavalaria . Logo, se cavalaria e justiça se covêm tão fortemente que cavalaria não pode ser sem justiça, aquele cavaleiro que faz injúria a si mesmo e é inimigo da justiça desfaz a si mesmo e renega e menospreza a ordem de cavalaria.

 

8


Prudência é virtude pela qual o homem tem conhecimento do bem e do mal, e pela qual o homem tem sabedoria para ser amante do bem e a ser inimigo do mal; e prudência é ciência pela qual o homem tem conhecimento das coisas vindouras com as coisas presentes; e prudência é quando, por algumas cautelas e maestrias, sabe o homem se esquivar dos danos corporais e espirituais. Logo, como os cavaleiros são para encalçar e destruir os males, e porque nenhum homem se mete em tantos perigos como os cavaleiros, qual coisa é mais necessária ao cavaleiro que a prudência? Usança de cavaleiro de guarnecer e de combater não se convém tão fortemente com o
ofício de cavalaria como faz usança de razão e de entendimento e de vontade ordenada; porque mais batalhas são vencidas pela maestria e sensatez que pela multidão de gentes ou de guarnições ou de cavaleiros. Logo, como isso é assim, se tu cavaleiro desejas acostumar teu filho ao ofício de cavaleiro para manter a honra da cavalaria, saiba-o acostumar a usar de razão e entendimento e tudo o que possa, para que seja amante do bem e inimigo do mal; porque por tal usança, prudência e cavalaria se ajustem e se convenham para sempre honrar o cavaleiro.

 

9


Fortaleza é virtude que está em nobre coragem contra os sete pecados mortais, que são carreiras pelas quais vai-se aos infernais tormentos que não têm fim: glutonia, luxúria, avareza, preguiça, acídia , soberba, invídia , ira. Logo, cavaleiro que vai por tais carreiras não vai ao hospital onde a nobreza de coração faz sua habitação e sua estada.

 

10


Glutonia engendra debilidade do corpo por gula e embriaguez; e glutonia atrai pobreza por desprender massa em comer e em beber; e glutonia carrega tanto o corpo de viandas que engendra preguiça e fraqueza. Logo, como todos estes vícios são contrários a cavaleiro, por isso a forte coragem do cavaleiro os combate com abstinência e com continência e se tempera contra a gula e contra seus valedores .

 

11


Luxúria e fortaleza combatem uma contra a outra; Logo, as armas com que luxúria combate fortaleza são juventude, belas feições, muito comer e beber, ornadas vestimentas, ocasião propícia, falsidade, traição, injúria, menosprezo de Deus e do Paraíso, e pouco temor das infernais penas e com as outras armas semelhantes a estas. Fortaleza combate a luxúria relembrando Deus e seus mandamentos, e entendendo Deus e os bens e os males que pode dar, e amando a Deus porque é digno de ser amado e temido, honrado, obedecido; e fortaleza combate luxúria com nobreza de coragem, que não se deseja submeter a malvados e a sujos pensamentos, nem deseja descer de sua alta honra para estar na blasfêmia das gentes. Logo, como o cavaleiro é dito cavaleiro para combater os vícios com força de coragem, cavaleiro sem fortaleza não possui coração de cavaleiro nem tem as armas com as quais cavaleiro deve combater.

 

12


Avareza é vício que desce sobre a coragem para a submeter às coisas vis; logo, pela falta de nobre coragem que não defende o nobre coração de cavaleiro contra a avareza, são os cavaleiros cobiçosos e avaros, e pela cobiça fazem injúrias e coisas tortas e fazem-se submetidos e cativos daqueles bens que Deus Lhes tem submetidos. Fortaleza tem tal costume que não ajuda nenhum inimigo seu, e se o homem não lhe demanda ajuda, não deseja ajudar o homem; porque é tão
nobre a força de coragem e alta coisa em si mesma, e tanta honra lhe convém ser feita, que nas correrias e nos trabalhos deve ser apelada e ajuda lhe deve ser demandada. Logo, quando o
cavaleiro é tentado pela avareza a inclinar sua nobre coragem à alguma maldade, deslealdade, traição, então deve recorrer à fortaleza, a qual não encontrará fraqueza nem covardia nem enfraquecimento nem falta de socorro e ajuda. E porque com fortaleza o nobre coração pode ser forte e pode vencer todos os vícios, avaro cavaleiro, diabo, por que não és nobre, forte de coragem, por tal que não seja submetido pela avareza a vis obras e a vis pensamentos?
Porque se avareza e cavalaria se conviessem, usurário, por que não és cavaleiro?

 

13


Acídia é vício pelo qual o homem é amante do mal e inimigo do bem; logo, este é o vício pelo qual o homem melhor pode ver sinais no homem de danação que por outro vício, e pelo contrário da acídia, melhor pode o homem conhecer sinais da salvação que por outra virtude. Logo, quem deseja vencer e superar a acídia convém que haja fortaleza em seu coração pela qual vença a natureza do
corpo que pela corrupção e o pecado de Adão é aparelhada ao mal. O homem que possui acídia todas as vezes que faz o bem naquilo encontra desagrado, e quando o homem faz dano, tem desagrado quando o dano não é maior; e por isso, tal homem, do bem e do mal dos outros
homens, tem trabalho e mal. Logo, uma vez que desprazer dá paixão e trabalho à pessoa, se tu, cavaleiro, desejas vencer este vício, convém pregar à fortaleza que fortaleça tua coragem contra acídia, a qual a fortaleza vence, relembrando que Deus, se faz bem a um homem ou a muitos, por tudo isso não se segue que não possa fazer bem a tu, uma vez que não lhe dá tudo quanto existe nem a tu não tira nada teu.  

 

14


Soberba é vício de desigualdade, porque homem orgulhoso não deseja haver par nem igual e por isso ama estar só. E porque humildade e fortaleza são duas virtudes e amam igualdade e são contra o orgulho, se tu, cavaleiro orgulhoso, desejas vencer teu orgulho, ajusta em tua coragem humildade e fortaleza; porque humildade sem fortaleza não é forte contra orgulho, porque na humildade onde não existe fortaleza, força não existe, e orgulho sem força pode ser vencido.
Quando estiveres guarnecido com todas as armas sobre teu grande cavalo serás orgulhoso? Não, se a força da humildade te faz relembrar a razão pela qual é cavaleiro, e se és orgulhoso, não terás força em tua coragem para vencer e expulsar (de tua coragem) os pensamentos orgulhosos. Se
fores derrubado de teu cavalo e estiveres preso e vencido, serás tão orgulhoso como eras? Não, porque força corporal terá vencido e superado o orgulho na coragem do cavaleiro, não obstante que nobreza de coragem não seja coisa corporal, quanto mais fortaleza e humildade, que são coisas
espirituais, devem expulsar o orgulho de nobre coragem, que é nobreza espiritual!

 

15


Invídia é inveja desagradável à justiça, caridade, largueza, que se convém com ordem de cavalaria. Logo, quando o cavaleiro possui fraca coragem, não pode sustentar nem seguir ordem de cavalaria.
Por falta de fortaleza, que não está na coragem do cavaleiro, a inveja expulsa de sua coragem justiça, caridade, largueza; e por isso, é o cavaleiro invejoso de haver outros bens e é preguiçoso para ganhar semelhantes bens pela força das armas, e por isso diz mal daquelas coisas que gostaria de possuir daqueles que as possuem. Logo, por isso, inveja lhe faz cogitar como pudesse fazer enganos e faltas.

 

16


Ira é turvamento na coragem, de relembrar e entender a vontade; e pelo turvamento, a relembrança se converte em esquecimento, e o entendimento em ignorância, e a vontade em irritação. Logo, como lembrar e entender, vontade é iluminação pela qual cavaleiro busca seguir as carreiras de cavalaria, que ira e turvamento do espírito desejam expulsar de sua coragem, convém que recorra à força de coragem, caridade, abstinência, paciência, que são refreamento da ira e alívio dos trabalhos que a ira dá. Tanto quando a ira é maior, tanto é maior a força que vem à ira com caridade, abstinência, paciência; e onde a força é maior, menor é a ira e maior é a caridade, abstinência, paciência; e pela minoridade da ira e pela maioridade das virtudes acima ditas, má vontade, impaciência, e os outros vícios são menores, e onde menores são os vícios e maiores são as virtudes, maior é justiça, sabedoria; e pela maioridade da justiça, sabedoria, é maior a ordem de cavalaria. Havemos dito a maneira segundo a qual fortaleza está na coragem do cavaleiro contra os sete pecados mortais. Agora diremos da temperança.

 

17


Temperança é virtude que está no meio de dois vícios: um vício é pecado pelo excesso de grandeza, o outro é pecado por pouco excesso de quantidade . E por isso, entre muito e pouco convém estar a temperança, em tão conveniente quantidade que seja virtude; porque se não fosse virtude,
entre muito e pouco não haveria meio termo, e isso não é verdade. Cavaleiro bem acostumado deve ser temperado em ardor e em comer, e em beber, e em parlar, que se convém com mentir, e em vestir, que há feito amizade com vanglória, e em ser esbanjador, e em todas as outras coisas semelhantes a estas. E sem temperança não poderia manter a honra de cavalaria, nem a poderia fazer estar no meio, que é virtude por seu corpo não estar nas extremidades.

 

18


Usança de cavaleiro deve ser ouvir missa e sermão e adorar e pregar e temer a Deus; porque, por tal costume, cavaleiro cogita na morte e na vileza deste mundo e demanda a Deus a celestial glória e teme as infernais penas, e por isso, usa das virtudes e dos costumes que pertencem à ordem de cavalaria. Mas cavaleiro que disso faz contrário e crê em augúrios e presságios, faz contra Deus, e possui maior fé e esperança no vento de sua cabeça e nas obras que fazem as aves e nos presságios, que em Deus e Suas obras. E por isso, tal cavaleiro não é agradável a Deus nem mantêm a ordem de cavalaria.

 

19


O carpinteiro nem o sapateiro nem os outros mesteirais não poderiam usar de seus ofícios sem a arte e a maneira que pertence a seu ofício. Logo, como Deus tem dado razão e discrição a cavaleiro para que saiba usar de feitos de armas quando mantém a regra e a arte de cavalaria, e o cavaleiro deixa sua discrição e seu entendimento — e razão lhe significa e lhe demonstra — e expulsa nobreza de sua coragem e segue augúrios e presságios, então é assim como o homem louco
que não usa de razão e faz à aventura o que faz. E por isso, tal cavaleiro é contra Deus e, segundo a razão, deve ser vencido e superado pelo seu inimigo que usa contra ele de razão e de discrição
e da esperança que possui em Deus. E se isto não fosse assim, seguir-se-ia que augúrios e presságios e alma sem razão se conviessem melhor à ordem de cavalaria que Deus, discrição, fé,
esperança e nobreza de coragem, e isso é impossível.

 

20


Assim como o juiz segue seu ofício quando julga segundo testemunhas, assim cavaleiro faz seu ofício quando usa de razão e de discrição, que lhe são testemunhas disso que deve fazer em feitos de armas. E assim como o juiz daria falsa sentença se não julgasse segundo testemunhos e julgasse por augúrios e presságios, assim cavaleiro faz contra o que é de seu ofício quando desmente o que a razão e discrição lhe demonstra, e crê só o que as aves fazem por suas necessidades e por seu corpo vão voando à aventura pelo ar. Logo, como isto é assim, donde por isso cavaleiro deve seguir a razão e a discrição e o significado que as armas significam, segundo o que acima havemos dito; e do que só que se faz a aventura, não deve fazer necessidade nem costume.

 

21


Ao cavaleiro se convém que seja amador do bem comum, porque para comunidade de gentes foi eleita cavalaria, e bem comum é maior e mais necessário que o bem especial. E ao cavaleiro se convém belamente parlar e belamente vestir e haver belo arnês e ter grande albergue , porque todas
estas coisas são necessárias para honrar cavalaria. Ensinamento e cavalaria se convêm, porque vilania e ligeiras palavras são contra a cavalaria. Privança de bons homens, lealdade, verdade, ardor, verdadeira largueza, honestidade, humildade, piedade e as outras coisas semelhantes a estas pertencem ao cavaleiro, porque assim como homem deve conhecer a Deus toda nobreza, assim cavaleiro deve homem comparar tudo seu como cavalaria recebe honra por aqueles que estão
em sua ordem.

 

22


Pelo costume e bons modos que cavaleiro faz a seu cavalo não é tão mantida a honra da cavalaria como é no costume e nos bons modos que cavaleiro faz em si mesmo e em seu filho; porque cavalaria não está no cavalo nem nas armas, antes está no cavaleiro. Logo, por isso, cavaleiro que acostuma bem seu cavalo e acostuma a si mesmo e seu filho a malvados modos, faria de si mesmo e de seu filho, se fazê-lo pudesse, besta, e faria de seu cavalo, cavaleiro.

 

VII. DA HONRA QUE DEVE SER FEITA A CAVALEIRO

1


Deus tem honrado cavaleiro e o povo tem honrado cavaleiro segundo é recontado neste livro. E cavalaria é honrado ofício e é muito necessário ao regimento do mundo. E por isso, cavaleiro, por todas estas razões e por muitas outras, deve ser honrado pelas gentes.

 

2


Se rei e príncipe e senhor de terra devem ser cavaleiros, porque sem que não tivesse a honra que pertence a cavaleiro não merece ser príncipe nem senhor de terra, donde os cavaleiros devem
ser honrados pelos reis e pelos altos barões, porque assim como os cavaleiros fazem estar honrados os reis e os altos senhores sobre os outros homens, assim os reis e os barões devem ter honrados os cavaleiros sobre os outros homens.

 

3


Cavalaria e franqueza se convêm; e a franqueza e a senhoria do rei ou do príncipe se convêm, porque o cavaleiro convém ser franco para que o rei e o príncipe seja senhor. E como isto é assim, por isso convém que a honra do rei ou de qualquer que seja seu senhor, se convenha com a honra do cavaleiro, em tal maneira que o senhor de terra seja senhor e o cavaleiro seja honrado.

 

4


À honra de cavaleiro se convém que seja amado, porque é bom; e que seja temido, porque é forte ; e que seja louvado, porque é de bons feitos; e que seja pregador , porque é privado e conselheiro do senhor. Logo, menosprezar cavaleiro porque corpo é daquela mesma natureza da qual o homem é, é menosprezar todas as coisas acima ditas, pelas quais cavaleiro deve ser honrado.

 

5


Senhor que em sua corte e em seu conselho e em sua távola faz honra a cavaleiro, faz honra a si mesmo na batalha. E senhor que de sábio cavaleiro faz mensageiro, encomenda sua honra à nobreza de coragem. E senhor que multiplica honra em cavaleiro que seja seu servidor, multiplica sua honra mesma. E senhor que ajuda e mantém cavaleiro, ordena seu ofício e mantém seu senhorio. E senhor que é privado com cavaleiro, possui amizade com cavalaria.

 

6


Demandar mulher de cavaleiro e incliná-la à maldade não é honra de cavaleiro. Nem mulher de cavaleiro que tem filho de vilão não honra cavaleiro e destrói a antigüidade da linhagem de
cavaleiro, nem cavaleiro que por desonestidade possua filho de vil fêmea não honra linhagem nem cavalaria. Logo, como isso é assim, donde linhagem em dona e em cavaleiro, por virtude do matrimônio, se convém com a honra da cavalaria, e o contrário é a destruição de cavalaria.

 

7


Se os homens que não são cavaleiros são obrigados a honrar cavaleiro, quanto mais cavaleiro é obrigado a honrar a si mesmo e seu par cavaleiro! E se cavaleiro é obrigado a honrar seu corpo e
ser bem montado e gentilmente vestido e adereçado, e de boas pessoas servido, quanto mais deve honrar sua nobre coragem pela qual é cavaleiro! A qual nobre coragem é desonrada quando cavaleiro aí mete vis e malvados pensamentos, e enganos e traições, e expulsa de sua coragem os pensamentos nobres que pertencem à nobreza de coragem.  

 

8


Cavaleiro que desonra a si mesmo e a seu par cavaleiro não deve ser digno de honra e de honraria, porque se o fosse, injúria seria feita a cavaleiro que cavalaria tem honrada em si mesmo e em
outro. Logo, como cavalaria é e está no cavaleiro, quem pode tanto honrar ou desonrar cavalaria como cavaleiro?

 

9


Muitas são as honrarias, os honramentos que pertencem ser feitos a cavaleiro; e quanto maiores são, mais encarregado é cavaleiro a honrar cavalaria. E porque nós havemos a parlar do livro que é da ordem de clerezia, por isso parlamos tão brevemente do Livro da ordem de cavalaria, o qual é findo à glória e à bênção de Nosso Senhor Deus. 




INFLUÊNCIAS DA ORDEM DO TEMPLO

Texto de ‘Cuadernos Medievales’ nº 0– www.ficem.org
Tradução autorizada

Por Sebat-Nefer

Graças aos numerosos benefícios obtidos como conseqüência de sua formidável máquina econômica, a influência da Ordem do Templo na sociedade, na vida das pessoas, nos usos e costumes da época, não se fez esperar, além do que essa influência não se limitou só, no tempo, àqueles anos, antes, muitas de suas realizações perduram até nossos dias.

Essa influência se estendeu a todos os âmbitos da vida, desde a militar, até a cultural, passando pela social.

É impossível saber o que teria acontecido caso não houvesse desaparecido a Ordem, como teria continuado a evolução da vida nos territórios administrados por eles.

As realizações e influências dos Cavaleiros Templários, no ocidente, as agruparemos nos seguintes âmbitos da vida:

  • Âmbito Social.
  • Âmbito Econômico.
  • Âmbito Militar.
  • Âmbito Político.
  • Âmbito Cultural.

AMBITO SOCIAL

Mediante a superação do feudalismo, em muitas áreas suprimiram a escravidão.

Conseguiram diminuir as diferenças entre as formas de vida rural e urbana, aproximando a primeira à segunda e conseguindo uma boa convivência e interdependência entre elas.

Potencializaram todos os trabalhos artesanais, formando futuros artesãos, no que poderíamos definir como o embrião das escolas de artesanato ou de formação profissional.

No aspecto trabalhista, nas áreas controladas pelos templários pode-se afirmar que não existiu desemprego, conseguindo um nível de emprego e dedicação, entre a população ativa, praticamente de cem por cento.

Impulsionaram enormemente a agricultura e a pecuária, chegando inclusive a drenar áreas pantanosas e transformá-las em áreas cultiváveis, como por exemplo o bairro de Marais em Paris, conseguindo dessa forma que toda a população que vivia nas propriedades ou territórios administrados por eles não conhecessem a fome e também com os excedentes pudessem atingir dois outros objetivos, alimentar os pobres e transformá-lo em dinheiro com sua venda.

Para tudo isso impulsionaram o cultivo de cereais, frutas, leguminosas, vinhas, oliveiras etc., assim como criaram centros de beneficiamento de pecuária, centros apícolas, centros de beneficiamento de pescado.

As obras sociais que hoje em dia existem, e nos pareceria impossível viver sem elas, na Idade Média não existiam, salvo nas áreas regidas pelos templários pois prestavam ajuda aos grupos mais desfavorecidos e desprotegidos, órfãos, viúvas, perseguidos, etc..

Podemos afirmar que os templários se propuseram e conseguiram, socialmente, criar uma convivência humana nova onde imperassem a liberdade e o direito do ser humano estimulando para isso justiça, caridade, respeito entre os homens, etc..

AMBITO ECONOMICO

Um dos votos que faziam os templários ao ingressar na Ordem era o de pobreza e este era para todos, desde o Grão-Mestre até o último templário que acabasse de entrar na Ordem, inclusive era vedado aos grandes dignitários o acesso aos cofres.

Aos templários não era permitido, segundo sua Regra, possuir absolutamente nada, pois inclusive sua vestimenta e armas eram da Ordem, eles eram uns meros usufrutuários. Por isso absolutamente todo o dinheiro, propriedades, etc., revertia para a Ordem, adquirindo esta uma dimensão tal que influenciou no desenvolvimento da sociedade.

Aperfeiçoaram e popularizaram, levando seu uso até os confins templários o documento mercantil conhecido como “letra de câmbio”.

Criaram, adiantando-se em vários séculos a seu tempo, uma nova figura documental bancária, o “cheque de viagem”.

Tiveram tal talento comercial e bancário que conseguiram multiplicar por vários zeros sua fortuna, cuja origem era principalmente as doações, a exploração de seus domínios, botins de guerra, aluguéis de propriedades, doações testamentárias, a frota e os portos da Ordem, seu sistema bancário e financeiro.

Graças aos templários evoluciona o sistema de intercambio de mercadorias existente até o momento, pois o que predominava era o sistema “mercadoria contra mercadoria” conseguindo que evoluísse para um outro mais cômodo e rápido de “mercadoria contra dinheiro” quer fosse metálico ou crédito, o que impulsionou enormemente o comércio de mercadorias.

Dentro de seu sofisticado sistema bancário e financeiro, as operações que mais comumente se faziam, algumas das quais foram pioneiras naquela época, foram depósitos regulares de dinheiro nas Casas do Templo, depósitos de jóias, objetos preciosos, títulos de propriedades, empréstimos, antecipações, penhor, operações com garantias reais, avais e fianças, pagamento de rendimentos, envio de dinheiro à distância, etc..

AMBITO MILITAR

Quiseram defender a fé cristã contra o avanço do islamismo, freando-o- e ajudando, muito eficazmente, na Reconquista da Espanha, aos reinos da Península Ibérica, conseguindo por sua vez o duplo propósito de proteger a Europa Ocidental.

Foram grandes protetores das rotas dos peregrinos, sobretudo das duas mais importantes naquela época, a rota até a Terra Santa e a rota, melhor dizendo, o Caminho de Santiago.

Nos tempos medievais a segurança dos caminhos era inexistente, havendo inclusive trechos intransitáveis devido ao perigo de assaltos, pilhagem e assassinatos, além de outras ameaças, tanto para os peregrinos como para qualquer outro viajante. Havia a existência de trechos de trânsito muito difícil devido a lamaçais, zonas pantanosas, vegetações selvagens, inclusive possível ataque de animais que habitavam os bosques. Para poder oferecer um serviço efetivo à comunidade os templários criaram rotas novas, mais seguras, dotando-as de postos militares e albergues que, situados estrategicamente, atendiam vários objetivos - alojamento e comida para os viajantes, proteção para estes, isenção de impostos de trânsito comuns naquela época, etc.

Aperfeiçoaram a arma de cavalaria, dando especial importância à cavalaria ligeira, mais efetiva e mais rápida de movimentos que a clássica ocidental daqueles anos e dos reinos cristãos, formada por nativos turcos ou turcópolos. [NT– mercenários turcos].

Militarmente falando, é muito importante o evento da Ordem do Templo na arquitetura militar, com seus castelos, fortalezas, sistema de triplo recinto, etc., mas isto comentaremos e desenvolveremos com mais profundidade quando falarmos do âmbito cultural.

ÂMBITO POLÍTICO

A Ordem do Templo, precursora em quase todos os aspectos e campos da vida que tocava e à vista de como estava estruturada a sociedade, desejava, pregando com o exemplo, uma mudança na sociedade feudal muito hierarquizada, com uma estrutura muito piramidal, alentando o que poderíamos chamar o achatamento da pirâmide, ou seja, tirar os degraus, fazer a pirâmide menor, com menos escalões hierárquicos.

A outra grande idéia política da ordem do Templo era a criação de um estado único no ocidente, logicamente estado cristão, sendo a semente desta idéia a intervenção unificadora da política dos reinos existentes, como fruto do impulso dado pelas cruzadas. Este objetivo ou intenção não pôde começar a desenvolvê-lo porque pouco depois da perda da Palestina, Felipe o Belo, rei da França, começou a fazer intrigas junto ao papado contra a Ordem, e já sabemos todos os acontecimentos que se sucederam, que desembocaram no processo e terminaram com o Grão Mestre, Jacques de Molay, na fogueira.

Esta última idéia do Templo, tão desatinada aparentemente, está começando a tomar corpo e a ser implantada na Europa, para conseguir o que chamamos, “Europa sem fronteiras”, um supra-estado que engloba todos os estados da Europa com uma política comum, em todos os aspectos, monetário, trabalhista, social, comercial, militar, fiscal, etc.. Os Templários se adiantaram sete séculos. Foram uns visionários?

ÂMBITO CULTURAL

Os templários foram uns grandes impulsionadores e inovadores e fomentaram o crescimento cultural e espiritual em uníssono, pois naqueles anos não se podia dissociar a cultura do espírito religioso.

Por exemplo, trouxeram da Palestina o Livro dos Juízes e bancaram sua tradução, efetuada por monges beneditinos, em cinco idiomas.

Uma grande contribuição da Ordem do Templo é no campo da arquitetura, pois durante a vida da ordem se verifica o término do [estilo] românico e o nascimento e crescimento do gótico, alcançando este um grande esplendor e realizando-se as construções góticas mais puras e interessantes.

O estilo gótico se desenvolve a partir de meados do século XII até o século XVI, no que chamamos de estilo gótico tardio e alcança uma difusão geográfica mais ampla que o românico.

O gótico plasma o contrário do que o românico, podemos dizer que tem necessidade de elevação e de luz, evitando o maciço, os elementos maciços. Esta ânsia de luminosidade leva quase a supressão do muro, como é o românico, de uma forma radical, substituindo-se partes do muro por vidraças. As grandes janelas góticas são o extremo oposto das janelas românicas, minúsculas, algumas vezes confundíveis com frestas. Igualmente aparece o arco de ogiva para substituir o arco românico. A obra magna do gótico é a catedral.

Financiaram a construção das grandes catedrais góticas daquela época, sendo os templários os principais impulsionadores desta, recém-nascida, arte gótica.

O que desconhecemos dos templários, é de onde e com quem aprenderam, quais foram suas fontes de sabedoria, para poder desenvolver o novo estilo, pois sua filosofia e sua técnica ainda hoje em dia são de complexa implantação, pois esse estilo não se parece em nada com seu antecessor.

A Ordem do Templo, além do anteriormente exposto, fez outras duas grandes contribuições ao mundo da arquitetura ocidental.

Uma delas, dentro da arquitetura militar, é a chamada fortaleza de triplo recinto que consiste de três linhas defensivas formadas por muralhas de distintas alturas e ordenadas da menor para a maior a medida que nos aproximamos da construção principal. Os templários se inspiraram no Templo de Salomão para esta fortaleza de triplo recinto.

A grande contribuição do Templo à arquitetura, neste caso a arquitetura religiosa, é a utilização do octógono, para o qual se inspiraram na mesquita de Omar em Jerusalém, que por sua vez a inspiração do octógono não é própria dos árabes, pois estes se inspiraram em fontes orientais, mais concretamente chinesa e em sua ciência do ‘Feng-Suei’. Exemplos templários de utilização de octógonos que chegaram até nossos dias os temos na igreja de Veracruz em Segovia e a ermida de Eunate, Navarra, embora o octógono desta última seja irregular.

Está tão expandida a utilização de octógonos em recintos religiosos que hoje em dia é suficiente observar os estabelecimentos religiosos existentes em Alcalá de Henares para poder contemplá-los, inclusive o palácio do arcebispado.

Como podemos observar, a influência que teve a Ordem do Templo na sociedade européia foi de tal importância que alguns dos seus êxitos ainda não foram superados, outros estão em pleno uso e há um terceiro grupo que agora, faz relativamente poucos anos, está começando a se realizar.

Como pessoas podemos, e devemos, tirar nossas próprias conclusões sobre a dívida que temos, que a Europa e o mundo tem para com esses monges-soldados que deixaram de existir, muitos deles dando sua vida por seus ideais.






Memória "del Temple"





Carta de S. Bernardo de Claraval a Hugo, Conde de Champanha, que se fez soldado do Templo
Texto extraído do site www.osmtj.org, Traduzido por Fr. +João Baptista Neto

Se pela causa de Deus passastes de conde a soldado e de rico a pobre, felicito-te como é justo, e em ti glorifico a Deus, porque sei esta mudança se deve à destra do Altíssimo.

Quanto ao mais, confesso-te que não aceito ainda com resignação que Deus me tenha privado de tua gozosa presença por seu misterioso desígnio, de modo que não possa te ver de vez em quando; porque se tivesse sido possível, jamais teria querido que te afastasses de mim.

Poderei acaso esquecer nossa primeira amizade e os benefícios que tão generosamente cumulastes sobre nosso monastério? Oxalá Deus, por cujo amor o fizestes, tampouco se esqueça de ti!

De minha parte, nunca serei ingrato para contigo, guardarei no espírito a lembrança de tua esplêndida caridade e, se tiver oportunidade, o demonstrarei com as obras. Com que prazer tentaria fazê-las, tanto no material como no espiritual, se pudéssemos viver próximos! Mas, como não é assim, só me resta orar sempre pelo ausente, já que careço de tua presença.


Do Elogio à Nova Milícia
São Bernardo

Eis aqui outro orientador espiritual, este para uso dos Cavaleiros Templários, meio monges, meio guerreiros.

PRÓLOGO

A Hugo, Soldado de Cristo e Mestre de sua Milícia,
Bernardo Abade, só no nome, de Claraval,
Saudações e que lutes o bom combate.

Uma, e depois outra, e até três vezes, se não me engano, havias me pedido, caríssimo Hugo, que dirigisse a ti e a teus companheiros algumas palavras de alento que, se não prejudicassem a lança, vibrassem pelo menos a pena contra o inimigo tirano. E que sempre me afirmavas que tinham de ser um grande estímulo, para que, por não ser possível ajudarmos com as armas, os exortasse e animasse com meus escritos.

Demorei algum tempo em satisfazer teus desejos, não porque desdenhasse teu pedido, antes temendo que, se o aceitasse, me culpassem de precipitado e rápido, posto que, podendo fazê-lo qualquer outro melhor, presumia eu de poder sair airoso de tal empresa, e assim, prejudicava o fruto que podia se obter de coisa tão necessária. Mas ao ver que ,minha grande demora de nada me servia, pois insistias uma e outra vez, ainda que incompetente, decidi-me a fazer o que estava em mim. O leitor julgará se satisfiz seus desejos. Embora certamente, como escrevi este opúsculo senão para contentar-te e aceder ao que me pedias, não me preocupa muito que agrade àqueles que o lerem.

CAPÍTULO I

Elogio à Nova Milícia

Ouve-se dizer que um novo gênero de milícia acaba de nascer na terra, e precisamente naquela região onde antigamente viera nos visitar em carne o Sol Oriente, para que alí mesmo onde expulsou com o poder de seu robusto braço os príncipes das trevas, expulse agora os satélites daqueles, filhos da infidelidade e da confusão, por meio desses seus fortes, resgatando também o povo de Deus e suscitando um poderoso Salvador na casa de David seu servo.

Sim, um novo gênero de milícia nasceu, desconhecido em séculos passados, destinado a lutar sem trégua um duplo combate contra a carne e sangue e contra os espíritos malignos que povoam os ares. Sem dúvida, quando vejo combater só com as forças corporais um inimigo também corporal, não só o tenho por caso maravilhoso, porém sequer o julgo raro. Quando igualmente observo como as forças da alma guerream contra os demônios, tampouco me parece isso assombroso, embora seja muito digno de elogio, pois cheio está o mundo de monges, e todos costumam manter essas lutas. Mas quando se vê que um só homem carrega em seu flanco com ardor e coragem sua dupla espada e cinge os quadrís com um duplo cíngulo, quem não julgará caso insólito e digno de grandíssima admiração? Intrépido e bravo soldado aquele que, enquanto reveste seu corpo com a couraça de aço, guarnece sua alma sob a loriga da fé; pode gozar de completa segurança, porque equipado com essas duplas armas defensivas, não tem que temer aos homens nem aos demônios. E mais, nem sequer teme a morte, antes a deseja. O que poderia assustá-lo vivo ou morto, quando seu viver é Cristo? Ao contrário, desejaria melhor acabar de se soltar do corpo para estar com Cristo, sendo isso o melhor.

Marchai, pois, soldados, ao combate com passo firme e marcial e carregado de valoroso ânimo contra os inimigos de Cristo, bem seguros de que nem a morte nem a vida poderão separá-los da caridade de Deus, que está em Cristo Jesus. No fragor do combate proclamai: Quer vivamos, quer morramos, somos do Senhor. Quão gloriosos se tornam ao regresso triunfal da batalha! Por quão ditosos se teem quando morrem como mártires no campo de combate! Alegra-te, fortíssimo atleta, se vives e vences no Senhor; porém, regozija-te mais e dê saltos de alegria se morres e te unes ao Senhor. A vida te é certamente proveitosa e de grande utilidade, e o triunfo te acarreta a verdadeira glória; mas não sem grande razão se antepóe a tudo isso uma santa morte. Porque se são bem-aventurados os que morrem no Senhor, quanto mais o serão os que sucumbem por Ele!

É verdade certa é que, quer os visite no leito, que os surpreenda no fragor do combate, sempre será preciosa no acatamento do Senhor a morte de seus santos. Mas no ardor da refrega será tanto mais preciosa quanto mais gloriosa Oh, vida segura, quando vai acompanhada de boa consciência! Oh vida seguríssima, repito, quando nem sequer a morte se espera com receio, antes, se a deseja com amorosas ansias e se a recebe com doce devoção. Oh verdadeiramente santa e segura milícia, livre daquele duplo perigo que com frequencia costuma assustar aos homens quando não é Cristo quem os põem na luta!

Quantas vezes, ao travar combate com teu inimigo, tu, que militas nos exércitos do século, temes que, matando-lhe no corpo, matas também sua alma. Ou que, sendo tu morto pelo aço de teu rival, percas juntamente a vida da alma e a vida do corpo!

Porque não é pelo resultado material da luta, antes pelos sentimentos do coração pelo que julgamos os Cristãos acerca do risco corrido em uma guerra ou da vitória ganha; porque se a causa é boa, não poderá ser nunca mau o resultado, seja qual for o êxito , assim como não poderá se ter por boa a vitória ao final da campanha, quando a causa pela qual se iniciou não o foi e os que a provocaram não tiveram reta intenção. Se querendo matar a outro, és tu o morto, morres já homicida. E se prevaleces sobre teu contrário e, levado pelo desejo de vencer-lhe, mata-o, embora vivas, és também homicida. Infausta vitória na que, triunfando do homem, sucumbes ao pecado! E se a ira ou a soberba te avassalam, vãmente te jactas por haver dominado a teu oponente.

Dá-se outro caso, à exceção dos ditos, e é o de quem mata, não por zêlo de vingança, nem pela perversidade de gozar do triunfo, senão para evitar o mesmo a morte. Porém tampouco direi seja boa tal vitória; porque dentre dois males, como são a morte da alma ou a morte do corpo, preferível é a segunda; não porque morra o corpo morre também na alma, antes a alma que pecar, ela morrerá.


CAPÍTULO II

Da Milícia Secular

Qual será, pois, o fino fruto do que não chamo de milícia, senão de milícia secular, se o que mata peca mortalmente e o que cai morto perece para sempre? Porque se a esperança faz arar ao que ara, para usar as palavras do Apóstolo, e o que separa o faz esperando receber o fruto, que estranho erro é esse em que viveis, soldados do século? Que fúria frenética e intolerável os arrebata para que de tal modo guerreais passando grandes sofrimentos e gastando toda vossa economia, sem mais resultado que vir a parar no pecado ou na morte? Vestis vossos cavalos com sedas; aplicam em vossas couraças e lorigas não sei que plumas de diversos tecidos; pintais as ponteiras dos escudos, as capas dos escudos, as selas de montar, mandais fazer de ouro e prata os freio e as esporas, adornando-os de pedrarias, e assim, com toda a pompa, cheios de vergonhoso furor e imprudente estupor, cavalgais a passo ligeiro para a morte. São essas insígnias militares ou melhor enfeites de mulheres? Acaso a adaga inimiga retrocederá ante o brilho do ouro? Respeitará as ricas pedras? Não se atreverá a cortar e rasgar as sedas? Enfim, não vos foi ensinado a vós mesmos a experiência diária que para um soldado em campanha o mais necessário são três coisas, convém saber: valor, Sagacidade e cautela para parar os golpes do inimigo, soltura e agilidade de movimentos que vos permita ir ligeiro em vosso avanço e perseguição, e, por último, que estejais sempre pronto e rápido para feri-lo e derrubá-lo.

A vós vemos, pelo contrário, cuidar com esmero vossa cabeleira ao jeito feminino, o qual redunda em prejuízo de vossa visão no estrondo da guerra; vos envolveis com longos camisões que chegam até os pés e os travam; e, enfim, sepultais em amplas e complicadas mangas vossas mãos delicadas e ternas. Sobre tudo isso adicionais o que mais pode amedrontar a consciência de um soldado que sai em campanha, quero dizer, o motivo leviano e frívolo pelo qual teve a imprudência de se meter em milícia tão perigosa.

Por certo é que todas vossas diferenças e guerras nascem só de certos arrebatamentos de ira, ou de vãos desejos de glória, ou de ambição para conquistar alguma vantagem terrena. E, por tais motivos, certo que não se pode com segura consciência nem matar nem ceder.

CAPÍTULO III

Dos Soldados de Cristo

E mais, os soldados de Cristo lutam com segurança as batalhas do Senhor, sem temor de cometer pecado por morte do inimigo, nem por desconfiança de sua salvação em caso de sucumbir. Porque dar ou receber a morte por Cristo não só não implica uma ofensa a Deus nem culpa alguma, senão que merece muita glória; pois no primeiro caso, o homem luta por seu Senhor, e no segundo, o Senhor se dá ao homem por prêmio, olhando Cristo com agrado a vingança que se lhe faz de seu inimigo, e ainda com agrado maior se oferece o próprio por consolo ao que cai na lida. Assim, pois, digamos uma e mais vezes que o Cavaleiro de Cristo mata com segurança de consciência e morre com maior confiança e segurança ainda.

Utilidade tira para si, se sucumbe, e triunfo para Cristo, se vence. Não sem motivo leva a espada à cinta. Ministro de Deus é para castigar severamente os que se dizem seus inimigos; de Sua Divina Majestade recebeu o zero, para castigo dos que agem mal e exaltação dos que praticam o bem. Quando tira vida de um malfeitor não se lhe há de chamar homicida, senão "malicida", se vale a palavra, executa pontualmente as vinganças de Cristo sobre os que praticam a iniquidade, e com razão adquire o título de defensor dos cristãos. Se o matam, não dizemos que se perdeu, senão que se salvou. A morte que dá é para a glória de Cristo, e a que recebe, para sua própria. Na morte de um pagão pode se gloriar um cristão porque sai glorificado Cristo; morrendo valorosamente por Cristo mostra-se a liberalidade do Grande Rei, posto que tira seu Cavaleiro da terra para dar-lhe o galardão. Assim, pois, o justo se alegrará quando o primeiro deles sucumba, vendo aparecer a divina vingança. Mas se cai o guerreiro do Senhor, dirá: acaso não haverá recompensa para o justo? Certo que sim, pois há um Deus que julga os homens sobre a terra.

Claro está que não se haveria de dar morte aos pagãos se se pudesse refreá-los por outro qualquer meio, de modo que não acometessem nem perseguissem os fiéis e os oprimissem.

Mas por enquanto vale mais acabar com eles que tirar de suas mãos a vara com que haviam de escravizar os justos, e que não sejam os justos que afrouxem suas mãos à iniquidade.

Pois, porque, se não é lícito em absoluto ao Cristão ferir com a espada, como o Pregoeiro de Cristo exortava os soldados a se contentar com o soldo, sem proibir-lhes continuar em sua profissão? Isto suposto, se por particular providência de Deus se permite ferir com a espada os que abraçam a carreira militar, sem aspirar outro gênero de vida mais perfeito, a quem, pergunto eu, será mais permitido que os valentes, por cujo braço esforçado retemos ainda a fortaleza da cidade de Sión, como baluarte protetor aonde possa se acolher o povo santo, guardião da verdade, depois de expulsos os violadores da Lei Divina? Dissipai, pois, e desfazei sem temor a essas pessoas que só respiram guerra; passai à espada aos que semeiam o medo e a dúvida entre vossas filas; expulsai da cidade do Senhor todos os que praticam a iniquidade e ardem em desejos de saquear todos os tesouros do povo cristão guardados dentro dos muros de Jerusalém, que só cobiçam se apoderar do santuário de Deus e profanar todos nossos santos mistérios. Desembainhe-se a dupla espada, espiritual e material, dos cristãos, e descarregue com força sobre a testa dos inimigos, para destruir tudo o que se ergue contra a ciência de Deus, ou seja, contra a fé dos seguidores de Cristo; não digam nunca os fiéis 'Onde está seu Deus'?

Quando eles partirem em fuga e derrotados, voltará então à sua propriedade e à sua casa, da que diz de forma irada o Evangelho: Eis que vossa casa ficará deserta e um profeta queixa-se desse modo: Tive que me ausentar de minha casa e templo e deixar abandonada minha propriedade. Se, então se cumprirá aquele vaticínio profético que diz: O Senhor redimiu seu povo e o livrou das mãos do poderoso; e virão e cantarão hinos a Deus no monte Sión, e se juntarão aos bens do Senhor.

Regozija-te, Jerusalém, porque chegou o tempo da visita de teu Deus. Enche também de júbilo, desertos de Jerusalém, e prorrompei em celebrações, porque o Senhor aliviou a aflição de seu povo, redimiu sua cidade santa e levantou poderosamente seu braço frente aos olhos de todas as nações. Virgem de Israel, havias caído sem que houvesse quem te desse a mão para te levantar. Ergue-te agora, sacode o pó, Virgem cativa filha de Sion.

Levanta-te, repito, suba ao topo de tuas torres e vislumbra dalí os rios caudalosos de gozo e alegria que o Senhor faz correr para ti. De agora em diante não te chamarão "a abandonada", nem tua terra se verá por mais tempo desolada, porque o Senhor se comprouve em ti e voltarás a ter teus campos repovoado. Olhe ao redor e veja: todos se juntaram para vir a ti. Eis aí o socorro que te foi enviado do alto. Por eles a ti será cumprida a antiga promessa: te colocarei para a glória dos séculos e gozo de geração em geração; mamarás o leite das nações e te criarão o valor dos reis. E também, como a mãe acaricia seus filhinhos, assim também eu os aliviarei e em Jerusalém serás aliviado. Não ves com quantos testemunhos antigos fica aprovada vossa milícia e como se cumprem ante vossos olhos os oráculos alusivos à cidade das virtudes do Senhor? Mas de forma que o sentido literal não impeça que entendamos e creiamos no espiritual, e que a interpretação que agora damos na terra às palavras dos profetas não obste para que esperemos vê-las cumpridas na eternidade gloriosa; não seja pelo que vemos que se nos desvaneça o que diz a fé, e pelo pouco que temos percamos a esperança nas copiosas riquezas, e, por fim, pela certeza do presente esqueçamos o futuro. Quanto ao mais, a glória temporal da Jerusalém terrena não só se destrói ou diminui os gozos que teremos na celestial, senão que os aumenta, se temos bastante fé e não duvidemos que esta daquí embaixo só é uma imagem da dos céus, que é nossa mãe.

CAPÍTULO IV

Do modo de viver dos Soldados de Cristo

Mais para imitação ou confusão de nossos soldados que não militam com certeza para Deus, senão para o diabo, digamos brevemente qual há de ser a vida e os feitos dos Cavaleiros de Cristo e como hão de se haver em tempo de paz e em dias de guerra, para que se veja claramente quanta é a diferença entre a milícia do século e a de Deus. E antes de tudo, tanto em uma como na outra dá-se grandíssima importância à obediência e tem-se em muito alto conceito a disciplina, sabendo todos quanta verdade se encerra naqueles [ditos] da Escritura: o filho indisciplinado perecerá. E naquele outro: O desobedecer ao Senhor é como o pecado de magia, e como crime de idolatria o não querer se submeter. Vão e vem estes estes bons soldados a um sinal de mando, põem as roupas que ordena o Capitão, não tomam alimento nem vestem uniforme fora dos estipulados por ele. E o mesmo quanto ao comer e no que vestir evitam todo o superfluo, satisfeitos com o necessário. Levam a vida comum dentro de alegre, mas modesta e sóbria camaradagem, sem esposas e sem filhos. Para que nada falte à perfeição evangélica, não possuem nada de próprio, pensando só em conservar entre si a união e a paz. Direis que toda aquela multidão de homens tem um só coração e uma só alma; até tal ponto que nenhum deles quer se orientar por sua própria vontade, senão seguir em tudo a daquele que manda. Jamais estão ociosos nem vagam daqui para lá em busca de curiosidades, senão que durante todo o tempo, em que não estão em campanha, o que raras vezes ocorre, a fim de comer o pão gratuito, ocupam-se em limpar, remendar, tirar o môfo, compor e reparar tanto as armas como as vestimentas, para preservá-los e conservá-los contra os desgastes do tempo e do uso; e quando não isso, obedecem o que lhes ordena o capitão e trabalham no que é necessário para todos.

Não os vereis favorecer pessoas; respeitam e obedecem sempre ao representante de Deus, sem se preocupar em se é ou não é o mais nobre. Recatam-se mutuamente de mostras de honra e deferencias, suportam as obrigações uns dos outros, cumprindo com isso a Lei de Cristo. Não se estilam entre eles palavras arrogantes, nem ocupações inúteis, nem risos sem compostura, nem o mais leve murmúrio; e se algum incorresse nisso, não ficaria sem corretivo.

Tem aversão à prestidigitação e jogos de azar; tampouco se dedicam à caça e não se permitem à falconagem, embora tão generalizada. Abominam cômicos, magos e bufões, cujo trato evitam com cuidado; detestam as toadas engraçadas, as comédias e toda a linha de espetáculos, como puras vaidades e necessidades enganosas.

Cortam o próprio cabelo, sabendo pelos ensinamentos do apóstolo que é uma vergonha para os homens o pentear cabelos compridos. Nunca enfeitam os cabelos, raras vezes tomam banho, andam com a barba cerrada, geralmente cobertos de poeira e enegrecidos pelas cotas dde malha e queimados pelo sol.

Ao se aproximar o combate, armam-se de fé em sua alma e cobrem-se por fora de ferro, não de ouro, a fim de que assim, bem equipados de armas, não engalanados de jóias, infundam medo a seus inimigos sem provocar sua cobiça. Procuram cavalos fortes e velozes, não formosos e bem arreiados, pensando mais em vencer que em ostentar altivez, e o que desejam não é precisamente causar admiração e pasmo, senão turbação e medo.

E até começar a luta, não se lançam a ela impetuosos e de forma turbulenta, como empurrados pela precipitação, senão com suma prudência e extrema cautela, ordenando-se todos em coluna cerrada para se apresentar à batalha, segundo lemos, que costumava fazer o povo de Israel. Mostrando-se em tudo verdadeiros israelitas, se adiantam ao combate pacífica e sossegadamente. Mas apenas o clarim dá o sinal de ataque, deixando subitamente sua natural benignidade, parecem gritar com o salmista: Não odiei, Senhor, àqueles a que tinhas aversão? Não me recriminastes ante a conduta de teus inimigos? E assim davam carga sobre seus adversários, tal como entrassem em um rebanho de cordeiros, sem que, apesar de seu escasso número, se intimidem ante a crudelíssima barbárie e ingente multidão das hostes contrárias. É que aprenderam a confiar não em suas próprias forças, senão no poder do Senhor Deus dos exércitos, em quem está a vitória, o qual, segundo se diz nos Macabeus, pode facilmente por meio de um punhado de valentes acabar com grandes multidões, e sabe livrar seus soldados com igual arte das mãos de poucos com de muitos; porque o triunfo não está em que um exército seja numeroso, senão que a fortaleza provem do céu.

Experiência frequentíssima tem disto, porque mais de uma vez lhes ocorreu derrotar e afugentar o inimigo, lutando um contra mil e dois contra dez mil.

Enfim, estes Soldados de Cristo, de modo maravilhoso e singular, mostram-se tão mansos como cordeiros e tão ferozes como leões, não se sabendo se lhe hás de chamar monges ou guerreiros ou dar-lhes outro nome mais apropriado que abarque a ambos, pois conseguem irmanar a mansidão de uns com o valor e a fortaleza de outros. Acerca de tudo isso, que dizer, senão que tudo isso é obra de Deus, e obra admirável a nossos olhos? Eis aqui os homens fortes que o Senhor foi elegendo de um confim a outro do mundo, entre os mais bravos de Israel para faze-los soldados de sua escolta, a fim de guardar o leito do verdadeiro Salomão, ou seja o Santo Sepulcro, em cujo redor os pôs para estar alertas como fiéis sentinelas armados de espada e habilíssimos na arte da guerra.



A Regra Primitiva dos Templários

Trad. Monserrat Robrenyo, Barcelona, 2000. Trad. Mrs. Judith Upton-Ward (Reimpressa com a amável permissão do autor)
Esta tradução do original, ou primitiva, Regra dos Templários está baseada na edição de 1886 de Henri de Curzon, A Regra do Templo como Manual Militar, ou Como Desempenhar um Posto de Cavalaria. Representa a Regra dada aos recém originados Cavaleiros do Templo pelo Concílio de Troyes, 1129, embora "não se deva esquecer que a Ordem já existia durante vários anos e desenvolvido suas próprias tradições e costumes antes da aparição de Hugues de Payens no Concílio de Troyes. Portanto, até certo ponto, a Regra Primitiva é baseada em práticas já existentes".(Upton-Ward, p.11)
Esta tradução é cópia da "A Regra dos Templários" de Judith Upton-Ward, Woodbridge: The Boydell Press, 1992, e foi reeditada com sua permissão. A Regra dos Templários inclui uma introdução de Upton-Ward; também a Regra dos Templários Primitiva e seus estatutos hierárquicos, castigos sobre normas de conduta, vida conventual, capítulos ordinários, admissão na Ordem e um apêndice por Matthew Bennett, "A Regra do Templo como um Manual Militar, ou Como desempenhar um Posto de Cavalaria".
O livro é extremamente recomendável para aqueles interessados nos Templários ou em qualquer ordem militar. Agora também em formato econômico.
As notas para a Regra Primitiva, facilitada por Mrs. Upton-Ward na Regra dos Templários, não se incluem neste texto. São de considerável interesse e deveriam ser consultadas por aqueles que desejam estudar a Regra com mais detalhe.

Nota do tradutor para o Português:

Toda a matéria relativa à Regra Primitiva dos Templários, inclusive a que antecede a presente Nota, foi extraída do texto original em Espanhol constante do site www.osmtj.org - Espanha.

A Regra Primitiva

Aqui começa o prólogo à Regra do Templo 1. Dirigimo-nos, em primeiro lugar, a todos aqueles que com discernimento rechaçam sua própria vontade e desejam de todo o coração servir a seu rei soberano como cavaleiro; levar com supremo afã, e permanentemente, a mui nobre armadura da obediência. E, portanto, nós os convidamos a seguir os escolhidos por Deus entre a massa perdida aos quais propiciou, em virtude de sua sutil misericórdia, defender a Santa Igreja, e que vós ansiais abraçar para sempre.

2. Sobre todas as coisas, quem quer ser um cavaleiro de Cristo escolhendo essas sagradas ordens em sua profissão de fé, deve unir simples diligência e firme perseverança, que é tão valiosa e sagrada e se revela tão nobre, que se se mantém impoluta para sempre, merecerá acompanhar os mártires que deram suas almas por Cristo Jesus. Nesta ordem religiosa floresceu e se revitaliza a ordem de cavalaria. A cavalaria, apesar do amor pela justiça que constitui seu dever, não cumpriu com seus deveres para com os pobres, viúvas, órfãos e igrejas defendendo-os, antes se aparelharam para destruir, despojar e matar. Deus, que atua conforme para conosco, e nosso salvador Cristo Jesus, enviou seus seguidores, desde a cidade Santa de Jerusalém aos quartéis da França e Borgonha, para nossa salvação e exemplo da verdadeira fé, pois não cessam de oferecer suas vidas por Deus em piedoso sacrifício.

3. Ante isso nós, em deleite e irmanados, por requerimento do Mestre Hugues de Payens, por quem a mencionada ordem de cavalaria foi fundada com a graça do Espírito Santo, nos reunimos em Troyes, dentre as provícias mais além das montanhas, na festa de São Hilário, no ano da encarnação de Cristo Jesus de 1128, no nono ano após a fundação da anteriormente mencionada ordem de cavalaria. Da conduta nos princípios da Ordem de Cavalaria escutamos em capítulo comum dos lábios do anteriormente citado Mestre, Irmão Hugues de Payens, e de acordo com as limitações de nosso entendimento, o que nos pareceu correto e benéfico elogiamos, e o que nos pareceu errôneo rechaçamos.

4. E tudo o que aconteceu naquele Conselho não pode ser contado nem recontado e para que não seja tomado por precipitação nossa, senão considerado com sábia prudência, desejamos a discrição de ambos, nosso honorável padre o Senhor Honório e do nobre Patriarca de Jerusalém, Esteban, que conhece os problemas do Leste e dos Pobres Cavaleiros de Cristo; por conselho do concilio comum o aprovamos unanimemente. Embora um grande número de padres religiosos reunidos em capítulo aprovou a veracidade de nossas palavras, não obstante não devemos silenciar os verdadeiros pronunciamentos e juízos que emitiram.

5. Portanto, eu, Jean Michel, a quem foi encomendado e confiado tão divino serviço, pela graça de Deus, serví de humilde escriba do presente documento por ordem do conselho e do venerável padre Bernardo, abade de Clairvaux.

O nome dos Padres que compareceram ao Concílio

6. Primeiro foi Mateo, bispo de Albano, pela graça de Deus, legado da Santa Igreja de Roma; R[enaud], arcebispo de Reims; H[enri}, arcebispo de Sens; e seus clérigos: G[ocelin], bispo de Soissons; o bispo de Paris; o bispo de Troyes; o bispo de Orlèans; o bispo de Auxerre; o bispo de Meaux; o bispo de Chalons; o bispo de Laon; o bispo de Beauvais; o abade de Vèzelay, que posteriormente foi arcebispo de Lyon e legado da Igreja de Roma; o abade Citeaux; o abade de Pontigny; o abade de Trois-Fontaines; o abade de St. Denis de Reims; o abade de St-Etienne de Dijon; o abade de Molesmes; ao anteriormente mencionado B[ernard], abade de Clairvaux: cujas palavras o anteriormente citado elogiou abertamente. Também estiveram presentes o mestre Aubri de Reims; mestre Fulcher e vários outros que seria tedioso mencionar. E dos outros que não se mencionaram, é importante assentar, neste assunto, de que são amantes da verdade: eles são o conde Theobald; o conde de Nevers; Andrè de Baudemant. Estiveram no concílio e atuaram com perfeito e cuidadoso estudo selecionando o correto e descartando o que não lhes parecia justo.

7. E também estava presente o Irmão Hugues de Payens, Mestre de Cavalaria, com alguns dos irmãos que o acompanharam. Estes eram Irmão Roland, Irmão Godefroy, e Irmão Geoffroi Bisot, Irmão Payens de Montdidier, Irmão Archambaut de Saint-Amand. O próprio Mestre Hugues com seus seguidores anteriormente citados, expuseram os costumes e observâncias de seus humildes começos e um deles disse: 'Ego principium qui est loquor vobis', que significa "Eu que falo a vós sou o princípio" segundo minha lembrança pessoal.

8. Agradou ao concílio ordinário que as deliberações e o estudo das Sagradas Escrituras, que se examinaram profundamente com a sabedoria de meu senhor H[onorius], papa da Santa Igreja de Roma, e do Patriarca de Jerusalém, se fizessem ali em conformidade com o capítulo. Juntos, e de acordo com os Pobres Cavaleiros de Cristo do Templo que está em Jerusalém, deve-se pôr por escrito e não esquecido, zelosamente guardado, de tal forma que para uma vida de observância possam se referir a seu criador como mais doce que mel e em conformidade com Deus, cuja piedade parece óleo e nos permite ir a Ele a quem desejamos servir 'Per infinita saecula saeculorum.Amen'.

Aqui começa a Regra dos Pobres Cavaleiros do Templo

9. Vós, os que renunciais à vossa vontade, e vós, os outros, os que servís a um rei soberano com cavalos e armas para salvação de vossas almas e por tempo estabelecido, atendereis com desejo virtuoso ao ouvir as matinas e ao serviço completo, segundo a lei canônica e aos costumes dos mestres da Cidade Santa de Jerusalém. Oh vós, veneráveis irmãos, que Deus esteja convosco, se prometeis desprezar o mundo por perpétuo amor a Deus, desterrar as tentações de vosso corpo, sustentado pelos alimentos de Deus, beber e ser instruído nos mandamentos de Nosso Senhor, ao final do ofício divino nenhum deve temer entrar em batalha se, por fim, usais a tonsura.

10. Mas se qualquer irmão for enviado para o trabalho da casa e pela Cristandade no Leste - algo que cremos ocorrerá frequentemente - e não puder ouvir o divino ofício, deverá dizer em lugar das matinas treze pai-nossos; sete por hora e nove às vésperas. E todos juntos ordenamos que assim o faça. Mas aqueles que foram enviados e não puderem voltar para assistir ao divino ofício, se lhes for possível às horas estabelecidas, que não deverão ser omitidas, render a Deus sua homenagem.

A Forma em que devem ser recebidos os Irmãos

11. Se qualquer cavaleiro secular, ou qualquer outro homem, deseja deixar a massa de perdição e abandonar a vida secular escolhendo a vossa comunidade, não consintais em recebê-lo imediatamente, porque segundo disse meu Senhor São Paulo: 'Probate spiritus si ex Deo sunt'. Que quer dizer: "Prove-lhe a alma para ver se vem de Deus". Sem embargo, se a companhia de seus irmãos lhe deve ser concedida, deixai que a ele seja lida a Regra, e se deseja explicitamente obedecer os mandamentos da Regra, e compraz tanto ao Mestre quanto aos irmãos o receber-lhe, deixai-o revelar seu desejo perante todos os irmãos reunidos em capítulo e fazer sua solicitação com coração digno.

Sobre Cavaleiros excomungados

12. Onde saibais que se concentram cavaleiros excomungados, aí os obrigamos a ir; e se alguém deseja se unir à ordem de cavalaria proveniente de regiões distantes, não devereis considerar tanto o valor terrenal como o valor da eterna salvação de sua alma. Nós ordenamos que seja recebido condicionalmente, que se apresente perante o bispo da província e o comunique de sua intenção. E, quando o bispo o houver escutado e absolvido, o enviará ao Mestre e irmãos do Templo, e se sua vida for honesta e merecedora de sua companhia, se parece justo ao Mestre e irmãos, deixai que seja piedosamente recebido; e se morrer durante esse tempo, pela angústia e tormento que sofreu, deixai que se lhe outorguem todos os favores da irmandade, dados a cada um dos Pobres Cavaleiros do Templo.

13. Sob nenhuma outra circunstância deverão os irmãos do Templo compartilhar da companhia dos indiscutivelmente excomungados, nem que se fiquem com seus pertences; e isso deve ser encarecidamente proibido porque seria terrível que fossem assim mesmo repudiados. Mas, se só lhe foi proibido escutar o Divino Ofício, é certamente possível permanecer em sua companhia, assim como ficar com seus pertences, entregando-os à caridade com a permissão de seu comandante.

Sobre não aceitar meninos

14. Embora a regra dos santos padres permita receber meninos na vida religiosa, nós o desaconselhamos. Porque aquele que deseje entregar seu filho eternamente na ordem de cavalaria deverá educá-lo até que seja capaz de usar as armas com vigor e liberar a terra dos inimigos de Cristo Jesus. Então, que sua mãe e pai o levem à casa e que sua petição seja conhecida pelos irmãos; e é muito melhor que não tome os votos quando menino, senão ao ser maior, pois é conveniente que não se arrependa disso, do que o faça. E em seguida que seja posto à prova de acordo com a sabedoria do Mestre e irmãos, conforme a honestidade de sua vida ao solicitar ser admitido na irmandade.

Sobre os que estão demasiado tempo de pé na Capela

15. Foi-nos feito saber, e o escutamos de testemunhas presenciais, que de forma imoderada e sem restrição alguma, vós escutais o divino ofício de pé. Nós não ordenamos que comportais dessa forma, ao contrário o desaprovamos. Dispomos que, tanto os fortes quanto os debilitados, para evitar desordens, cantem o salmo chamado Venite com a invitatória e o hino sentados, e digam suas orações em silêncio, em voz baixa não vociferando, para não perturbar as orações dos outros irmãos.

16. Mas ao final dos salmos, quando se canta o 'Gloria Patri' em reverência à Santíssima Trindade, vos poreis de pé e vos inclinareis frente ao altar, enquanto os debilitados ou enfermos só inclinarão a cabeça. Portanto, mandamos que, quando a explicação dos Evangelhos seja lida, e se cante o 'Te Deum laudamus', e enquanto se cantem os louvores, e as matinas terminam, vós estejais de pé. Desta mesma forma determinamos que permaneceis de pé durante as matinas e em todas as horas de Nossa Senhora.

Sobre a vestimenta dos Irmãos

17. Dispomos que todos os hábitos dos irmãos sejam de uma só cor, quer seja branco, negro ou marrom. E sugerimos que tanto no inverno como no verão, se for possível, usem capas brancas; e a ninguém que não pertença à mencionada cavalaria de Cristo lhe será permitido ter uma capa branca para que aqueles que hajam abandonado a vida em obscuridade se reconheçam uns aos outros como seres reconciliados com seu criador pelo símbolo de seus hábitos brancos: que significa pureza e completa castidade. A Castidade é certeza no coração e saúde no corpo. Porque se um irmão não toma votos de castidade não pode aceder ao eterno descanso nem ver a Deus, pela promessa do apóstolo que disse: 'sectamini cum omnibus et castimoniam sine qua nemo Deum videbit'. Que significa: "Luta para levar a paz a todos, mantem-te casto, sem o qual ninguém pode ver a Deus".

18. Mas essas vestimentas deverão se manter sem riquezas e sem nenhum símbolo de orgulho. E assim, nós exigimos que nenhum irmão use pele em suas vestimentas, nem qualquer outra coisa que não pertença ao uso do corpo, nem tão sequer uma manta que não seja de lã or cordeiro. Concordamos em que todos tenham o mesmo, de tal forma que possam se vestir e se despir, e por e tirar as botas com facilidade. E o alfaiate, ou quem faça suas funções, deverá se mostrar minucioso e cuidar que se mantenha a aprovação de Deus em todas as coisas mencionadas, para que os olhos dos invejosos e mal intencionados não possam observar que as vestimentas sejam demasiado compridas ou curtas; deverá distribuí-las de tal maneira que sejam da medida de quem as há de usar, segundo a corpulência de cada um.

19. E se algum por orgulho ou arrogância deseja ter para ele um melhor e mais fino hábito, dái-lhe o pior. E aqueles que recebam vestimentas novas deverão imediatamente devolver as velhas para que sejam entregues a escudeiros e sargentos, e com frequencia aos pobres, segundo o que considere conveniente o encarregado desse mister.

Sobre as Camisas

20. Entre outros assuntos sobre os que regulamos, devido ao intenso calor existente no Leste, desde a Páscoa até Todos os Santos, graças à compaixão e de nenhuma forma como de direito, uma camisa de linho será entregue ao irmão que assim o solicite.

Sobre a Roupa de Cama

21. Ordenamos por unanimidade que cada homem tenha a roupa e lençóis de acordo com o juízo de seu Mestre. É nosso propósito que um colchão, um almofadão e uma colcha são suficientes para cada um; e àquele que lhe falte um desses pode usar uma coberta e uma colcha de linho que seja sempre de fio fino, e dormirão sempre vestidos com camisa e calça, sapatos e cinturões, e onde repousem deverá sempre haver uma luz acesa até a manhã. E o Alfaiate se assegurará que os irmãos estejam tão bem tonsurados que possam ser examinados tanto de frente como de costas; e nós ordenamos que vós adirais a essa mesma conduta no tocante a barbas e bigodes para que nenhum excesso se mostre em seus corpos.

Sobre Sapatos pontiagudos e Cadarços

22. proibimos os sapatos pontiagudos e os cadarços e condenamos que um irmão os usem; nem os permitimos àqueles que servem na casa por tempo determinado; melhor, proibimos que os usem em qualquer circunstância. Porque é manifesto e bem sabido que essas coisas abomináveis pertencem aos pagãos. Também não deverão usar nem o cabelo nem o hábito demasiado compridos. Porque aqueles que servem ao soberano Criador devem surgir da necessidade dentro e fora mediante a promessa do próprio Deus que disse: 'Estote mundi quia ego mundus sum'. Que quer dizer: "Nasça como eu nasço".

Como devem comer

23. No palácio, ou o que deveria se chamar refeitório, devereis comer juntos. Porém, se estais necessitado de algo, pois não estais acostumados aos utilizados pelos religiosos, em voz baixa e em particular devereis pedir o que necessitais na mesa com toda a humildade e submissão. Porque o Apósotolo disse: 'Manduca panem tuo cum silentio'. Que significa: "Come teu pão em silêncio". E o Salmista: 'Posui ore meo custodiam'. Que quer dizer: "Eu reprimi minha língua". Que significa que "Eu creio que minha língua me trairia" o que vem a ser "Calei para não falar mal".

Sobre a Leitura da Lição 24. Sempre, durante a refeição e ceia no convento, que se leiam as Sagradas Escituras, se isso for possível. Se amamos a Deus, suas Santas palavras e seus Santos Mandamentos desejaremos escutar atentamente; e o leitor do texto exigirá silêncio antes de começar a ler.

Sobre Recipientes e Cálices

25. Devido à escassez de recipientes os irmãos comerão aos pares, de tal forma que um possa observar de mais perto o outro para que nem a austeridade nem a abstinência em segredo sejam introduzidas na refeição da comunidade. E nos parece justo que cada irmão tenha a mesma quantidade de vinho em sua taça.

Sobre comer Carne

26. Deverá ser suficiente comer carne três vezes por semana, exceto no Natal, Todos os Santos, Assunção e na festividade dos doze apóstolos. Porque se entende que o costume de comer carne corrompe o corpo. Porém, se num jejum em que se deve suprimir a carne cair numa terça-feira, no dia seguinte será dada uma grande porção aos irmãos. E nos Domingos todos os irmãos do Templo, os capelães e clérigos receberão dois ágapes de carne em honra à santa ressurreição de Cristo Jesus. E os demais da casa, que inclui os escudeiros e sargentos, deverão se contentar com uma refeição e ser agradecidos ao Senhor por ela.

Sobre as refeições durante a Semana

27. Sobre os outros dias da semana, que são segunda-feira, quarta-feira e inclusive Sábados, os irmãos tenham duas ou três refeições de vegetais ou outros pratos comidos com pão; e nós cremos que seja suficiente e ordenamos que assim seja, de tal maneira que aquele que não comer em uma refeição o faça na outra.

Sobre a refeiçao de Sexta-feira

28. Às Sextas-feiras, que se ofereça à toda a congregação refeição quaresmal, oriunda da reverência pela paixão de Cristo Jesus; e fareis abstinência desde a festividade de Todos os Santos até a Pácoa, exceto no dia de Natal, da Assunção e da festividade dos doze apóstolos. Porém, os irmãos debilitados ou enfermos não deverão ser obrigados a isso. Desde a Páscoa até a festa de Todos os Santos podem comer duas vezes, conquanto não seja abstinência geral.

Sobre dar Graças

29. Sempre depois de cada refeição ou ceia todos os irmãos deverão dar graças a Deus na igreja e em silêncio se essa se encontra no lugar onde fazem a refeição, e se não estiver no mesmo lugar onde hajam tomado a refeição, com humildade deverão dar graças a Cristo Jesus, que é o Senhor que Provê. Deixai que os pedaços de pão rompido sejam dados aos pobres, e os que estejam em rodelas inteiras sejam guardados. Embora a recompensa dos pobres seja o reino dos céus, se oferecerá aos pobres sem qualquer dúvida, e a fé Cristã os reconhecerá entre os seus; portanto, concordemos que uma décima parte do pão seja entregue a vosso Esmoleiro.

Sobre a Merenda

30. Quando cai o sol e começa a noite escutais o sinal do sino ou a chamada à oração, segundo os costumes do país, e acudís todos ao capítulo. Porém, dispomos que primeiro merendeis, se bem que deixamos a tomada desse refrigério ao arbítrio e discrição do Mestre. Quando quiserdes água ou ordenais, por caridade, vinho aguado, que se lhes dê com comedimento. Certamente, não deverá ser em excesso, senão com moderação. Porque Salomão disse: 'Quia vinunfacit apostatare sapientes'. Que quer dizer: "que o vinho corrompe os sábios".

Sobre se manter em Silêncio

31. Quando os irmãos saírem do capítulo não devem falar abertamente, exceto em uma emergência. Deixai que cada um vá para sua cama tranquilo e em silêncio, e se necessita falar a seu escudeiro, deverá dizer em voz baixa. Mas, se por casualidade, à saída do capítulo, a cavalaria ou a casa tem um sério problema que deve ser resolvido antes da manhã, entendemos que o Mestre ou o grupo de irmãos maiores que governam a Ordem pelo Mestre, podem falar apropriadamente. E por esta razão obrigamos que seja feita desta maneira.

32. Porque está escrito: 'In multiloquio non effugies peccatum'. Que quer dizer: "O falar em demasia não está livre de pecado". E em algum outro lugar: 'Mors et vita in manibus lingue'. Que significa: "A vida e a morte estão sob o poder da língua". E dentro desse entendimento nós conjuntamente proibimos palavras vãs e ataques estrondosos de riso. E se algo se disse durante essa conversa que não deveria ter sido dito, ordenamos que ao recostar-vos rezeis um pai-nosso com bastante humildade e sincera devoção.

Sobre os Irmãos Convalescentes

33. Os irmãos que, devido aos trabalhos da casa, padeçam de enfermidade, podem se levantar às matinas com o consentimento e permissão do Mestre ou daqueles que se encarreguem desse mister. Deverão dizer em lugar das matinas treze pai-nossos, assim fica estabelecido, de tal forma e maneira que suas palavras reflitam seu coração. Assim o disse David: 'Psallite sapienter'. Que significa: "Canta com sabedoria". E igualmente disse David: 'In conspectu Angelorum psallam tibi'. Que significa: "Eu cantarei para ti ante os anjos". E deixai que isso seja sempre assim e à discrição do Mestre ou daqueles encarregados de tal mister.

Sobre a Vida em Comunidade

34. Lemos nas Sagradas Escrituras: 'Dividebatur singulis prout cuique opus erat'. Que significa: "A cada um lhe será dado segundo sua necessidade". Por essa razão nós decidimos que nenhum estará acima de vós, senão que todos cuidareis dos enfermos; e aquele que está menos enfermo dará graças a Deus e não se preocupará; e permitireis que aquele que estiver pior se humilhe mediante sua debilidade e não se orgulhe pela piedade. Desse modo todos os membros viverão em paz. E proibimos a todos que abracem a excessiva abstinência, antes que firmemente mantenham a vida em comunidade.

Sobre o Mestre

35. O Mestre pode, a quem lhe apraza, entregar o cavalo e a armadura e o que deseje de outro irmão, e o irmão cuja coisa pertencia não se sentirá vexado nem aborrecido: por que se se aborrece irá contra Deus.

Sobre dar Conselhos

36. Permitir só àqueles irmãos que o Mestre reconhece que darão sábios e bons conselhos sejam chamados para a reunião; e assim os ordenamos, e que de nenhuma outra forma alguém possa ser escolhido. Porque quando ocorrer que se deseje tratar de materias serias como a entrega de terra comunal, ou falar dos assuntos da casa, ou receber a um irmão, então, se o Mestre o desejar, ser apropriado reunir a congregação inteira para escutar o conselho de todo o capítulo; e o que considere o Mestre melhor e mais benéfico, deixar que assim se faça.

Sobre os Irmãos enviados a Ultramar

37. Os Irmãos que sejam enviados a diversos países do mundo deverão observar os mandatos da Regra segundo sua habilidade e viver sem desaprovação no que diz respeito a carne e o vinho, etc, para que recebam elogios de estranhos e não macular por feitos e palavras os preceitos da Ordem, e para ser um exemplo de boas obras e sabedoria; acima de tudo, para que aqueles com os quais se associem e em cuja pousadas repousem, sejam recebidos com honra. E a ser possível, a casa onde durmam e se hospedem que não fique sem luz durante a noite, para que os tenebrosos inimigos não os conduzam à maldade, dado que Deus assim o proibe.

Sobre Manter a Paz

38. Cada irmão deve se assegurar de não incitar outro à ira ou aborrecimento, porque a soberana piedade de Deus vê o irmão forte de forma igual que a um debilitado, em nome da Caridade.

Como devem atuar os Irmãos

39. A fim de levar a cabo seus santos deveres, merecer a Glória do Senhor e escapar do temível fogo do inferno, é concorde que todos os irmãos professos obedeçam estritamente a seu Mestre. Porque nada é mais agradável a Cristo Jesus que a obediência. Por esta razão, tão logo seja ordenado pelo pelo Mestre ou em quem haja delegado sua autoridade, deverá ser obedecido sem dilação como se o Cristo o tivesse imposto. Por isso Cristo Jesus pela boca de David disse e é certo: 'Ob auditu auris obdevit mihi'. Que quer dizer: "Me obedeceu tão pronto me escutou".

40. Por esta razão rezamos e firmemente damos como ditame aos irmãos cavaleiros que abandonaram sua ambição pessoal e a todos aqueles que servem por um período determinado, a não sair por povoados ou cidades sem a permissão do Mestre ou de quem o haja delegado, exceto pela noite ao Sepulcro e outros lugares de oração dentro dos muros da cidade de Jerusalém.

41. Lá, os irmãos irão aos pares, e de outra forma não poderão sair nem de dia nem de noite; e quando se detiverem em uma pousada, nenhum irmão, escudeiro ou sargento pode acudir aos aposentos de outro para ve-lo ou falar com ele sem permissão, tal como foi dito. Ordenamos, por unânime consentimento, que nesta Ordem regida por Deus, nenhum irmão deverá lutar ou descansar segundo sua vontade, senão seguindo as ordens do Mestre, a quem todos devem se submeter, para que sigam as indicações de Cristo Jesus, que disse: 'Non veni facere voluntatem meam, sed ejus qui meset me Patris'. Que significa: "Eu não vim para fazer minha própria vontade, senão a vontade de meu pai, quem me enviou".

Como devem Possuir e Intercambiar

42. Sem a permissão do Mestre ou de quem em seu lugar ostente o cargo, que nenhum irmão intercambie coisa alguma com outro, nem mesmo peça, a menos que seja de escasso valor ou nulo.

Sobre Fechos

43. Sem permissão do Mestre ou quem o represente, nenhum irmão terá uma bolsa ou sacola que possa ser fechada; mas os diretores de casas ou províncias e o Mestre não observarão isso. Sem o consentimento do Mestre ou seu comandante, que nenhum irmão tenha carta de seus parentes ou outras pessoas; mas se tem permissão, e assim o quer o Mestre ou comandante, essas cartas podem ser lidas.

Sobre Presentes de leigos

44. Se algo que não se pode conservar, como a carne, for presenteado em agradecimento a um irmão por um leigo, este o apresentará ao Mestre ou ao Comandante de gêneros alimentícios. Porém se ocorre que algum de seus amigos ou parentes deseje presentear só a ele, que não se aceite sem a permissão do Mestre ou seu delegado. E mais, se o irmão recebe qualquer outra coisa de seus parentes, que não o aceite sem permissão do Mestre ou de quem ostenta o cargo. Especificamos que os comandantes ou mordomos, que estão a cargo desses ofícios, que não se atenham à citada regra.

Sobre Faltas

45. Se algum irmão, falando ou em tropa indisciplinada, ou de algum outro modo comete um pecado venial, deverá voluntariamente dize-lo ao Mestre para se redimir com o coração limpo. Se não costuma a se redimir desse modo, que receba uma penitência leve, mas se a falta é muito séria, que se alije da companhia de seus irmãos de tal forma que não coma nem beba na mesa com eles, senão sozinho; e se submeterá à piedade e juízo do Mestre e irmãos, para que seja salvo do Juízo Final.

Sobre faltas Graves

46. Acima de tudo, devemos nos assegurar que nenhum irmão, poderoso ou não, forte ou debilitado, que deseje promover gradualmente reinvidicações orgulhosas, que defenda seu próprio crime e permaneça sem castigo. Porém, se não quiser se submeter por isso, que receba um castigo maior. E se misericordiosas orações do cosnselho se rezam por ele a Deus, e ele não quiser se emendar, senão que se orgulha mais e mais disso, que seja erradicado do renbanho piedoso, segundo o que o apóstolo disse: 'Auferte malum ex vobis'. Que quer dizer: "Aparta os malvados dentre os teus". É necessário para vós separar as ovelhas perversas da companhia dos irmãos piedosos.

47. E mais, o Mestre, que deve levar em suas mãos o báculo - e bastão de mando que sustenta as debilidades e fortaleza dos demais, deverá se ocupar disso. Mas também, como meu senhor St. Maxime disse:"Que a misericórdia não seja maior que a falta, nem que o excessivo castigo conduza o pecador a regressar às suas más ações".

Sobre a Maledicência

48. Mandamos, por divino conselho, o evitar as pragas da inveja, maledicência, despeito e calúnia. Portanto, cada um deve guardar zelosamente o que o apóstolo disse: 'No sis criminator et susurro in populu'. Que significa: "Não acuses ou prejudique o povo de Deus". Mas quando um irmão saiba com certeza que seu companheiro pecou, em privado e com fraternal misericórdia, que seja ele mesmo quem o admoeste secretamente, e, se não quiser escutar, outro irmão deverá ser chamado, e se os recusa a ambos, deverão dizê-lo publicamente perante o capítulo. Aqueles que depreciam seus semelhantes sofrem de terrível cegueira e muitos estão cheios de grande tristeza já que não desarraigam a inveja que sentem dos outros; e por isso, serão arremessados para a imemorável perversidade do demônio.

Que ninguém se orgulhe de suas faltas

49. As palavras vãs se sabe serem pecaminosas, e as dizem aqueles que se orgulham de seu próprio pecado frente ao justo juiz Cristo Jesus, o que fica demonstrado pelas palavras de David: 'Obmutui est silui a bonis'. Que significa: "Deveria inclusive refrear-se de falar bem e observar o silêncio". Também prevenis falar mal para evitar a desgraça do pecado. Ordenamos e firmemente proibimos que um irmão conte a outro irmão, ou a qualquer outro, as ações de valentia que desempenhou em sua vida secular e os prazeres da carne que manteve com mulheres imorais. Deverão ser consideradas faltas cometidas durante sua vida anterior e se sabe que foi expressa por algum outro irmão, deverá silenciá-lo imediatamente; e se não consegue, abandonará o lugar sem permitir que seu coração seja maculado por essas palavras.

Que Ninguém Peça

50. A este costume, entre outros, ordenamos que adotais firmemente: que nenhum irmão explícitamente peça o cavalo ou a armadura de outro. Será feito da seguinte maneira: se a enfermidade de um irmão ou a fragilidade de seus animais ou a armadura for conhecida e portanto não puder fazer o trabalho da casa sem perigo, que vá ao Mestre e exponha a situação a respeito, solicite fé e fraternidade, e se atenha à disposição do Mestre ou de quem ostente seu cargo.

Sobre animais e escudeiros

51. Cada irmão pode ter três cavalos e nenhum mais sem a permissão do Mestre devido a grande pobreza que existe na atualidade na casa de Deus e no Templo de Salomão. A cada irmão permitimos três cavalos e um escudeiro; e se este último serve por caridade, o irmão não deveria castigá-lo pelos pecados que cometa.

Que nenhum Irmão possa ter um bridão ornado

52. Nós proibimos enfaticamente a qualquer irmão que lustre o ouro ou prata de seus bridões, estribos e esporas. Isso se aplica se forem comprados. Porém, se forem presenteados por caridade, os arreios de prata e o ouro, que fiquem tão velhos que não reluzam, que sua beleza não possa ser vista por outros nem ser sinal de orgulho; então se poderá ficar com eles. Porém, se são presenteados novos, que seja o Mestre quem disponha deles como creia oportuno.

Sobre aljavas de Lança

53. Que nenhum irmão traga uma aljava nem para sua lança nem para seu escudo, pois não traz nenhum benefício, ao contrário, pode ser muito prejudicial.

Sobre bolsas de comida

54. Este mandato que estabelecemos é conveniente para todos e por esta razão exigimos seja observado de agora em diante, e que nenhum irmão possa portar uma bolsa para comida de linho ou lã, ou de qualquer outro material que não seja de "profinel".

Sobre a Caça

55. Proibimos coletivamente. Que nenhum irmão cace uma ave com outra. Não é adequado para um religioso sucumbir aos prazeres, senão escutar voluntariamente os mandamentos de Deus, estar frequentemente orando e confessar diariamente implorando a Deus em suas orações o perdão dos pecados que haja cometido. Nenhum irmão pode ter a presunção de ser um homem que caça uma ave com outra. Ao contrário, é apropriado para um religioso agir de modo simples e humildemente, sem rir e falar em demasia, com ponderação e sem levantar a voz. E por esta razão dispomos especialmente a todos os irmãos que não adentrem os bosques com lanças nem arcos para caçar animais, nem que o façam em companhia de caçadores, exceto movidos pelo amor de preservá-los dos pagãos infiéis. Nem devereis ir com cachorros, nem gritar, nem conversar, nem esporear vosso cavalo só pelo desejo de capturar um animal selvagem.

Sobre o Leão

56. É verdade que haveis entregue vossas almas por vossos irmãos, tal como o fez Cristo Jesus, e defender a terra dos incrédulos pagãos, inimigos do filho da Virgem Maria. Esta célebre proibição de caça não inclui de forma alguma o leão. Dado que vem sorrateiro e envolvente para capturar sua presa com suas garras contra o homem, ide com vossas mãos contra ele.

Como podem ter propriedades e homens

57. Esta bondosa nova ordem a cremos emanar das Sagradas Escrituras e da divina providência na Sagrada Terra do Leste. O que significa que esta companhia armada de cavaleiros pode matar os inimigos da cruz sem pecar. Por esta razão julgamos que deveis ser chamados Cavaleiros do Templo, com o duplo mérito e o garbo da honestidade; que podeis possuir terras e mantê-las, vilarejos e campos e os governais com justiça, e imponhais vosso direito tal e como está especificamente estabelecido.

Sobre os Dízimos

58. Vós haveis abandonado as sedutoras riquezas deste mundo e vos haveis submetido voluntariamante à pobreza; e por isso resolvemos que vós que viveis em comunidade possais receber dízimos. Se o bispo da localidade, a quem o dízimo deveria ser entregue por direito, deseja dá-lo por caridade com o consentimento do capítulo, pode doar esses dízimos que possui sua igreja. E mais, se um plebeu guarda os dízimos de seu patrimonio para si, em desfavor da igreja, e deseja cede-los a vós, o podeis aceitar com a permissão do prelado e seu capítulo.

Sobre fazer juízos

59. Sabemos, já que o vimos, que os perseguidores e amantes de lutas e dedicados cruelmente a atormentar os fiéis da Sagrada Igreja e seus amigos, são incontáveis. Pelo claro juízo do conselho, ordenamos que se alguém, nos lugares do Leste ou em qualquer outro sítio, os solicita parecer, porque crentes e amantes da verdade, deveis julgar o fato se a outra parte concorda. Este mesmo mandato se aplicará sempre que algo lhes seja roubado.

Sobre os Irmãos Idosos

60. Dispomos, por se tratar de um conselho compassivo, que os irmãos idosos e debilitados sejam honrados com diligência e recebam a atenção de acordo com sua fragilidade, e cuidados pela autoridade naqueles ofícios necessários para seu bem-estar físico, e que de forma alguma se sintam aflitos.

Sobre os Irmãos Enfermos

61. Que os irmãos enfermos recebam a consideração e os cuidados e sejam servidos segundo os ensinamentos do evangelhista e de Cristo Jesus: 'Infirmus fui et visitastis me'. Que significa: "Estive enfermo e visitastes", e que isso não seja esquecido. Porque aqueles irmãos que estão doentes deverão ser tratados com doçura e cuidado, porque por tal serviço, levado a cabo sem titubear, ganhareis o reino dos céus. Portanto, pedimos ao Enfermeiro que sábia e fervorosamente proveja o necessário aos diversos irmãos enfermos, como carne, legumes, aves e outros manjares, que o devolvam à saúde, segundo os meios e possibilidades da casa.

Sobre os Irmãos Falecidos

62. Quando um irmão passar da vida à morte, algo de que ninguém está excluído, digais missa por sua alma com misericordioso coração, e que o divino ofício seja executado pelos curas que servem ao rei. Vós que servis a caridade por um tempo determinado e todos os irmãos que estiverem presentes frente ao cadáver rezareis cem pai-nossos durante os sete dias seguintes. E todos os irmãos que estão sob a ordem da casa do irmão falecido, depois de tomarem conhecimento da morte, rezarão os cem pai-nossos, como se falou anteriormente, pela misericórdia de Deus. Também pedimos e rogamos, por nossa autoridade pastoral, que um mendigo seja alimentado com carne e vinho durante quarenta dias em memória do finado irmão, tal como o fizesse se estivesse vivo. Nós explicitamente proibimos todos os anteriores oferecimentos que costumavam fazer por vontade própria e sem sensatez os Pobres Cavaleiros do Templo frente a morte de irmãos na celebração da Páscoa ou outras festas.

63. E mais, deveis professar vossa fé com pureza de coração de dia e de noite para que possam se comparar, nesse aspecto, com o mais sábio dos profetas, que disse: 'Calicem salutaris accipiam'. Que quer dizer: "Eu beberei do cálice da salvação". O que significa: "Vingarei a morte de Cristo com minha morte. Porque da mesma maneira que Cristo Jesus deu seu corpo por mim, da mesma forma estou preparado para dar minha alma por meus irmãos". esta é uma oferenda apropriada, um sacrifício vivente e do agrado de Deus.

sobre os Sacerdotes e clérigos que servem a Caridade

64. A totalidade do concílio em conselho os ordena prestar oferendas e todas as classes de esmola, sem importar o modo que possam ser dadas, aos capelães e clérigos e aos demais na caridade por um tempo deteminado. Seguindo os mandatos de Deus nosso Senhor, os que servem a Igreja só podem receber roupa e comida, e não podem ter a presunção de possuir nada, a menos que o Mestre deseje dar-lhes por caridade.

Sobre os Cavaleiros seculares

65. Aqueles que por piedade servem e permanecem convosco por um tempo determinado são cavaleiros da casa de Deus e do Templo de Salomão. Portanto, com piedade rezamos e assim dispomos finalmente que se durante sua permanência o poder de Deus se manifesta a algum deles, por amor a Deus e próprio da fraternal misericórdia, um mendigo seja alimentado durante sete dias para a salvação de sua alma, e cada irmão nessa casa deverá rezar trinta pai-nossos.

Sobre os Cavaleiros Seculares que servem por tempo determinado

66. Ordenamos que todos os cavaleiros seculares que desejem com pureza de coração servir a Cristo Jesus e à casa do Templo de Salomão por um período determinado, que adquiram, cumprindo a norma, um cavalo e armas adequadas e tudo o necessário para a tarefa. E mais, que ambas as partes deem um preço ao cavalo e que esse preço fique por escrito para não ser esquecido, e deixai que tudo o que o cavaleiro, seu escudeiro e seu cavalo necessitem provenha da caridade fraterna segundo os meios da casa. Se durante esse tempo determinado ocorrer que o cavalo morra a serviço da casa, se a casa o puder custear, o Mestre o responderá. Se ao final de sua permanência o cavaleiro deseja regressar a seu país, deverá deixar na casa, por caridade, a metade do preço do cavalo e a outra metade pode, se o desejar, recebe-la das esmolas da casa.

Sobre a Promessa dos Sargentos

67. Dado que os escudeiros e sargentos que desejam caritativamente servir na casa do Templo pela salvação de sua alma e por um período determinado venham de regiões muito diversas, é prudente que suas promessas sejam recebidas para que o inimigo invejoso não os faça se arrepender e renunciar a suas boas intenções.

Sobre as Capas Brancas

68. Por unânime consenso da totalidade do capítulo, proibimos e ordenamos a expulsão, por vicioso, a qualquer que sem discrição haja estado na casa de Deus e dos Cavaleiros do Templo. Também, que os sargentos e escudeiros não tenham hábitos brancos, dado que esse costume trouxe grande desonra à casa, pois nas regiões além das montanhas falsos irmãos, homens casados e outros, que fingiam ser irmãos do Templo, as usaram para jurar sobre elas sobre assuntos mundanos. Trouxeram tanta vergonha e prejuízo à Ordem de Cavalaria que até seus escudeiros riram; e por esta razão sugiram muitos escândalos. Portanto, que se lhes entregue hábitos negros, mas se esses não se pode encontrar, lhes deverá ser dado o que se encontre nessa província ou que seja mais econômico que o burel.

Sobre irmãos Casados

69. Se homens casados pedirem para ser admitidos na fraternidade, prestar favores e ser devotos da casa, permitimos que os recebais sob as seguintes condições; ao morrer deverão deixar uma parte de suas propriedades e tudo que tiverem obtido desde o dia de seu ingresso. Durante sua permanência, deverão levar uma vida honesta e comprometerem-se a agir em favor de seus irmãos, porém, não deverão levar hábitos brancos nem mandil. E mais, se o senhor falecer antes de sua esposa, os irmãos ficarão só com uma parte de seus bens, deixando para a dama o resto a fim de que possa viver sozinha durante o resto de sua existência, posto que não é correto perante nós, que ela viva como confrade em uma casa junto a irmãos que prometeram castidade a Deus.

Sobre Irmãs

70. A companhia das mulheres é assunto perigoso porque por sua culpa o experimentado diabo desencaminhou a muitos do reto caminho do Paraíso. Portanto, que as mulheres não sejam admitidas como irmãs na casa do Templo. Por isso, queridos irmãos, que não consideramos apropriado seguir esse costume para que a flor da castidade permaneça sempre impoluta entre vós.

Que não tenham intimidades com mulheres

71. Cremos imprudente para um religioso olhar muito o rosto de uma mulher. Por esta razão ninguém deve se atrever a beijar uma mulher, seja viúva, menina, mãe, irmã, tia ou outro qualquer parentesco, e recomendamos que a cavalaria de Cristo Jesus evite a todo custo os abraços de mulheres, pelos quais muitos homens pereceram, para que se mantenham eternamente perante Deus com a consciência pura e a vida inviolável.

Não ser Padrinhos

72. Proibimos que os irmãos, de agora em diante, levem crianças à pia batismal. Ninguém deverá se envergonhar de recusar a ser padrinho ou madrinha, já que esta vergonha traz consigo mais glória que pecado.

Sobre os Mandatos

73. Todos os mandatos que se mencionaram e escreveram aqui nesta presente Regra estão sujeitos ao juízo do Mestre.

Estes são os Dias Festivos e de Jejum que todos os Irmãos devem Celebrar e Observar

74. Que saibam todos os presentes e futuros irmãos do templo que devem jejuar nas vigílias dos doze apóstolos, que são: São Pedro, São Paulo, Santo André, São Thiago, São Felipe, São Tomé, São Bartolomeu, São Simão, São Judas Tadeu, São Mateus. A vigília de São João Batista, a vigília da Ascenção e os dois dias anteriores, os dias de rogativas, a vigília de Pesntecostes, as quatro Temporas, a vigília de São Lurenço, a vigília de Nossa Senhora da Ascenção, a vigília de Todos os Santos, a Vigília da Epifania. E deverão jejuar em tosos os dias citados segundo disposição do Papa Inocêncio no Concílio da cidade de Pisa. E se alguns dos dias de jejum cai numa Segunda-feira, deverão jejuar no Sábado anterior. Se o Natal de Nosso Senhor cai numa Sexta-feira, os irmãos comerão carne em honra da fessta, mas deverão jejuar no dia de São Marcos devido às Litanias, porque assim foi estabelecido por Roma para os homens mortais. Noão obstante, se cai durante a oitava da Páscoa, não deverão jejuar.

Estes são os Dias de Jejum que deverão ser observados na Casa do Templo

75. Natal de Nosso Senhor; a festa de Santo Estevão; São João Evangelista; os Santos Inocentes; o oitavo dia depois do Natal, que é o dia de Ano Novo; a Epifania; Santa Maria Candelária; São Matias Apóstolo; a Anunciação de Nossa Senhora em Março; Páscoa e os três dias seguintes ao dia de São Jorge; os Santos Felipe e Thiago, dois apóstolos; o encontro da Vera Cruz; a Ascenção do Senhor; Pentecostes e os seguintes: São João Batista; São Pedro e São Paulo, dois apóstolos; Sant Maria Madalena; São Thiago Apóstolo; São Lourenço; a Ascenção de Nossa Senhora; a natividade de Nossa Senhora; a Exaltação da Cruz; São Mateus Apóstolo, São Miguel; Os Santos Simão e Judas; a festa de Todos os Santos; São Martinho no inverno; Santa Catarina no inverno; Santo André; São Nicolau no inverno; São Tomé Apóstolo.

76. Nenhuma das festas menore se deve observar na casa do Templo e desejamos e aconselhamos que se cumpra estritamente: todos os irmãos do Templo deverão jejuar desde o Domingo anterior a São Martinho até o Natal de Nosso Senhor, a menos que a enfermidade o impeça. Se ocorrer que a festa de São Martinho caia num Domingo, os irmãos não comeram carne no Domingo anterior.




   
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